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Agradecimento ao Professor Cavaco Silva

A intervenção de Cavaco Silva na universidade de verão dos jovens do PSD é um triplo erro para ele e uma tripla vantagem para a esquerda.

Em primeiro lugar, o contexto. O ex-presidente esteve quase sempre discreto durante o mandato do seu sucessor, ao longo de ano e meio. Apresentou um controverso livro de memórias, mas a reacção da opinião pública já o devia ter feito perceber que as suas quezílias com Sócrates não aquecem nem arrefecem o país. Assim, ao escolher fazer pela primeira vez um discurso político de fundo, poderia ter optado por um cenário nacional mais abrangente, que evocasse o seu tempo em Belém. Não, escolheu voltar ao partido para perorar perante uma centena de jovens laranja. Quis portanto fazer-se pequeno.

Em segundo lugar, o tema. Cavaco escolheu abdicar de um tema. Para ser justo, supõe-se que falou da importância do euro, dos maus líderes da União Europeia, de um tal “senhor Trump” e de outras minudências. Mas isso tornou-se irrelevante porque decidiu apimentar o seus discurso com remoques evidentemente dirigidos a António Costa e a Marcelo, num estilo que nunca tinha usado no passado. Os “pios” e a “verborreia frenética” tinham obviamente alvos marcados, e mesmo o facto de só os ter insinuado ainda entusiasmou mais os jornalistas. Por isso, da sua intervenção de fundo, a tal que só fez depois de profundo silêncio e augusta ponderação, só restarão os “pios”.

Em terceiro lugar, a posição. Ao confirmar o rancor de Passos Coelho e a estratégia do azedume, Cavaco fez-se simpático para a matula que vitupera ter sido arredada do poder pelas malfadas eleições de 2015. Mas isso também é prejudicial para Passos e até ele se aperceberá que Cavaco, insinuando, é ainda mais violento do que o ex-primeiro ministro e portanto mobiliza melhor os corações do PSD. Desse modo, ao fazer de Passos, Cavaco só mostra que Passos é poucochinho.

A consequência de tudo isto é que fica tudo na mesma. O PSD empolga-se e Marco António Costa pede mais, Paulo Rangel vê o sangue a correr nas estradas provocado pela perfídia do governo, Passos defende todos e pronto. O quartel general do PSD esgotou-se no “pio” de Cavaco e na defesa do “pio”, foi a semana toda nesta piadeira.

Ainda pode vir, em recurso do desespero, um Bannonzinho caseiro deslumbrar-se com o grande Homem que falou e espantar-se pelo facto de as suas palavras sábias terem alimentado a pilhéria, ou um cavaquista de última hora garantir que, por um vislumbre, Portugal voltou a ter um Presidente porque o actual desertou, ou a brigada neoconservadora chorar porque o Homem falou da “realidade” e a plebe lhe virou as costas, encantada com a sarabanda que o Presidente não perdeu a oportunidade de passar ao conferencista.

Por tudo isto, só posso agradecer a Cavaco Silva. Ao levar o PSD para onde a maioria o quer bem quietinho, faz um serviço à esquerda: quanto mais ressentimento dos ex-governantes, maior o alívio da maioria da população. Quanto mais a política da direita estiver exclusivamente concentrada em lembrar o passado – e Cavaco só é passado –, mais confortável para o governo. Ao radicalizar o PSD no discurso do ódio, Cavaco ajuda a que a descompressão continue o seu caminho. Ao atacar um presidente popular que tem apoiado institucionalmente o governo, Cavaco pode pensar que se ergue em anti-Marcelo, mas só torna mais fácil que Marcelo lembre que foi eleito porque ninguém suportava mais o estilo Cavaco.

É tudo esplêndido e dificilmente poderia ser melhor. O regresso de Cavaco lembra a Portugal o que andamos desde que o anterior presidente e a sua coligação de direita foram afastados do poder e torna tudo mais previsível e mais fácil. Nem o governo merece tanta ajuda da direita, mas, enfim, é o que temos e quem oferece o que tem a mais não é obrigado.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 5 de setembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

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