Imigrantes
a dormir em cavalariças, trabalhando 12 horas por dia a 4,48
libras por hora e com 30 minutos de descanso para uma sanduíche
mal-amanhada. Este é o outro lado da realidade por detrás de um
dos mais conhecidos festivais de rock da Europa. Miguel Portas,
deputado do GUE/NGL, acompanhou Sónia Mendes, a portuguesa que
teve a coragem de denunciar a situação, ao local do
evento.
Artigo
de Miguel Portas em Naas.
Veja a reportagem da RTP: Portugueses vítimas de exploração na Irlanda.
Na
primeira noite, foram 25 mil. Mas com as previstas actuações
de Amy Winehouse, dos eternos REM ou de Cat Power, sexta-feira
prometia rebentar pelas costuras. Apesar do tempo irlandês, ou
seja, ventoso, enevoado e, aqui e ali, chuvoso, desde as 8 da manhã,
centenas e centenas de jovens afluíam ininterruptamente ao
recinto, de tenda às costas, galochas nos pés e caixas
de Budweiser nos braços. Eis-nos em Punchestown
Racecourse, um hipódromo vizinho de Naas, uma
pequena cidade a 50 quilómetros de Dublin. É aí
que anualmente se organiza o maior festival de rock da ilha, num
vasto relvado que a chuva, os carros, as tendas e os jovens deixarão
irreconhecível quando as músicas e as luzes se
apagarem. É nessa altura que verdadeiramente entram em acção
os serviços de limpeza do recinto. Durante os dias de
festival, eles garantem a manutenção. Depois, durante
oito dias catarão os restos deixados pela multidão,
picando-os um a um, nos espaços dos espectáculos e nos
parques de campismo e de estacionamento. É um trabalho árduo
e pesado, faça chuva ou sol, mas indispensável porque,
um ano depois, haverá mais Oxegen e, entretanto, as
corridas de cavalos voltam a tomar conta do lugar.
Por
detrás dos palcos
Os
milhares de jovens que acorrem aos festivais de Verão - o do
Sudoeste é o que, em Portugal, melhor se equivale a este -
sabem que os promotores deste tipo de eventos se esmeram na
programação, porque é ela que atrai as
multidões. Sabem também que as bandas mais conhecidas
têm contratos de dezenas de páginas, onde se incluem
várias cláusulas excêntricas, escrupulosamente
cumpridas pelos organizadores. A menina quer um Mercedes xpto à
porta? O líder da banda reclama suite com cama de massagem e
Beaujolais de 48 na garrafeira? Faça-se a vontade, porque
estes pormenores alimentam o "circo", a imprensa da especialidade
e constroem imagens. É assim e assim será. Também
por isto, aqueles milhares de jovens, que não são ricos
e trazem a comida nas mochilas, pagam 240 euros pelos quatro dias de
concertos ou 100 se por lá ficarem um só dia. O que
eles não imaginam é que por detrás do palco,
longe dos holofotes, há outros serviços sem os quais
nenhum festival desta grandeza se pode realizar. Entre estes, o da
limpeza é o menos qualificado e o mais duro. Mas tão
indispensável quanto qualquer outro. Os promotores de Oxegen,
a MCD, subcontratam este serviço. Este ano a escolha recaiu na
Cleanevent, uma firma inglesa que também trata dos
estádios de Wembley, do Chelsea ou de Wimbledon.
Este
tipo de firmas opera com listas de inscritos que são chamados
em função dos trabalhos serviços e concessões
que ganham. Pagam o salário mínimo legal - no caso
5,52 libras/hora - e procedem aos respectivos descontos. Sobram
4,48 libras para o trabalhador temporário, se este for um
imigrante intracomunitário ou com os papéis em regra.
No entanto, se não tiver papéis, a firma prefere. É
mais barato, podem ser retiradas horas e é certo e seguro que
o imigrante não se queixará à polícia,
porque pode ser repatriado. Quem o confirma é Sónia
Mendes, portuguesa de 31 anos a viver em Londres há 4 meses, e
que faz regularmente trabalhos deste tipo, enquanto aguarda pela
prestação de provas para auxiliar de terceira idade, a
profissão que gostaria de exercer em Londres.
O
"caso"
A
Sónia está inscrita na Cleanevent. Quinta-feira,
2 de Julho, telefonam-lhe a perguntar se quereria ir trabalhar para a
Irlanda durante 12 dias, a 12 horas por dia e com alimentação
e estadia em hotel garantida. Ela e outros 50 responderam
afirmativamente. Sempre eram mil e tal euros no bolso. Eram
portugueses, luso-brasileiros ou polacos. Intra-comunitários,
porque Londres e Dublin estão fora do espaço Shengen e
extra-comunitários sem papéis, não passariam
pelo crivo do controlo de fronteiras. A 7 de Julho à noite
chegam a Punchestown Racecourse. O "hotel" prometido era a
cavalariça do hipódromo, ainda com palha, dejectos e
cheiros. Chuveiros eram cinco e só um com água quente.
O jantar chegava para 17 dos 50. Em declarações ao The
Guardian, a MCD refugia-se no contrato celebrado com a Cleanevent
- compete à subcontratada assegurar as condições
do seu staff. A Cleanevent diz que "aguarda
relatório" para analisar o caso. Este, o caso, é que
não esperou. Alguns portugueses, entre os quais a Sónia,
revoltam-se. Recusam dormir nos estábulos dos cavalos.
Telefonam para a polícia, o que, de imediato, muda a atitude
dos promotores. Aos revoltados oferecem as condições
que eles pedirem. Os portugueses dormirão na cozinha, um
upgrade... e rapidamente vão comprar umas dezenas de
sacos-cama e colchões insufláveis, porque nas
cavalariças as camas desdobráveis não chegavam
para todos. Cá na minha, alguém estava convencido que o
pessoal de limpeza pudesse dormir nas palhas dos cavalos. Os
rebeldes, que eram seis, reduzem-se, entretanto, a três.
Regressarão nessa mesma madrugada a Londres, porque recusaram
para si a melhoria de condições que a MCD lhes oferecia
para se abafar a história. "Ou era para todos ou para
ninguém", garante a Sónia, que sabe que nunca
mais voltará a ser chamada pela Cleanevent. E porque
ficaram os restantes? "A maioria dos polacos veio directamente
do seu país. Nem eles nem os outros tinham como regressar, até
porque nos tinham dito que nem precisaríamos de levar
dinheiro", denuncia. Os que ficaram, contudo,
fotografaram. Foram essas fotos que conseguimos passar para fora do
recinto, porque o acesso à zona Vip e aos estábulos é
vedada ao público. Aliás, fazem paredes-meias.
É
bem provável que Amy Winehouse ou Cat Power nem sonhem que por
detrás dos seus camarins de cinco estrelas, em cubículos
de cimento, estejam a repousar os homens e mulheres que acabaram de
lhes limpar a casa. Muito menos suspeitarão que quem lhes
trata do conforto trabalhe em turnos de 12 horas contínuos,
com 30 minutos de intervalo não pagos, quanto basta para uma
sanduíche mal amanhada...
|