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Conversa da Treta

É um pouco difícil compreender como pode ser Secretário de Estado da Cultura quem não acredita em políticas culturais.

O Secretário de Estado da Cultura não gosta de “política cultural”. Parece-lhe que é “política de espírito”. É talvez um pouco difícil compreender como pode ser Secretário de Estado da Cultura quem não acredita em políticas culturais… Mas deixemos isso por agora e pensemos apenas na “política de espírito”.

É recorrente a ideia de que a intervenção pública no sector cultural é próxima de uma direcção do gosto ou de um desenho autoritário do que deve ser a identidade de um povo. Não é estranho que assim seja. Porque assim foi em períodos diversos da nossa história; do fascismo que desenhou a “arte popular”, ao diletantismo das políticas de financiamento ao gosto do governante do momento.

Mas não tem de ser assim. A ausência de estratégia para as políticas culturais em democracia não é inevitável. É possível pensar a intervenção do Estado a partir daquilo que é a exigência constitucional: assegurar o acesso à cultura. E, a partir deste imperativo, construir os serviços públicos que garantam esse acesso e criar condições para que exista a pluralidade de experiências que constroem a vida cultural.

Redes de bibliotecas, museus e teatros espalhadas pelo país são serviços públicos de cultura. Quantas vezes ouvimos o governo falar delas? Quase nunca. Capacidade de investigação no património e nas artes é conhecimento. Que sabemos de tudo isto? Quase nada. Interpretação, mediação, educação para a arte, o património e a cultura. Quem conhece um plano estratégico sobre qualquer destas áreas? Ninguém, porque não existe.

Da política cultural deste Governo sabemos que o Secretário de Estado da Cultura simplesmente não gosta. Que pensa mesmo que o lugar do cinema e do património é no Ministério da Economia. E sabemos que na “reforma curricular” de Crato não há uma linha para a cultura. E que Relvas não pensa um segundo sobre cultura quando decide sobre a RTP. E que Gaspar acha um luxo gastar 0,01% do PIB em financiamento às artes e, já se sabe, que caberá ao SEC escolher os “projectos de mérito”.

E assim a “política cultural” é, verdadeiramente, algo que ninguém pode defender. Porque se o que é estratégico ou não existe ou serve outras estratégias (a cultura como penacho do turismo, por exemplo), porque se o que resta de política cultural é a escolha do governante de cada momento do que tem ou não mérito, a “política cultural” é algo de francamente assustador. E ficamos a pensar se, para seguir os bons conselhos do governo, não é melhor que tudo emigre. Património incluído, embalado em caixas forradas a veludo azul.

 “Conversa da Treta” é o título de um espectáculo de António Feio e José Pedro Gomes que foi criado para poder circular por todo o país. Só precisava de duas cadeiras, luz e som básicos e cortina. Mesmo assim nalguns teatros precisou de adaptações; nem cortina havia.
 

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.

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