Depois de ter, antes de todos, previsto
o declínio do império americano, Immanuel Wallerstein
afirma agora que entrámos desde há 30 anos na fase
terminal do sistema capitalista. "A situação torna-se
caótica, incontrolável para as forças que até
então o dominavam, e assiste-se à emergência de
uma luta, já não entre os detentores e os adversários
do sistema, mas entre todos os actores para determinar o que o vai
substituir", diz o sociólogo norte-americano.
Entrevista feita por Antoine
Reverchon, para o diário francês Le Monde
Para além de signatário
do manifesto do Fórum social de Porto Alegre, em 2005, o
senhor é considerado um dos inspiradores do movimento
altermundialista. Fundou e dirigiu o Centro Fernand-Braudel para o
estudo da economia dos sistemas históricos e das civilizações
da universidade do Estado de Nova York, em Binghamton. Como situa a
crise económica e financeira actual no "tempo longo"
da história do capitalismo?
Immanuel Wallerstein: Fernand
Braudel (1902-1985) distinguia o tempo da "longa duração",
que vê sucederem-se na história humana sistemas que
regem as relações do homem com o seu meio material, e,
no interior destas fases, o tempo dos ciclos longos conjunturais,
descritos por economistas como Kondratieff (1982-1930) ou Schumpeter
(1883-1950). Encontramo-nos hoje claramente numa fase B de um ciclo
de Kondratieff que começou há 30-35 anos, após
uma fase A que foi a mais longa (de 1945 a 1975) dos 500 anos de
história do sistema capitalista.
Numa fase A, o lucro é gerado
pela produção material, industrial ou outra; numa fase
B, o capitalismo deve, para continuar a gerar lucro, financiarizar-se
e refugiar-se na especulação. Desde há mais de
30 anos, as empresas, os Estados e as famílias estão a
endividar-se maciçamente. Estamos hoje na última parte
de uma fase B de Kondratieff, uma vez que o declínio virtual
se torna real, e que as bolhas explodem umas a seguir às
outras; as falências multiplicam-se, a concentração
do capital aumenta, o desemprego aumenta, e a economia conhece uma
situação de deflação real.
Mas actualmente, esse momento do ciclo
conjuntural coincide com, e portanto agrava, um período de
transição entre dois sistemas de longa duração.
Penso de facto que entrámos desde há 30 anos na fase
terminal do sistema capitalista. O que distingue fundamentalmente
esta fase da sucessão ininterrupta dos ciclos conjunturais
anteriores, é que o capitalismo já não consegue
"fazer sistema", no sentido que entendia o físico e
químico Ilya Prigogine (1917-2003): quando um sistema,
biológico, químico ou social, se desvia cada vez mais
frequentemente da sua situação de estabilidade, quando
deixa de poder encontrar o equilíbrio, então assiste-se
a uma bifurcação.
A situação torna-se
caótica, incontrolável para as forças que até
então o dominavam, e assiste-se à emergência de
uma luta, já não entre os detentores e os adversários
do sistema, mas entre todos os actores para determinar o que o vai
substituir. Eu reservo o uso da palavra "crise" para este
tipo de período. Pois bem, encontramo-nos numa crise. O
capitalismo está a chegar ao seu fim.
Por que não haveria de
tratar-se de uma nova mutação do capitalismo, que já
conheceu a passagem do capitalismo mercantil para o capitalismo
industrial, depois do capitalismo industrial para o financeiro?
O capitalismo é omnívoro,
capta o lucro precisamente onde ele é mais importante num
determinado momento; não se contenta com pequenos lucros
marginais; pelo contrário, maximiza-os constituindo monopólios
- ele ainda tentou fazê-lo ultimamente nas biotecnologias e
nas tecnologias da informação. Mas penso que as
possibilidades de acumulação real do sistema atingiram
os seus limites. O capitalismo, desde o seu nascimento na segunda
metade do século XVI, alimenta-se do diferencial de riqueza
entre um centro, onde convergem os lucros, e periferias (não
necessariamente geográficas) cada vez mais empobrecidas.
Neste sentido, a recaptura económica
da Ásia do Leste, da Índia, da América Latina,
constitui um desafio inultrapassável para a "economia-mundo"
criada pelo Ocidente, que já não é capaz de
controlar os custos da acumulação. As três curvas
mundiais dos preços da mão-de-obra, das matérias-primas
e dos impostos estão por todo o lado em forte subida desde há
décadas. O curto período neoliberal que está
prestes a concluir-se apenas inverteu esta tendência
provisoriamente: no final dos anos 1990, estes custos eram certamente
menos elevados que em 1970, mas eram bem mais importantes que em
1945. Na realidade, o último período de acumulação
real - os "trinta gloriosos anos" - só foi possível
porque os Estados keynesianos puseram as suas forças ao
serviço do capital. Mas, também aí, foi atingido
o limite!
Há precedentes da fase
actual, tal como a está a descrever?
Houve muitos na história da
humanidade, ao contrário do que pretende a representação,
forjada no século XIX, de um progresso contínuo e
inevitável, inclusive na versão marxista. Prefiro
situar-me na tese da possibilidade do progresso, e não na sua
inelutabilidade. Com certeza que o capitalismo é o sistema que
soube produzir de uma maneira extraordinária e notável
mais bens e riquezas. Mas há também que olhar para a
soma das perdas - para o ambiente, para as sociedades - que ele
provocou. O único bem é aquele que permite obter para o
maior número uma vida racional e inteligente.
Dito isto, a crise mais recente
parecida à de hoje é o afundamento do sistema feudal na
Europa, entre os meados do século XV e do século XVI, e
a sua substituição pelo sistema capitalista. Esse
período, que culminou com as guerras de religião, vê
afundar-se o poder das autoridades reais, senhoriais e religiosas em
favor das comunidades camponesas mais ricas e das cidades. Foi aí
que se construíram, por pequenos passos sucessivos e de uma
forma inconsciente, soluções inesperadas cujo sucesso
acabará por "fazer sistema", alargando-se
lentamente, sob a forma de capitalismo.
Quanto tempo poderia durar a
transição actual, e em que poderia culminar?
O período de destruição
de valor que encerra a fase B de um ciclo Kondratirff dura geralmente
entre dois e cinco anos antes das condições de entrada
numa fase A, quando um lucro real que pode de novo ser extraído
de novas produções materiais, descritas por Schumpeter,
estiverem reunidas. Mas o facto de esta fase corresponder actualmente
a uma crise de sistema fez-nos entrar num período de caos
político durante o qual os actores dominantes, à frente
das empresas e dos estados ocidentais, vão fazer tudo o que é
tecnicamente possível para reencontrar o equilíbrio,
mas é muito provável que não o consigam.
Os mais inteligentes, esses, já
compreenderam que seria preciso arranjar algo de totalmente novo. Mas
múltiplos actores agem já, de forma desordenada e
inconsciente, para fazer emergir novas soluções, sem
que se saiba ainda que sistema resultará destas tentativas.
Encontramo-nos num período,
bastante raro, em que a crise e a impotência dos poderosos
deixam um espaço ao livre arbítrio de cada um: existe
hoje um lapso de tempo durante o qual nós temos, cada um, a
possibilidade de influenciar o futuro pela nossa acção
individual. Mas como este futuro será a soma do número
incalculável destas acções, é
absolutamente impossível prever que modelo se irá impor
no final. Dentro de dez anos, talvez vejamos mais claramente; dentro
de trinta ou quarenta anos, um novo sistema terá emergido.
Creio que é absolutamente possível tanto assistir-se à
instalação de um sistema de exploração
ainda mais violento que o capitalismo, como ver ao contrário
instalar-se um sistema mais igualitário e redistributivo.
As mutações anteriores
do capitalismo culminaram muitas vezes num deslocamento do centro da
"economia-mundo", por exemplo da Bacia do Mediterrâneo
para a costa Atlântica da Europa, e depois para os Estados
Unidos da América. O sistema que se segue será centrado
na China?
A crise que vivemos corresponde também
ao fim de um ciclo político, o da hegemonia americana,
encetado igualmente nos anos 1970. Os Estados Unidos continuarão
a ser um actor importante, mas jamais poderão reconquistar a
sua posição dominante face à multiplicação
dos centros de poder, com a Europa ocidental, a China, o Brasil, a
Índia. Um novo poder hegemónico, se quisermos retomar o
"tempo longo" braudeliano, pode levar ainda uns 50 anos a
impor-se. Mas ignoro qual será.
Entretanto, as consequências
políticas da crise actual serão enormes, na medida em
que os donos do sistema vão tentar encontrar bodes expiatórios
para o afundamento da sua hegemonia. Penso que metade do povo
americano não vai aceitar o que está em vias de
acontecer. Os conflitos internos vão por isso exacerbar-se nos
Estados Unidos, que estão na iminência de se transformar
no país mais instável politicamente do mundo. E há
que não esquecer que nós, os americanos, estamos todos
armados...
Immanuel Wallerstein é
investigador do departamento de sociologia da universidade de Yale
(EUA), ex-presidente da Associação internacional de
sociologia, fundador e director do
Centro Fernand-Braudel para o estudo da economia dos sistemas
históricos e das civilizações da universidade do
Estado de Nova York, em Binghamton, e colunista, entre outras
publicações, do Esquerda.net
11/10/2008.
Tradução de Jaime Pinho
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