Aminetu Haidar, defensora saharauí dos
direitos humanos, foi detida esta sexta-feira pela polícia
marroquina no aeroporto de El Aaiun. Haidar regressava ao Sahara
ocupado depois de receber em Nova Iorque o prémio “Coragem civil
2009”. Com ela foi detido também o jornalista espanhol Pedro
Barbadillo e a sua equipa de reportagem. Várias iniciativas estão em curso pela libertação dos presos saharauis, incluindo do Bloco de Esquerda e de Miguel Portas no Parlamento Europeu.
Ficaram presos no aeroporto e foram
entretanto transferidos, mas o seu paradeiro é desconhecido neste
momento.
Haidar chegava ao meio-dia a Aaiun
vinda do aeroporto de Las Palmas de Gran Canaria, acompanhada de uma
equipa de gravação coordenado pelo jornalista espanhol Pedro
Barbadillo. Foram impedidos de gravar e foram separados uns dos
outros. Depois foram detidos em dependências policiais diferentes e
transportados para fora do aeroporto.
Não tenho medo, mas estou certa que
vou sofrer repressão de Marrocos quando voltar ao Sahara”, disse
Haidar antes da viagem de regresso a Aaiun. A defensora saharauí dos
direitos humanos pensava que podia ser presa, como foram sete outros
companheiros seus, ou que lhe retirariam os papéis para impedi-la de
sair do Sahara e denunciar a situação de falta de direitos que vive
o povo do Sahara Ocidental.
Aminetu Haidar,
considerada a "Gandhi Saharaui", descrevia a situação
actual no Sahara Ocidental ocupado como alarmante, denunciando a
escalada da repressão policial, julgamntos militares À população
civil e a detenção ilegal ou a retenção de documentos e prisão
domiciliária de outros saharauis que também reclamam o respeito
pelos direitos humanos nas zonas colonizadas pelo governo marroquino.
“Regressámos à
pior época de Hassan II”, disse. Os sete activistas detidos no
passado dia 8 de Outubro no regresso dos acampamentos de refugiados
saharauis de Tindouf têm de enfrentar um tribunal militar que pode
condená-los à morte. Ahmed Alnasiri, Brahim Dahane, Yahdih
Ettarouzi, Saleh Labihi, Dakja Lashgar, Rachid Sghir y Ali Salem
Tamek são membros de reconhecidas organizações de defesa dos
direitos humanos e outros grupos da sociedade civil.
Uma fronteira de
milhões de minas antipessoais divide o Sahara Ocidental. A activista
saharauí declarou que “é uma aberração que a missão da ONU no
Sahara, a Minurso, seja a única missão de paz no mundo que não
contempla a defesa dos direitos humanos no território sobre o qual
actua.”
A França opôs-se
recentemente no Conselho de Segurança da ONU à ampliação do
mandato da MINURSO para a protecção e vigilância dos direitos
humanos nos territórios ocupados do Sahara Occidental.
No passado dia 20 de Outubro, Haidar
recebeu em Nova Iorque o “Prémio Coragem Civil 2009” da Fundação
Train, que premeia quem realiza actos extraordinários “de
resistência ao mal com grande resitência pessoal”. Em 1987, com
21 anos, ela foi uma das 700 pessoas detidas por participar num
encontro que exigia o referendo de autodeterminação.
Manteve-se “desaparecida” sem
julgamento nem acusações durante quatro anos, foi torturada ao lado
de outras 17 mulheres saharauis. Em 2005, a polícia marroquina
voltou a detê-la e a bater em manifestantes depois de uma
manifestação pacífica. Foi libertada depois de 7 meses de pressão
internacional de organizações como a Amnistia Internacional e o
Parlamento Europeu. Desde então Haidar correu mundo para denunciar a
ocupação militar marroquina e a violação sistemática da
população saharauí e para lutar pelo direito do seu povo à
autodeterminação.
Haidar nasceu em 1967 em El Aaiun
(Sahara Ocidental), é mãe de dois filhos e tem um bacharelato em
literatura moderna. Ganhou prémios de direitos humanos vários nos
EUA e na Europa e foi candidata a Premio Nobel da Paz. A Amnistía
Internacional (dos EUA) apresentou a sua candidatura ao prémio
Ginetta Sagan.
Campanhas e iniciativas
Entretanto por iniciativa da associação
Amizade Portugal-Sahara Ocidental, foi lançada uma carta aberta onde
se pede a libertação dos 7 presos saharauis defensores dos Direitos
Humanos presos por Marrocos. O apelo já foi subscrito por mais de
125 organizações, incluindo o Bloco de Esquerda.
Há também uma campanha contra a pesca
ilegal em águas do Sahara Ocidental a que a UE dá cobertura, “o
que é verdadeiramente escandaloso e atenta à nossa dignidade de
europeus”, diz a Associação.
“Como sabem, nenhum Estado do mundo
reconheceu a anexação marroquina do Sahara Ocidental, no entanto a
União Europeia (UE) está a pagar anualmente milhões de euros ao
governo de Marrocos para que este autorize barcos da UE a pescar em
águas do Sahara Ocidental”, pode ler-se no texto que lança esta
campanha, que cita depois as palavras de Haidar: “É uma pilhagem
em grande escala praticada pela UE. Nós, saharauis, não recebemos
qualquer benefício deste Acordo e nunca fomos consultados sobre se o
desejávamos”.
Bloco de Esquerda toma posição e questiona governo sobre o assunto
O Bloco de Esquerda considera que a
detenção dos sete activistas por parte da polícia marroquina é o
espelho do intolerável rol de violações dos direitos humanos do
povo saharaui, desenvolvidas pelo Reino de Marrocos.
Na
sequência, o Líder do Grupo Parlamentar, deputado José Manuel
Pureza, em pergunta dirigida ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros, questionou esta sexta-feira o Governo sobre "que
iniciativas tomou junto da Embaixada de Marrocos no sentido de
pressionar aquele Estado a proceder à imediata e incondicional
libertação dos sete activistas saharauis, bem como que esforços
diplomáticos foram realizados para que o processo de descolonização
do Sahara Ocidental, que há mais de 35 anos perdura".
Miguel Portas reage no Parlamento Europeu
Willy Meyer e Miguel
Portas, eurodeputados do Grupo da Esquerda Unitária
Europeia/Esquerda Verde Nórdica denunciaram esta sexta-feria a
detenção por parte das forças de segurança marroquinas de Aminetu
Haidar. Também Ana Gomes (deputada europeia pelo Partido Socialista) condenou a detenção e denunciou as violações dos direitos humanos.
Willy Meyer condenou
energicamente a detenção: "Esta detenção soma-se à dos sete
activistas detidos no passado 8 de Outubro e supõe uma escalada da
política repressiva de Marrocos sobre os activistas saharauis.”
Por seu lado, o
eurodeputado português Miguel Portas reclamou da União Europeia
"medidas contundentes para parar esta onda de repressão que
sofrem os activistas dos direitos humanos nos territórios ocupados e
no Reino de Marrocos”.
Meyer e Portas
coincidiram ao considerar “inaceitável que a UE esteja a negociar
um Estatuto Avançado com Marrocos, enquanto este viola claramente os
direitos humanos. A União Europeia deve suspender este
tratamento preferencial enquanto persista a perseguição política
dos saharauis, e Marrocos não proceda à libertação de todas as
pessoas detidas por tentarem exercer os seus direitos civis e
políticos.”
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