Documento de trabalho discutido no último Congresso da CGTP, que inclui análises da distribuição do rendimento e da riqueza, das desigualdades no mercado de trabalho e no acesso à saúde ou à educação, concluindo com as injustiças do sistema fiscal nacional. A versão completa deste estudo está disponível no site da central sindical, apresentando-se aqui apenas alguns dos seus pontos.
O TRABALHO E O CAPITAL NA DISTRIBUIÇÃO DO RENDIMENTO
A
repartição do rendimento entre capital e trabalho alterou-se nos anos
que decorreram depois do 25 de Abril. Num período inicial verificou-se
uma profunda redistribuição do rendimento que beneficiou os
trabalhadores, tendo a parte salarial atingido um valor próximo dos 60%
em 1975. As medidas que mais contribuíram para esta partilha mais
favorável ao trabalho foram a criação do salário mínimo nacional, a
fixação de um salário máximo, a contratação colectiva e movimentos
reivindicativos nas empresas, que se traduziram em melhorias
substanciais dos salários. A contratação colectiva teve um papel
importante: generalizou-se a mensualização dos salários (os
“empregados” eram até então pagos ao mês face aos “operários” que
recebiam ao dia); criaram-se 14 meses de pagamentos salariais;
negociaram-se carreiras salariais, muitas das quais com progressão
automática; melhorou-se a remuneração do trabalho extraordinário;
criaram-se ou alargaram-se remunerações suplementares, algumas das
quais com um importante peso na remuneração total, como o subsídio de
turno.
Este
quadro modificou-se profundamente nos anos seguintes. A partir de 1977
a aplicação de medidas de contenção salarial determinou uma quebra
acentuada do poder de compra. Durante vários anos vigoraram tectos
salariais. Como mero exemplo, o tecto decretado para 1977 foi de 15%
quando a inflação atingiu 27,4% neste ano. A contratação colectiva foi
assim entravada, a que acresceram outras restrições (o depósito de
convenções colectivas em empresas do sector público foi dificultado e
foi publicada legislação imperativa, cujo conteúdo a convenção
colectiva não podia alterar). A renovação dos contratos colectivos
tornou-se mais difícil, até porque o Governo deixou de sancionar
comportamentos de bloqueamento patronal por via da publicação de
portarias de regulamentação de trabalho.
Os
Governos influenciaram a distribuição do rendimento não só por meio da
contenção salarial e da política de contratação colectiva, mas também
enquanto empregador na Administração Pública e através da política
económica, designadamente a política de liberalização dos preços. A
persistência de uma especialização produtiva baseada em produções de
baixo valor acrescentado foi naturalmente um factor com efeitos
depressivos na determinação dos salários. O próprio salário mínimo não
escapou a uma quebra rápida e intensa do seu poder aquisitivo. Em 1977,
esta baixa atingiu o valor máximo de 11,6%.
A
consequência desta evolução foi a baixa da parte salarial. O percurso
não foi linear: após reduções significativas houve períodos de
estabilização ou mesmo de aumento, mas no conjunto houve um movimento
de descida. Em 2005 as remunerações, incluindo nestes as contribuições
para a segurança social, pesavam cerca de 52% do rendimento nacional.
A
análise da evolução na presente década é dificultada pelo facto de
apenas dispormos de Contas Nacionais Definitivas até 2005. Até este
ano, observa-se um ligeiro aumento na partilha entre o trabalho e o
capital (o excedente bruto de exploração), o que estará relacionado com
o crescimento, ainda que diminuto, do emprego. Mas o mesmo já não
ocorre com os ordenados e salários em que há uma descida. Esta
diferença poderá ser explicada por maiores despesas das empresas com
segurança social privada, como maiores contribuições para fundos de
pensões, as quais estão incluídas nas remunerações.
Se
considerarmos todo o período até 2008 – tendo-se assim em conta as
previsões (neste caso do Eurostat) – verificamos uma tendência de
quebra (49,3% em 2008 face a 49,9% em 2000). Ainda assim, a evolução
dos salários na contratação colectiva (ver quadro) faria prever uma
maior diminuição, ainda que a variação fornecida por estes dados possa
ter sido inferior à verificada. O facto de a variação da produtividade
ter também abrandado poderá ter explicado o facto de não se ter
verificado uma evolução mais desfavorável na repartição do rendimento.
As verbas pagas a dirigentes de empresas dispararam, sobretudo nas grandes empresas. O exemplo do BCP, cujo administrador teria recebido em 2006 perto de 3
milhões de euros (214 mil euros mensais), pode constituir um extremo,
mas não deixa de ser revelador das somas colossais pagas a dirigentes.
De acordo com os dados de uma empresa de consultadoria (a Mercer
Consulting), os presidentes das empresas nacionais ganham, em média,
quase 22 mil euros mensais, o que representava perto de 32 vezes o
salário de um trabalho de base, na mesma empresa. Esta diferença é
menor em Espanha (15 vezes mais), Reino Unido (14 vezes) e Alemanha
(dez vezes). Esta relação dispara em grandes empresas, sendo referido
que em média cada administrador da PT (Portugal Comunicações) recebeu
1,2 milhões de euros em 2005 – uma soma que é 4 vezes superior à da
média dos gestores.
As
grandes fortunas têm também vindo a crescer. As 100 maiores fortunas
valem 34 mil milhões de euros, o que equivale a 22,1% do PIB a preços
correntes; o seu crescimento foi de cerca de 36% em 2007 e de 13% em
2006; Belmiro de Azevedo (o mais rico) duplicou a sua fortuna no espaço
de um ano; Joe Berardo passou de 13º mais rico em 2004 para 5º em 2007.
AS DESIGUALDADES NA DISTRIBUIÇÃO DO RENDIMENTO
Os
rendimentos brutos declarados do IRS, agrupados por escalões, podem
constituem uma aproximação à distribuição do rendimento, atendendo que
são cobertas as várias formas de rendimentos (do trabalho, rendimentos
empresariais, mais-valias, etc.). Podemos comparar o número de
agregados que pagam determinado escalão de imposto com o valor do
rendimento bruto declarado. Os dados estatísticos da DGCI (Direcção
Geral de Contribuições e Impostos) revelam que quase metade das
famílias (47%) em 2005 declarava rendimentos que não excediam 10 mil
euros anuais. A estas famílias, ou agregados, correspondia 16% do total
do rendimento bruto declarado. Inversamente, os dois últimos escalões –
rendimentos superiores a 100 mil euros anuais – apenas representam 1%
do total de agregados (41 mil) mas absorvem 9,3% deste rendimento. Se
incluirmos neste lado da distribuição o escalão dos 50 a 100 mil euros,
obtemos um total de agregados escasso (223 mil agregados, ou seja pouco
mais de 5% do total) mas que dispões de mais de ¼ do total do
rendimento declarado.
A
maioria do rendimento declarado respeita a rendimentos do trabalho,
incluindo as pensões. Os rendimentos de actividades empresariais pouco
excedem os 12%. Em suma, a haver verdade nesta distribuição somos um
país de rendimentos muito baixos, com poucas famílias que poderemos
designar de ricas e cuja população vive sobretudo de rendimentos do
trabalho. A realidade, porém pode ser bem diferente, atendendo à
capacidade que têm determinados grupos sociais para ocultar rendimentos
e à margem existente no trabalhador por conta própria para declarar
custos da actividade exercida.
Um
método mais adequado é a da distribuição do rendimento disponível, o
qual constitui a soma de todos os rendimentos (do trabalho e do
capital) com as transferências menos os impostos e as contribuições
sociais. Este rendimento designa-se por equivalente dividindo-se o
rendimento familiar pelo número de membros da família, sendo aplicada
uma tabela de equivalência (atribuindo 1 ao primeiro adulto, 0,5 a cada
um dos restantes e 0,3 a cada criança com idade inferior a 3 anos).
A
distribuição do rendimento equivalente por quintis permite medir a
desigualdade. Se dividirmos o último quintil (os 20% que ganham mais)
pelo primeiro quintil (os 20% que ganham menos) verificamos que, em
2006, os primeiros têm rendimentos 6,8 vezes superiores aos do fundo da
escala (ver quadro). Portugal é o país da UE em que esta distribuição é
mais desigual, no contexto duma UE com desigualdades fortes (ainda que
inferiores às dos EUA), uma vez que os mais ricos dispõem de
rendimentos cerca de 5 vezes superiores aos dos mais pobres. Mesmo num
país mais com maior igualdade como a Dinamarca este indicador é de 3,4
e a desigualdade parece tender a crescer neste país. Este rácio seria
de cerca de 12 se confrontássemos os 10% mais afortunados com os 10%
que dispõem de menores recursos.
O
país conjuga um baixo rendimento médio, um alto risco de pobreza e
elevadas desigualdades. Desigualdades persistentes já que aparentemente
não terá havido progressos em relação a 1995.
AS DESIGUALDADES NA DISTRIBUIÇÃO DOS SALÁRIOS
As
desigualdades são menos cavadas quando se comparam os salários de base
dos trabalhadores por conta de outrem a tempo completo. Porém, estes
dados não são comparáveis com os anteriores, entre outras razões porque
não têm em conta nem todos os rendimentos (apenas observam o salário de
base) nem a dimensão da família.
A
distribuição dos trabalhadores em grupos de 10% ordenados de forma
crescente pelo salário de base constitui uma das formas mais utilizadas
para medir a desigualdade. Pode-se, deste modo, verificar a relação
entre o salário de base do trabalhador que está no limiar inferior dos
10% que ganham mais (1330 euros em 2005) e o trabalhador que está no
limiar superior dos que ganham menos (377 euros em 2005). Observa-se
que ganham 3,5 vezes mais em 2005 e que esta mesma relação era de 3,1
dez anos antes.
Esta
distribuição mostra também que um elevado número de trabalhadores tem
salários muito baixos. Em 2005, 20% (360 mil) tinha um salário de 410
euros, o que apenas excedia o salário mínimo em cerca de 10% (este era
então de 374,7 euros). Tem sido referida a “geração de 500 euros”, a
qual não obteria hoje empregos mais remunerados, mesmo tratando-se de
jovens com mais habilitações. Mas, olhando para os dados, constata-se
que se trata de “novos” e “velhos” empregos, já que estão abrangidos
perto de 40% dos trabalhadores.
Como
evoluíram as remunerações e o que caracteriza hoje as desigualdades
salariais? O salário de base cresceu 55% entre 1995 e 2005, quando, no
mesmo período a inflação subiu 33%. Não se pode dizer que toda a
diferença constitui melhoria do poder de compra, porque isso supõe, por
exemplo, que a qualificação se manteve. Ora esta aumentou, ainda que
não tanto como o desejável. Em termos de caracterização, observa-se:
- As desigualdades dos salários no sector privado são muito fortes. Os homens ganham 24% acima das mulheres. Deve ter-se
presente que se trata do salário de base e não do ganho. Neste caso, a
diferença salarial seria de 29% e este desvio aumenta com a idade e, em
regra, com o nível de habilitações, sendo máxima no ensino superior;
- O
salário de base dos jovens (escalões dos 18 aos 29 anos) é apenas de
67% do salário dos trabalhadores com 30 e mais anos, apesar dos jovens
terem em regra habilitações superiores. Esta relação piorou mesmo
nestes 10 anos. Dito de outra forma, os salários dos jovens cresceram a
ritmo inferior aos dos restantes trabalhadores;
- A
dinâmica do crescimento salarial varia de acordo com as qualificações.
Os salários dos quadros e dos trabalhadores altamente qualificados
distanciam-se dos restantes. Estes têm uma escassa melhoria do salário
real. Na prática, o distanciamento deve ter sido bem maior porque há um
conjunto de remunerações e regalias que “escapam” ao salário de base e
que representam uma maior fatia do salário de base nos níveis de
qualificação mais elevados;
- O
salário de base médio dos trabalhadores com contratos com termo era em
2005 (não se dispõe de dados para 1995) de 606 euros o que representava
74% dos trabalhadores com contratos de duração indeterminada. A
precariedade de emprego constitui assim uma das principais fontes de
desigualdade salarial.
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