700 mil milhões de dólares para apagar uma dívida privada e aumentar a dívida pública criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
27-Sep-2008
Wall Street - foto de othermore no flickrDiariamente surge um conjunto de provas do carácter inaceitável do sistema económico e financeiro mundial. O governo federal americano acaba de decidir comprar os créditos imobiliários mal parados detidos pelos bancos e por outras instituições financeiras até ao montante de 700 mil milhões de dólares. Esta soma representa apenas a parte visível do iceberg do endividamento apodrecido.
Artigo de Attac França, publicado a 22 de Setembro de 2008.

Mas o mais importante está para além disto: o Tesouro público assume as consequências de um sistema desastroso.  

Primeiro passo: o crédito serve aos actores financeiros para manter o crescimento de uma bolha de todos os tipos de activos, o imobiliário ontem, a Internet anteontem, as matérias-primas e a alimentação amanhã, sem dúvida. A especulação é auto-sustentada, graças às técnicas de titularização.

Segundo passo: depois dos títulos duvidosos serem disseminados pelo mundo inteiro, a bolha rebenta, fundamentalmente porque a finança jamais pode criar a riqueza a partir do nada. Tarde ou cedo, a ficção evapora-se e o sistema bancário e financeiro capitalista fica então incapaz de enfrentar a falta de reembolso das dívidas que detém, e por conseguinte de assumir os seus próprios compromissos.

Terceiro passo: para evitar o efeito dominó de falências bancárias em cascata, a Reserva federal e todos os bancos centrais injectam centenas de milhares de milhões de dólares e de euros nos circuitos financeiros. Isto não chega para travar a crise e o Tesouro americano joga a maior cartada, prometendo comprar todos os títulos financeiros apodrecidos que figuram no balanço dos bancos, sem que se saiba se as famílias americanas expulsas das suas casas conservarão a sua habitação. Como é que o Tesouro público conseguirá isto, sabendo que o orçamento de Estado tem já um défice colossal? Basta pensar: pedindo emprestado nos mercados financeiros. Dito de outra forma, um endividamento privado desmedido, completamente desligado das necessidades da economia real, será pago por um endividamento público. Para quem? Para que os actores que mergulharam a economia mundial na crise e que, a menos que a inflação suba, encaixarão os juros de uma dívida assim aumentada.

Atingiu-se o cúmulo do absurdo. E o retorno das crises não será impedido por este tipo de regulação, porque ela destina-se apenas a restituir o oxigénio aos mercados financeiros, que o utilizam para melhor drenar a economia produtiva: sempre mais dinheiro para os accionistas, arrancado aos pobres, primeiro como trabalhadores, depois como consumidores.

O Attac reafirma a necessidade de romper radicalmente com a dominação da finança. Para isso é necessário restringir drasticamente a circulação de capitais, interditar a titularização e proceder a um retorno para o poder público dos principais pólos do sector bancário e financeiro, a começar pelos bancos centrais, incluindo o da zona euro hoje dependente das extravagâncias do capitalismo financeiro. É perfeitamente possível se forem taxadas todas as transacções financeiras e se os rendimentos financeiros forem alvo de uma fiscalidade muito progressiva. Já não é hora de corrigir os "excessos" do capitalismo, como dizem todos aqueles que, ontem, nos prometiam um mundo maravilhoso. Chegou o tempo de retirar o poder aos financeiros que agem por conta dos detentores de capital. Impõe-se urgentemente um novo Bretton Woods para pôr fim a um sistema tão tóxico.

Attac França, Montreuil, 22 de Setembro de 2008

Tradução de Carlos Santos

 
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