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Ceder agora seria desistir

Não é tempo de cedências. Cada passo atrás queima uma oportunidade. Pelo contrário, cada pequena conquista dá-nos mais força.

Os aposentados ainda têm muito pouco em cima da mesa mas, se cederem, as perdas serão irreparáveis. Todos juntos, conseguimos alguma reversão sobre a situação humilhante que o governo PSD CDS nos impôs. Não posso concordar mais: é ainda pouco mas é um começo. Mas se somarmos as medidas de política social que se têm vindo a conquistar, então, a realidade fica um pouco mais brilhante e podemos acreditar que a tendência é para o reforço da reposição. Mas o caminho à nossa frente é longuíssimo e muito duro. Mais duro ainda se atentarmos bem na condição essencial dos aposentados: a sua idade. Ilusões não as temos; mas aquilo que fizermos vai alterar também a condição de vida dos mais novos, dos seus familiares. Vai seguramente abrir outras perspetivas enquanto no presente põe termo à humilhação e à indignidade.

Escrevo estas linhas acabada de chegar do Porto. Na estação do Oriente é devastador ver os cidadãos que aguardam por um prato de sopa, alguma comida. Um pouco de solidariedade. Talvez desempregados, talvez sem abrigo mas pessoas. Como ousam os políticos europeus ameaçar-nos com sanções porque, entre outras medidas, foi aumentado o salário mínimo nacional em alguns euros?! Não há humilhação maior; a palavra de ordem é cerrar fileiras.

Não há cedência possível. Só pode haver cedências quando há negociação, isto é, matéria para negociar. Que não há. Deste lado, sobra a injustiça social, a exploração. Do outro lado, abunda a soberba, a máquina capitalista bem untada. Não há espaço para nenhuma cedência, não se pode abdicar. Noutros tempos, olhava-se para lá dos Pirenéus com confiança, com esperança. Era uma espécie de terra prometida; de lá vinham ventos de mudança, uma certeza que o futuro seria melhor. A Europa para lá dos Pirenéus era uma alegria. Os fanáticos do rigor, inflexíveis, insensíveis e frios estão a destruir a Europa.

Para cá do Caia e de Vilar Formoso também temos espécimenes desses. Batalham afincadamente pela defesa das mesmas causas que os seus amigos europeus e parecem comprazer-se com a ameaça que paira entre nuvens bem carregadas. Uma ameaça, dizem uns que não passa disso; dizem outros que será simbólica. Uma sanção simbólica? Pendente? Na escola era assim: levantava-se a régua, agitava-se e pousava-se sobre a mesa do professor. A menina dos cinco olhos doía que se fartava. Mas o tempo da escola punitiva já era! Resultou tão mal que foram adotados novos métodos.

A luta dos aposentados pela reposição do que perderam mal começou. Não é tempo de desistir.

Este é o tempo de preparar propostas, fundamentá-las e colocá-las no tabuleiro para discussão. Juntar forças, ideias e iniciativas. Este é o tempo de ir anotando para que não esqueça cada vitória alcançada, seja nas pensões, na habitação, na energia, no salário mínimo, nos transportes ou na saúde. E quando nos perguntarem “afinal o que conseguiram?”, a resposta organizada será pronta. O que nós andámos para aqui chegar! Claro que a luta vai ser muito árdua, haverá companheiros a quem faltará o ânimo mas a certeza de que estamos na mesma frente com os jovens, com os precários, com os desempregados contra a injustiça social e contra o empobrecimento, dá-nos a confiança de que precisamos. Nada será devolvido, nada será ganho de mão beijada.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa.

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