Crise financeira: Agora, regulação é apontada como única saída criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
22-Sep-2008
Reagan (na foto com M. Thatcher) eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeirosA sangria financeira que, de Wall Street, se espalhou pelos Estados Unidos e pela economia internacional, levantou o clamor por uma regulação mais estrita dos grandes actores da economia norte-americana.
Artigo de Alison Raphael da IPS , publicado em Carta Maior .

Na quinta-feira (18), a primeira preocupação foi a saúde dos bancos de investimentos de grande porte que sobreviveram à brutal queda do início da semana, Goldman Sachs e Morgan Stanley, assim como a da empresa Washington Mutual, com sede na capital dos EUA.

Ao meio-dia, circulavam rumores que o Morgan Stanley poderia ser adquirido pela Wachovia Corporation, da Carolina do Norte, quarta maior cadeia bancária dos EUA, com presença em 21 estados e em seis países latino-americanos. Todas as sirenes de alarme se dirigiram depois para a Reserva Federal (banco central dos EUA) e ao Departamento do Tesouro (equivalente ao Ministério das Finanças).

Após intensas reuniões e conversas telefónicas, a Reserva Federal injectou 55 mil milhões de dólares nos bancos dos EUA e outros 180 mil milhões nos bancos centrais de todo o mundo, com o objectivo de estabilizar os mercados financeiros. Essa ajuda e mais a dirigida ao American Insurance Group e às companhias hipotecárias Freddie Mac e Fannie Mae serão suficientes para conter a crise?

Os especialistas duvidam e insistem que a única solução a longo prazo é uma regulação mais estrita dos mercados financeiros. Essa é a posição, por exemplo, dos jornalistas especializados em economia da revista Time e do jornal The Washington Post, dois dos meios de imprensa mais influentes do país. "O temor generalizou-se agora por que os mercados financeiros e muitas instituições de crédito não mostraram, durante anos, nenhum temor. Wall Street não tinha porque se preocupar com o tema das regulações", escreveram Andy Server e Allan Sloan, da Time.

O The Washington Post acusou o governo de não controlar as maquinações das companhias Fannie Mae e Freddie Mac, cuja eminente quebra desencadeou a crise na semana passada. O resgate pelo Estado custou aos contribuintes milhares de milhões de dólares. O Centro para o Progresso dos Estados Unidos, instituição académica com sede em Washington, também atribuiu boa parte da responsabilidade à falta de regulações.

A "política de não-intervenção" do presidente George W. Bush "foi o que impulsionou a crise actual", criticou a entidade. "Após sete anos e meio no cargo, os reguladores do governo Bush não reconheceram como a crise actual poderia ter sido evitada com um controle mais efectivo dos mercados financeiros, nem entendem que a resolução desta crise começa com os proprietários de habitações individuais", escreveu Andrew Jakabovjcs no site do centro.

Ondas de finanças predadoras
O professor de economia, James K. Galbraith, da Universidade do Texas, explicou que "a desregulação tem sido parte do credo do público e do sector cidadão" desde a presidência de Ronald Reagan (1981-1989). Durante o governo Bush, o hoje ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, lançou "ondas de finanças predadoras" no mercado imobiliário, no que foi acompanhado do principal assessor económico do candidato presidencial republicano John McCain, Phil Gramm, "e pelos auto-denominados reguladores que sistematicamente subverteram o interesse público", acrescentou Galbraith.

Reagan gostava de ilustrar a sua política desreguladora com a frase "o governo não é a solução, mas sim o problema". O ex-presidente, falecido em 2004, eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeiros, em consonância com a sua fé no livre mercado, compartilhada pela maioria de seus correligionários no Partido Republicano.

A aprovação, em 1999, da Lei de Modernização de Serviços Financeiros, proposta pelos legisladores republicanos Phil Gramm e Jim Leach, eliminou controles financeiros impostos desde os tempos de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), o presidente que pôs fim à crise de 1929. Roosevelt proibiu a fusão entre empresas do sector bancário, de intermediação financeira e de seguros. O Serviço de Investigações do Congresso legislativo desaprovou os projectos desreguladores. Apesar disso, a maioria republicana conseguiu impô-los em 1999. Menos de dez anos depois, as consequências estão aí. A maioria dos analistas resiste em fazer prognósticos para o futuro, mas concordam que a turbulência e as tragédias familiares continuarão no médio prazo.

A especialista Nomi Prins, que trabalhou em empresas financeiras como Bear Sterns, Lehman Brothers e Goldman Sachs, reclama reformas urgentes. "Só se poderá consertar o que está torto com medidas radicais e com uma regulação decisiva", sentenciou. A complexidade das instituições criadas pelas fusões à raiz da reforma de 1999 impede o controle por parte do Estado, advertiu. A Reserva Federal, por exemplo, não tem entre as suas funções a supervisão do mercado de seguros.

Nas medidas tomadas por Washington na última semana não há diálogo nem estratégia, disse Prins à IPS. "Façam o que fizerem os políticos, a nossa sociedade será mais pobre do que antes, porque o crédito será mais difícil de obter e os norte-americanos deverão aprender a viver com seus salários", observaram Server e Sloan, na Time. "Durante um ano, a Reserva Federal e o Departamento do Tesouro acreditaram nos mercados com a esperança de que o sistema se recuperasse por si mesmo. Isso não aconteceu e o colapso do Lehman Brothers deve marcar o fim dessa perspectiva", concluíram.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
 
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