Ainda não é o tempo?!

A Alemanha comanda e segue-se-lhe um coro de vozes. Não é preciso irmos longe. Se ouvirmos com atenção as declarações de Passos Coelho e as da Sra. Merkel constatamos que a única diferença reside na língua em que são proferidas. Sem linha política para pôr o país a crescer, o primeiro-ministro português agarra-se afincadamente à que tem sido definida pela chanceler alemã. Nos dias que correm essa sintonia chega mesmo ao ponto de fazer lembrar o antigo anúncio da infalível super-cola 3.

Voltemos aos eurobonds. Passos Coelho foi ‘gentil’ ao ponto de nos vir explicar que “ainda não estamos preparados”. Vamos por partes. Em primeiro lugar, ainda não é o tempo porquê? Em segundo lugar, não estamos preparados para o quê e quem é que não está preparado? À primeira pergunta a resposta dos dirigentes europeus tem sido clara: ‘ainda não é o tempo porque o ciclo económico não facilita e o facto de haver economias com níveis de integração tão divergentes na União não ajuda’. Daqui parte-se para uma segunda dedução: ‘é preciso esperar que a economia cresça e que se reduzam os desequilíbrios macroeconómicos para implementar os eurobonds com segurança’. É facto que a implementação de medidas como esta ou semelhantes é sempre mais fácil em cenários de crescimento, mas a pergunta que se lhe segue é: em que Europa vivem estes senhores? Não é na mesma que nós vivemos seguramente. Na Europa deles, a economia vai crescer e a cada ano que passa já se sabe que não é nesse mas sim no próximo. Esta fábula tem sido trágica para os povos europeus.

A Europa em que vivemos não está a crescer nem se espera tal coisa para os próximos tempos e quem manda sabe-o bem porque só tem uma linha política que é a da austeridade. Mais austeridade, mais recessão, é simples. Na Europa em que vivemos, a tendência é para o agravamento das divergências entre países deficitários, como é o caso de Portugal, e países excedentários, como é o caso da Alemanha. É por isso que a resposta à primeira pergunta é tão simples: quanto mais tarde pior e esse adiamento não é outra coisa senão a afirmação de que, na verdade, os líderes europeus não querem eurobonds. Deviam dizê-lo com franqueza e deixarem os eufemismos de lado. Em relação à segunda pergunta, a de não estarmos preparados, esta não é senão sinónimo do que acabei de referir. Por este andar, nunca estaremos. Uma Europa que aceite partilhar a sua dívida pública é um projeto solidário e nesse não estão interessados, porque no cenário atual o excedente de uns é conseguido à custa do défice dos outros. Pelo meio vão-se esquecendo que há limites para tudo e que estes começam a dar sinais.

Artigo publicado no jornal “As Beiras” a 26 de Maio de 2012


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