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A Coreia não é um "cartoon"

Independentemente das especificações técnicas, o ensaio nuclear da Coreia do Norte, no passado sábado, é um teste de laboratório à forma como a política internacional agita os seus reagentes.

Tenha-se algo como certo: o programa nuclear coreano é imparável enquanto a reacção de todo o Mundo se limitar a continuar a medir o impacto da possível destruição, evitando a mesa das negociações. Quando as janelas dos edifícios sul-coreanos abanaram durante o último ensaio, as medições cruzaram-se com a história recente: a bomba de hidrogénio nos túneis subterrâneos, com uma potência explosiva de cerca de 120 quilotoneladas, foi dez vezes mais potente do que a utilizada pelos americanos em Hiroshima e Nagasáqui. Um abalo sísmico de 6,3 na escala de Richter ao sexto ensaio nuclear da Coreia do Norte. E ninguém pode dizer que a comunidade internacional foi apanhada desprevenida quando só Bill Clinton tentou a via das negociações. Desde que George W. Bush rasgou o acordo com Pyongyang, nem Obama ou Trump conseguiram perceber o óbvio: não será a tinta da China a matar o monstro.

O actual líder norte-coreano não é pessoa de amigos relativos. Nem com a China. Kim Jong-un não tem o perfil do seu pai e predecessor, Kim Jong-il, mas o mais relevante dado novo é que o país mudou bastante na última década: cresceu em capacidade nuclear, a legitimidade do Estado reforçou-se, a economia é robusta e até permite o aparecimento de empresas numa pequena economia de mercado. O actual regime tem um prazo de validade robusto, não permite intervenção externa sem retaliação de dimensões imprevisíveis. E à força de querer acabar com o regime à bomba, vemos a comunidade internacional arrastar a solução para o campo da impossibilidade, acrescentando mais anos de legitimação pela lógica simples da oposição ao inimigo externo. Ver Kim Jong-un como uma caricatura e a Coreia do Norte como um "cartoon", eis o que assegura anos de vida ao regime.

Desde que, na Florida, Trump caiu de amores pelo líder chinês Xi Jinping, a perspectiva norte-americana sobre a península é só uma: Pequim trata, a China consegue. Semana-sim-semana-não, Trump descarrega sobre a Coreia a cólera da sua arma de cowboy com "fogo e fúria como o Mundo nunca viu". Merkel defende sanções mais severas da ONU e a Coreia do Sul faz manobras navais. A China não consegue conceber que milhões de norte-coreanos passem a fronteira aquando da desagregação do sistema na Coreia do Norte, mas é bem capaz de começar a achar esse movimento migratório mais sedutor do que a perspectiva de um Japão nuclear. Sente-se que estão todos aos papéis a jogar a batalha naval, com actores secundários envolvidos em palpites e manobras de recurso para a diversão. Nada de nada, até à inevitabilidade de negociações não condicionadas pela superioridade moral ou pelo último medo.

Artigo de Miguel Guedes, publicado no “Jornal de Notícias” em 6 de setembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

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