Aminetu Haidar presa em Marrocos criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
13-Nov-2009
Aminetu Haidar defende há décadas os direitos do povo do Sahara OcidentalAminetu Haidar, defensora saharauí dos direitos humanos, foi detida esta sexta-feira pela polícia marroquina no aeroporto de El Aaiun. Haidar regressava ao Sahara ocupado depois de receber em Nova Iorque o prémio “Coragem civil 2009”. Com ela foi detido também o jornalista espanhol Pedro Barbadillo e a sua equipa de reportagem. Várias iniciativas estão em curso pela libertação dos presos saharauis, incluindo do Bloco de Esquerda e de Miguel Portas no Parlamento Europeu.

Ficaram presos no aeroporto e foram entretanto transferidos, mas o seu paradeiro é desconhecido neste momento.

Haidar chegava ao meio-dia a Aaiun vinda do aeroporto de Las Palmas de Gran Canaria, acompanhada de uma equipa de gravação coordenado pelo jornalista espanhol Pedro Barbadillo. Foram impedidos de gravar e foram separados uns dos outros. Depois foram detidos em dependências policiais diferentes e transportados para fora do aeroporto.

Não tenho medo, mas estou certa que vou sofrer repressão de Marrocos quando voltar ao Sahara”, disse Haidar antes da viagem de regresso a Aaiun. A defensora saharauí dos direitos humanos pensava que podia ser presa, como foram sete outros companheiros seus, ou que lhe retirariam os papéis para impedi-la de sair do Sahara e denunciar a situação de falta de direitos que vive o povo do Sahara Ocidental.

Aminetu Haidar, considerada a "Gandhi Saharaui", descrevia a situação actual no Sahara Ocidental ocupado como alarmante, denunciando a escalada da repressão policial, julgamntos militares À população civil e a detenção ilegal ou a retenção de documentos e prisão domiciliária de outros saharauis que também reclamam o respeito pelos direitos humanos nas zonas colonizadas pelo governo marroquino.

Regressámos à pior época de Hassan II”, disse. Os sete activistas detidos no passado dia 8 de Outubro no regresso dos acampamentos de refugiados saharauis de Tindouf têm de enfrentar um tribunal militar que pode condená-los à morte. Ahmed Alnasiri, Brahim Dahane, Yahdih Ettarouzi, Saleh Labihi, Dakja Lashgar, Rachid Sghir y Ali Salem Tamek são membros de reconhecidas organizações de defesa dos direitos humanos e outros grupos da sociedade civil.

Uma fronteira de milhões de minas antipessoais divide o Sahara Ocidental. A activista saharauí declarou que “é uma aberração que a missão da ONU no Sahara, a Minurso, seja a única missão de paz no mundo que não contempla a defesa dos direitos humanos no território sobre o qual actua.”

A França opôs-se recentemente no Conselho de Segurança da ONU à ampliação do mandato da MINURSO para a protecção e vigilância dos direitos humanos nos territórios ocupados do Sahara Occidental.

No passado dia 20 de Outubro, Haidar recebeu em Nova Iorque o “Prémio Coragem Civil 2009” da Fundação Train, que premeia quem realiza actos extraordinários “de resistência ao mal com grande resitência pessoal”. Em 1987, com 21 anos, ela foi uma das 700 pessoas detidas por participar num encontro que exigia o referendo de autodeterminação.

Manteve-se “desaparecida” sem julgamento nem acusações durante quatro anos, foi torturada ao lado de outras 17 mulheres saharauis. Em 2005, a polícia marroquina voltou a detê-la e a bater em manifestantes depois de uma manifestação pacífica. Foi libertada depois de 7 meses de pressão internacional de organizações como a Amnistia Internacional e o Parlamento Europeu. Desde então Haidar correu mundo para denunciar a ocupação militar marroquina e a violação sistemática da população saharauí e para lutar pelo direito do seu povo à autodeterminação.

Haidar nasceu em 1967 em El Aaiun (Sahara Ocidental), é mãe de dois filhos e tem um bacharelato em literatura moderna. Ganhou prémios de direitos humanos vários nos EUA e na Europa e foi candidata a Premio Nobel da Paz. A Amnistía Internacional (dos EUA) apresentou a sua candidatura ao prémio Ginetta Sagan.

Campanhas e iniciativas

Entretanto por iniciativa da associação Amizade Portugal-Sahara Ocidental, foi lançada uma carta aberta onde se pede a libertação dos 7 presos saharauis defensores dos Direitos Humanos presos por Marrocos. O apelo já foi subscrito por mais de 125 organizações, incluindo o Bloco de Esquerda.

Há também uma campanha contra a pesca ilegal em águas do Sahara Ocidental a que a UE dá cobertura, “o que é verdadeiramente escandaloso e atenta à nossa dignidade de europeus”, diz a Associação.

    “Como sabem, nenhum Estado do mundo reconheceu a anexação marroquina do Sahara Ocidental, no entanto a União Europeia (UE) está a pagar anualmente milhões de euros ao governo de Marrocos para que este autorize barcos da UE a pescar em águas do Sahara Ocidental”, pode ler-se no texto que lança esta campanha, que cita depois as palavras de Haidar: “É uma pilhagem em grande escala praticada pela UE. Nós, saharauis, não recebemos qualquer benefício deste Acordo e nunca fomos consultados sobre se o desejávamos”.

Bloco de Esquerda toma posição e questiona governo sobre o assunto

O Bloco de Esquerda considera que a detenção dos sete activistas por parte da polícia marroquina é o espelho do intolerável rol de violações dos direitos humanos do povo saharaui, desenvolvidas pelo Reino de Marrocos.

Na sequência, o Líder do Grupo Parlamentar, deputado José Manuel Pureza, em pergunta dirigida ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, questionou esta sexta-feira o Governo sobre "que iniciativas tomou junto da Embaixada de Marrocos no sentido de pressionar aquele Estado a proceder à imediata e incondicional libertação dos sete activistas saharauis, bem como que esforços diplomáticos foram realizados para que o processo de descolonização do Sahara Ocidental, que há mais de 35 anos perdura".

Miguel Portas reage no Parlamento Europeu

Willy Meyer e Miguel Portas, eurodeputados do Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica denunciaram esta sexta-feria a detenção por parte das forças de segurança marroquinas de Aminetu Haidar. Também Ana Gomes (deputada europeia pelo Partido Socialista) condenou a detenção e denunciou as violações dos direitos humanos.

Willy Meyer condenou energicamente a detenção: "Esta detenção soma-se à dos sete activistas detidos no passado 8 de Outubro e supõe uma escalada da política repressiva de Marrocos sobre os activistas saharauis.”

Por seu lado, o eurodeputado português Miguel Portas reclamou da União Europeia "medidas contundentes para parar esta onda de repressão que sofrem os activistas dos direitos humanos nos territórios ocupados e no Reino de Marrocos”.

Meyer e Portas coincidiram ao considerar “inaceitável que a UE esteja a negociar um Estatuto Avançado com Marrocos, enquanto este viola claramente os direitos humanos. A União Europeia deve suspender este tratamento preferencial enquanto persista a perseguição política dos saharauis, e Marrocos não proceda à libertação de todas as pessoas detidas por tentarem exercer os seus direitos civis e políticos.”

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