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Avanços e recuos

Na Grécia os avanços económicos das folhas de Excel a que Ulrich acede são aqueles que têm rostos como metade da população abaixo da linha de pobreza, cortes de 22% no salário médio ou aumento dramático da taxa de suicídio.

Fernando Ulrich entendeu por bem prevenir todos os clientes do BPI sobre os riscos que para a Europa e o Mundo advêm de uma vitória do Syriza nas eleições gregas deste domingo. E assim se expressou sobre a ameaça grega em e-mail enviado a todos os tantos incautos clientes do banco: “A convocação de eleições antecipadas para o dia 25 de janeiro não só compromete nos avanços económicos que o país realizou em 2014 como também ressuscitou o espectro da vitória de um partido anti-europeísta”.

Fernando Ulrich está portanto muito preocupado com o recuo dos avanços económicos e com o avanço dos recuos europeístas na Grécia. Tanto que se sente no dever de alertar para eles e o seu significado os clientes do seu negócio. Louve-se o gesto, cheio de altruísmo e da solidariedade dos previdentes. No meio de tanta generosidade do gesto talvez não sobre para a apreciação dos seus conteúdos. Mas é sobre eles que eu sugiro que nos detenhamos por uns momentos.

A tese dos avanços económicos na Grécia é a expressão da visão que a elite de negócios europeia tem sobre o estado das coisas no território das periferias europeias depois do choque da austeridade. Está tudo melhor apesar de as pessoas estarem todas piores. A economia está muito mais forte e saudável apesar de ter entrado em deflação ao ponto de o Banco Central Europeu ter decidido em desespero uma injeção de 1.1 biliões de euros para tentar fazer subir a inflação. E na Grécia os avanços económicos das folhas de Excel a que Ulrich acede são aqueles que têm rostos como metade da população abaixo da linha de pobreza, cortes de 22% no salário médio ou aumento dramático da taxa de suicídio. Alertados pelo generoso e-mail de Fernando Ulrich, os clientes do seu negócio certamente não deixarão de concordar que tudo isto são avanços económicos substanciais.

A tese dos recuos europeístas foi também a que mais brandida foi pela elite da governação europeia e pelos mestres do choque troikista ao longo deste mês de preparação da decisão democrática do povo grego. É a tese de que a Europa do euro tal como ele existe é a única Europa que pode haver e que tudo o que dela se distancie é anti-Europa. Para Fernando Ulrich, um partido que se bate por uma conferência europeia de renegociação das dívidas soberanas ou pela indexação do pagamento das dívidas ao ritmo de crescimento das economias dos países é um partido anti-europeísta. Já um partido que advoga a não inclusão dos povos das periferias nos programas de reanimação da economia do espaço da União será, para o europeísta Ulrich, um bom partido. É por isso, e só por isso, que Fernando Ulrich e os adeptos do seu europeísmo fragmentador, hierarquizador e punitivo não perdoam ao Syriza a ousadia de denunciar essa Europa em nome de outras Europas possíveis. “Dizem mal do nosso clube? Então saíssem!” – dizem os europeístas convictos do costume. O que eles não enxergam é quanto há de inaceitável na sua pesporrência de que a Europa é o clube deles, cujas regras eles fixaram ad eternum.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.

Comentários

Caro Camarada José Manuel Pureza
Não vou fazer comentário a este seu artigo, porque com apressa que estou hoje ainda não o li.
Quero sim saúda-lo pela sua intervenção corajosa na RTP acerca da cobertura deste canal sobre as eleições gregas. Eu tinha do José Rodrigues dos Santos uma opinião positiva, de jornalista honesto. A minha alma ficou parva com o que ouvi. Verificou-se mais isenção e profissionalismo nas Tvs privadas do que naquela que todos nós pagamos. Ficou a impressão clara que a reportagem e os comentários (veja-se a postura da pivot) foram previamente programados e os "jornalistas" escolhidos a dedo. Uma vergonha. O BE deve exigir o afastamento desta gente, e a responsabilização dos directores de informação. Não fosse a grande diferença da língua, eu diria que estávamos a assistir ao telejornal da TV da Coreia do Norte.
A propósito disto deixe que lhe manifeste a minha opinião sobre o "jornalismo" que em Portugal tem foito a cobertura da actividade política do Bloco. Só quem não quer vêr. Não são as discussões e eventuais divergentes dentro do bloco que tem contribuído para a perda de influencia deste partido. São duas coisas: O refluxo dos movimentos sociais que a seguir às grandes movimentações não tiveram continuidade, e uma feroz campanha da comunicação social com vista a desacreditar a alternativa de esquerda. O podemos em espanha tira o sono a muita gente em Portugal. Penso que durante o processo da convenção O bloco não deu importância suficiente ao papel da comunicação social, acabando por dar muito espaço aos papagaios contratados. Poderá agora fazê-lo neste período de pré campanha.
A sua intervenção na TV no passado domingo foi um bom exemplo a seguir.
Saudações Bloquistas
Paulo Alves

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