O empresário Manuel Godinho montou uma rede tentacular que
envolvia antigos titulares de cargos governativos, funcionários
autárquicos e de empresas públicas e militares da GNR, segundo o
despacho judicial da operação Face Oculta, em que está envolvido também Armando Vara, ex-secretário de Estado da Administração Interna. Esta semana começam a ser ouvidos pelo juiz os restantes arguidos do processo.
Depois de quase um ano de investigações da PJ, o
Ministério Público (MP) de Aveiro concluiu que o empresário de
Ovar tinha montado uma teia de interesses que envolvia contactos com
responsáveis das maiores empresas nacionais com capitais do Estado,
nomeadamente REN (Rede Eléctrica Nacional), REFER, CP, EDP,
Petrogal, Estradas de Portugal e Indústria de Desmilitarização e
Defesa (IDD), empresas privadas, como Lisnave e Portucel, e
autarquias, segundo a mesma fonte.
A investigação culminou quarta-feira com a detenção do
empresário, que se encontra em prisão preventiva, e a constituição
de mais 13 arguidos.
O vice-presidente do Millemium BCP Armando Vara, o presidente da
REN, José Penedos, e o seu filho Paulo Penedos são suspeitos de
fazerem parte dessa rede montada pelo empresário que, mediante
contrapartidas - presentes, alguns de valor avultado -, conseguiu
benefícios para os negócios das suas empresas na área da selecção,
recolha e tratamento de resíduos.
Também faziam parte do "esquema" funcionários da
REFER, militares da GNR, o administrador da EDP Domingos Paiva Nunes
e António Paulo Costa, alto quadro da Petrogal, entre outros.
Armando Vara, ex-secretário de Estado da Administração Interna,
por exemplo, recebeu alegadamente 10 mil euros para facilitar um
negócio entre Manuel Godinho e a EDP, através de Paiva Nunes, vogal
do conselho de administração da EDP Imobiliária, presenteado com
um carro de alta cilindrada.
O advogado Paulo Penedos também terá usufruído de
contrapartidas financeiras para "abrir portas" ao
empresário na REN, empresa da qual o seu pai, José Penedos, é
presidente - tendo este recebido vários presentes, alguns de valor
considerável -, e para ajudar Manuel José Godinho a resolver um
conflito com a REFER.
Com este esquema, defende a investigação, o empresário
pretendia ter acesso a informação privilegiada das empresas,
garantir que era o principal candidato à adjudicação de contratos
de prestação de serviços ou garantir que a consulta pública fosse
feita apenas a empresas suas.
Em causa estão suspeitas de crimes de corrupção, tráfico de
influências, branqueamento de capitais e fraude fiscal na compra e
venda de sucata de material ferroviário e num negócio de facturas
falsas, segundo a fonte.
Os alegados actos de corrupção passaram por pagamentos em
dinheiro, carros de alta cilindrada ou mesmo sacos de cimento, disse
a mesma fonte ligada ao processo.
No despacho judicial há ainda relatos de Manuel Godinho, que fala
na necessidade de afastar pessoas que não alinhavam no esquema,
concretamente o presidente da REFER, Luis Pardal.
A PJ fez buscas a mais de 30 locais por todo o país além de
escutas telefónicas e apreensão de documentos.
Dos 14 arguidos, apenas Manuel José Godinho foi ouvido pelo juiz,
prosseguindo quinta-feira a audição dos restantes.
» 1 Comentários
1"Brincadeiras" em 03 de November de 2009 00:40
Quando um processo com gente deste calibre, nesta fase, é noticiado pelos orgãos de comunicação, na minha modesta opinião, está condenado ao fracasso. Se eu fizesse parte desta suposta organização criminosa e não fosse "agarrado" nesta altura, agradeceria mil vezes à comunicação social ter-me avisado pois assim destruiria o máximo de provas possiveis, por isso só aos envolvidos interessa estas noticias. Uns constroem, outros destroem, isto sim é Portugal no seu melhor
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