História de uma tese e de uma operação que não vingou.
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História de uma tese e de uma operação que não vingou.
A Greve Geral de quinta-feira passada foi um momento ímpar de mobilização popular e de solidariedade dos trabalhadores contra o mais duro e injusto Orçamento de Estado da história da Democracia. A manifestação, que pela primeira vez se realizou em Portugal e a que milhares de pessoas aderiram, deu visibilidade ao conflito social e ao descontentamento.
O apoio popular à Greve Geral, mesmo daqueles e daquelas que não a puderam fazer, foi inequívoco, principalmente porque o Governo já não consegue sustentar que este caminho é inevitável. As pessoas já sabem que este caminho levará ao aumento da pobreza, das desigualdades e da exploração e que não sairemos da crise por esta via.
Os argumentos do Governo escasseavam e, por isso, PSD e CDS arregaçaram as mangas e elaboraram um plano de 3 passos para atacar a Greve: 1) desvalorizar; 2) descredibilizar; e 3) criminalizar.
Nos dias anteriores à Greve Geral e nas primeiras horas da noite de quinta-feira, o Governo manteve a sua propaganda de que a Greve era apenas “um direito” tal como o trabalho e o comparecer ao trabalho também o era. A ideia era naturalizar a ideia de Greve Geral como um pormenor a que nem prestariam muita atenção e que serviria principalmente para que as pessoas exteriorizassem o natural sentimento de desagrado que as medidas de austeridade causavam. A desvalorização da Greve não resultou, porque muitas pessoas se juntaram aos activistas sindicais e sociais e ajudaram a fazer crescer o conflito.
Já na manhã de quinta-feira, o Governo começou a lançar dados sobre a adesão à Greve. Primeiro arriscou os 3,6% e, mais tarde, foi obrigado a dizer 10%. Mas todas as pessoas perceberam que a adesão à Greve Geral foi massificada. Aliás, às 7h da manhã os jornalistas da rádio confessavam-se surpreendidos com a fluidez do trânsito nas vias de acesso a Lisboa. Esse facto foi a prova de que milhares de pessoas não foram trabalhar, visto que os transportes públicos, como os comboios, autocarros e barcos, estavam em Greve e o carro seria o único meio de chegar ao trabalho.
Mas cheguemos à parte do plano do Governo para o dia da Greve Geral que foi elaborado com maior minúcia e empenho e que foi executado pelo Ministro da Administração Interna: a criminalização. Durante toda a noite da Greve, centenas de polícias do corpo de intervenção, altamente equipados, foram mobilizados para fazer cumprir os ilegais serviços mínimos em locais estratégicos como a Carris, os CTT ou os serviços de recolha do lixo. Uma a uma, retiraram as pessoas que estavam nos piquetes de Greve. Fizeram-no, quase sempre, de um modo “cordial”, mas o aparato que convocaram servia bem de aviso a todos.
Repetiram-se ações semelhantes das forças policiais por todo o país para que não houvesse a mínima dúvida de que o Governo queria impor o medo sobre quem aderia à Greve Geral.
No entanto, faltava a Miguel Macedo um ato que permitisse ao Governo justificar a sua acção durante toda a madrugada de quinta-feira. Mas o ministro tinha algo na manga.
No final da tarde milhares de pessoas que se haviam juntado à manifestação que oferecia visibilidade à Greve Geral estavam em São Bento, frente ao Parlamento, para protestar, de novo, com mais força e pacificamente, contra as medidas de Passos Coelho e Paulo Portas tiveram oportunidade de verificar que a polícia tinha montado uma operação para provocar os manifestantes, criar tumultos e encenar uma peça que lhes permitisse abafar a importância da Greve Geral e criminalizar todas e todos a que a ela tinham aderido.
Saiu-lhes o tiro pela culatra, pois ficaram gravadas com particular nitidez as operações policiais de agentes infiltrados à paisana que incitaram ao confronto, agrediram pessoas e realizaram detenções ilegais.
A deputada do Bloco de Esquerda Ana Drago viu como 4 agentes à paisana agrediram violentamente um rapaz e o manto de mentiras só ficou levantado quando chegaram polícias fardados que, ao invés de prenderem os agressores do rapaz, os protegeram. Felizmente, alguém filmou toda esta intervenção para que hoje todos saibam o que aconteceu nesse dia.
Mas falo também na primeira pessoa: conheço bem o primeiro dos “perigosos agitadores” detidos naquele dia. Ele contou-me e mais tarde pude confirmá-lo num vídeo que estava frente à escadaria do Parlamento e três agentes à civil saíram das linhas da polícia de choque e escolheram-no de um modo aparentemente aleatório para ser detido. Passaram nas suas costas e empurram-no para a linha policial. Por causa dessa acção houve uma pequena agitação entre os manifestantes e a polícia, porque ninguém compreendia aquela detenção. Mas o motivo hoje é mais claro: era uma operação policial para inflamar os ânimos de quem protestava e justificar a desproporção dos meios e para criminalizar a Greve.
Momentos depois, o porta-voz da PSP dizia não confundir a manifestação legítima dos sindicatos com o que se passou depois. De facto, não havia nenhuma confusão possível, visto que os desacatos foram planeados e executados pela polícia e não pelos manifestantes, sindicalizados ou não.
No day-after Miguel Macedo reunia com os chefes da polícia para agradecer a sua dedicação. Mas já não havia nada a fazer. A operação policial do Governo tinha falhado porque tinha sido revelada.
Assim, a Greve Geral e a mobilização popular venceram uma primeira batalha contra a “inevitabilidade” e o mesmo Governo “inflexível” que dizia não existirem “almofadas”, foi hoje obrigado a alterar parte do seu Orçamento de Estado à pressa, dando mais umas migalhas para tentar abafar o conflito social.
Resto do dossier:
Um dado parece adquirido: foi a maior Greve Geral de sempre tanto no sector público como no privado.
Não existiu uma manifestação, mas sim um desfile delas. Em todas sentia-se combatividade e a tão necessária vontade de mudança.
O partido alemão Die Linke enviou ao Bloco de Esquerda uma declaração onde expressa a sua solidariedade para com os grevistas portugueses e felicita a “coragem” para “resistir à chantagem exercida por muitos governos europeus, sobretudo o alemão”.
A greve geral é um grande protesto contra a desastrosa política de austeridade imposta pelo governo PSD e pela troika. Nesta luta constrói-se unidade para mudar a situação no país, juntam-se pontes para lutar pela mudança na UE.
Não sendo a crise em que nos estão a afundar uma crise portuguesa, é aqui que a podemos e devemos combater nos seus fundamentos.
A força da greve de dia 24 de Novembro não pode ficar por aqui. Tem que continuar, dia a dia, mas terá, certamente, que ser chamada a comparecer nas ruas noutra grande mobilização de greve geral.
Reportagem da participação na greve geral de 24 de Novembro dos portugueses residentes na França, que tiveram o apoio dos Indignados franceses.
Crónica de Cristina Semblano na Emission Pluriel da rádio Arc-en-ciel difundida a 25 de novembro de 2011.
História de uma tese e de uma operação que não vingou.
Francisco Louçã esteve com vários piquetes de greve em Lisboa nas primeiras horas da Greve Geral. A primeira etapa da noite passou pelo Metro de Lisboa.
Os aviões estão em terra nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. Na CP, os serviços mínimos não estão a ser cumpridos e segundo os sindicatos, regista-se uma “paralisação total” na Soflusa, na Transtejo, na STCP e no Metro de Lisboa. Na Carris, apesar dos confrontos com a polícia, há fortes perturbações nos serviços, tal como na Vimeca.
Em grande parte dos municípios, a adesão dos trabalhadores paralisou completamente a recolha do lixo. O sindicato dos trabalhadores da administração local (STAL) denuncia as medidas de coação em Oeiras, com intervenção do Serviço de Intervenção Rápida da PSP, e em Sintra, onde foi contratada uma empresa privada para substituir os grevistas.
Pelas 7h, o corpo de intervenção da PSP quebrou o piquete da Carris, na Musgueira, onde se encontravam cerca de 50 pessoas, entre sindicalistas e populares. Um membro dos Precários Inflexíveis e outro da ATTAC ficaram com marcas da violência policial. A madrugada ficou ainda marcada por incidentes policiais noutros piquetes de greve.
Noticiário do esquerda.net emitido às 10 horas. Reportagem em vídeo da intervenção policial contra o piquete de greve da Carris na Musgueira em Lisboa, dos piquetes noturnos no Metro de Lisboa e na estação dos CTT de Cabo Ruivo e da Autoeuropa às 7 horas da manhã.
A administração da Renault impediu o piquete de greve de entrar nas instalações e recorreu à Guarda Nacional Republicana para travar os grevistas à entrada da fábrica, denunciou esta manhã o dirigente da União dos Sindicatos de Aveiro.
Fotos de Entroncamento (CP), Coimbra (serviços municipalizados), Olhão (Ambiolhão), Autoeuropa, Carris, CTT Lisboa e RTP.
O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, congratulou-se com a participação “muito significativa dos trabalhadores" na greve geral desta quinta-feira. “É uma mensagem clara contra o aumento da exploração e contra o empobrecimento”, disse.
Noticiário do esquerda.net emitido às 11 horas, com reportagem do piquete no Metro do Porto, da Faculdade de Letras no Porto e na RTP.
Noticiário do esquerda.net emitido às 12 horas, com reportagem do desfile da CGTP em Coimbra e em Setúbal.
Naquela que já é considerada “uma das maiores greves gerais realizadas em Portugal”, os transportes, as escolas, as universidades, os hospitais, os serviços e muitas fábricas paralisaram. Disponibilizamos aqui as informações que foram chegando das várias regiões.
Fotos da cidade da Maia paralisada, de piquetes nos distritos de Braga e Aveiro, de concentrações em Coimbra e Setúbal, de uma escola de Pombal, da Fertagus e da RTP.
Noticiário do esquerda.net emitido às 13 horas, com reportagem no piquete da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e da baixa do Porto.
A manifestação promovida pela CGTP chegou a S. Bento, depois de percorrer as ruas da Baixa lisboeta com milhares de manifestantes. Milhares de ‘indignados’ desfilaram pela Av. da Liberdade até ao encontro do protesto da maior central sindical do país.
Na Galiza e em Atenas, trabalhadores galegos e gregos fazem concentrações diante de consulados e embaixadas portuguesas e entregam notas de solidariedade com os trabalhadores de Portugal.
A Greve Geral desta quinta-feira contou com uma forte adesão dos professores, educadores e investigadores portugueses que, em muitos casos, superou os valores verificados há um ano. “O ensino superior fez das maiores greves de sempre!”, lê-se no site da Fenprof.
Noticiário do esquerda.net emitido às 14 horas, com reportagem do desfile da distrital do Bloco em Lisboa.
Noticiário do esquerda.net emitido às 15 horas, com reportagem da concentração em Lisboa e Aveiro.
Noticiário do esquerda.net emitido às 16 horas, com reportagem da concentração de Faro.
Noticiário do esquerda.net emitido às 17 horas, com reportagem da concentração em São Bento e de Vila Real.
A deputada do Bloco Mariana Aiveca realçou a enorme adesão à greve, quer no setor público como no privado. Carvalho da Silva sublinhou que os sacrifícios exigidos aos portugueses servem para pagar “aos credores e agiotas” e João Proença acusou o governo de manipular dados sobre a adesão à greve. Ver vídeo.
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