As baixas temperaturas de inverno registradas em Janeiro nos Estados Unidos, pouco comuns para a época, parecem ter interrompido a hibernação daqueles que negam as alterações climáticas, que encheram sites da Internet com mensagens sobre o "grande engano do aquecimento global".
Por Stephen Leahy, para a IPS de Toronto
Organizaram mesmo uma conferência para sustentar a sua posição, na semana passada em Nova York. "O aquecimento do planeta não é uma crise global", disse o Instituto Heartland, organizador da Conferência Internacional sobre Alterações Climáticas.
Heartland é conhecido por fazer lóbi, com o seu perfil de direita, e aceitar mais de 500 mil dólares do consórcio multinacional de petróleo ExxonMobil entre 1999 e 2005 - segundo documentos da própria empresa divulgados pela organização ambientalista Greenpeace -, e milhares de dólares da indústria do tabaco. Não surpreende que tenham divulgado um comunicado em que insistiam que todos os esforços "para reduzir as emissões de dióxido de carbono sejam abandonados imediatamente".
O dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso são alguns dos chamados gases causadores do efeito estufa aos quais a maioria dos cientistas atribui o aquecimento do planeta. "O aquecimento causado pelo homem é um engano total. Não se baseia em factos", vociferou Rush Limbaugh, um apresentador de rádio conservador no seu programa do dia 27 de Fevereiro, com cerca de 13 milhões de ouvintes. "Frio e neve sem precedentes foram comuns em todo o hemisfério norte neste Inverno", garantiu Limbaguh.
O hemisfério norte é mais do que Estados Unidos e Canadá. Também fez frio na China e no Médio Oriente, mas esteve bastante quente na Grã-Bretanha e na maior parte da Europa. No começo de Fevereiro, a temperatura esteve temperada em Edimburgo, com média de 14 graus, normal em Julho para uma cidade escocesa. A previsão desta semana para Moscovo, a capital mais ao norte do mundo, indica chuvas e uma temperatura média de três graus, e não neve e 10 graus abaixo de zero como é habitual. Essas temperaturas não provam nada. É apenas o tempo.
Mas o clima é algo totalmente diferente das variações diárias de temperatura em qualquer lugar. O clima são as condições atmosféricas num período limitado e numa determinada região. Um Janeiro frio é apenas o tempo que há nos Estados Unidos, nada mais. Os últimos dados da agência espacial norte-americana (Nasa) mostram que "as temperaturas globais caíram de forma drástica" no ano passado, chegou a dizer Limbaugh quando, de fato, esse organismo informou que 2007 foi o segundo ano mais quente de que se tem registro. Refutar este fluxo de informação, ao que parece, inesgotável, para não mencionar as mentiras grosseiras, não tem sentido.
A maioria dos cientistas já não perde tempo porque sente que responder a esses autoproclamados "cépticos das alterações climáticas" nada mais faz do que dar asas a eles e aos seus patrocinadores, as corporações petrolíferas, entre outros. Os que negam esse fenómeno nos Estados Unidos mantêm-se firmes. O jornal The Washington Post informou no mês passado que uma nova organização, apoiada pela indústria do carvão e os seus aliados, lançou uma campanha de 35 milhões de dólares para incentivar a oposição contra a legislação contra as alterações climáticas.
As esmagadoras provas científicas do acelerado aquecimento da Terra não bastam para que respeitados órgãos de imprensa, como o The Wall Street Journal, dos Estados Unidos, e o National Post, do Canadá, continuem a publicar artigos que anunciam uma iminente idade do gelo ou o arrefecimento global. Não costuma haver fundamentos científicos por trás dessas afirmações, mas os "factos" frequentemente são distorcidos e os comentários de cientistas deliberadamente deformados, e depois figuram em sites ou blogs durante meses ou até anos.
Os que negam que a actividade humana seja responsável por grande parte das alterações climáticas vão continuar a fazer tudo o que podem para confundir e atrasar a adopção de medidas. E podem ser convincentes ao citar reconhecidos especialistas e tergiversar as suas opiniões e os resultados das suas pesquisas. A IPS oferece uma série de conselhos de senso comum para verificar esse tipo de informação. Em primeiro lugar, é bastante fácil confirmar uma afirmação suspeita com o site de busca Google.
O aquecimento do planeta é causado por variações na actividade solar, disse uma pessoa as IPS. A sua prova é um artigo "científico" do jornal Investor's business, que assegurava que essa era a conclusão do Instituto Max Planck de Investigações do Sistema Solar, da Alemanha. Uma rápida visita ao site do instituto permite ler as suas conclusões em primeira mão. "A actividade solar afecta o clima, mas tem um papel menor no actual aquecimento do planeta", afirma o centro de pesquisas.
Em segundo lugar, buscar a fonte de financiamento. Quem se beneficia com a negação das alterações climáticas? Não é tão difícil saber a resposta. O vice-presidente de Desenvolvimento de Novos Produtos da General Motors Corp., Bob Lutz, disse à imprensa no Texas que a teoria do aquecimento do planeta é "um grande monte de merda". Antes tinha ridicularizado os esforços para obrigar os fabricantes de automóveis a construírem veículos menores e mais eficientes escrevendo no seu blog que "é como tentar enfrentar o problema de obesidade deste país obrigando os fabricantes de roupa a vender tamanhos menores e apertados".
O jornalista Ross Gelbspan seguiu a pista do dinheiro que fluiu da indústria automobilística e petrolífera para várias organizações e institutos de direita e publicou o seu resultado em "The heat is on" (O aquecimento está ligado) e "Boiling point" (Ponto de ebulição). Como os cientistas se beneficiam das conclusões de que as actividades humanas aceleram as alterações climáticas sem se darem conta? Os que negam o fenómeno afirmam que assim recebem financiamento para as suas pesquisas a esse respeito. É verdade, mas também receberiam dinheiro se investigassem a contaminação da água ou da camada de ozónio.
A camada de ozónio é a cobertura estratosférica que protege a vida do planeta das radiações solares nocivas. Quando os cientistas realizam investigações, apenas tentam responder a perguntas que surgiram. Não lhes importa a que conclusões chegarão. São o que são: os humanos aceleram as alterações climáticas. Se quisessem dinheiro deviam trabalhar em Wall Street, certo?
7/3/2008
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