|
Pois
é, neste país parece que temos que pedir desculpa por uma
confissão, ou lá o que isso seja. Lutamos pela liberdade religiosa,
mas e onde está a liberdade de não religião? A liberdade do nada e
do tudo ao mesmo tempo? E a liberdade?
Ser
ateu não significa matar deus, como poderia eu matar algo que para
mim não existe? Ser ateu não põe em causa outras religiões, ser
ateia não significa destruir igrejas, mesquitas ou sinagogas, ser
ateu não significa nada, ser ateia significa muito, uma luta contra
o obscurantismo e a estupidez. Não quer dizer isto que quem escolhe
uma religião, pertence a um culto, acredite na espiritualidade, nas
coisas, na terra, no sol, na lua, seja estúpid@. Ser ateu não
significa estar acima d@s outr@s. Ser ateu implica fé e respeito,
como tem de significar não sê-lo.
A
luta é contra o obscurantismo e não contra a religião. E gostava
de vos contar uma pequena história, ocorrida em 2002, em Chiapas,
México. Na comunidade rebelde zapatista de La Realidad, um
observador pelos direitos humanos juntou-se ao já grande grupo de
observadores que aí se encontrava. No entanto, esta pessoa (não
interessa a nacionalidade, nem a orientação política) manifestou
uma enorme intolerância quando se apercebeu que nessa tão
idealizada comunidade - onde vive o sub-comandante Marcos - havia
uma igreja. A raiva e a desilusão tomaram conta das suas atitudes,
transformando-se da pior maneira em intolerância, algo que @s
camaradas zapatistas não aceitam. E os gritos inquisitórios
mandavam tirar dali aquela igreja, que @s cegava e apagava a
verdadeira luz, a da luta revolucionária. E no dia seguinte, aquela
pessoa tinha sido expulsa da comunidade. Um homem da comunidade,
vendo a minha atitude contemplativa, calando e esperando um momento
para opinar, acercou-se. Perguntou-me o que pensava sobre aquilo. Não
sabia o que pensar, não conhecia as práticas religiosas, mas passei
a conhecê-lo. Rezam ainda nas igrejas estes homens e mulheres
carregados de força e dignidade. Nas igrejas, católicas, rezam e a
homilia, o sermão, assume a forma de um panfleto revolucionário, de
um deus camarada que lhes dá força para acreditarem no que são e
que se assim não for, sem a fé nas pessoas, deixarão de avançar.
Assim continuam, assim temos de continuar.
Assim
temos de continuar, nós, que somos feministas, anti-racistas,
ecologistas, lésbicas, homossexuais e tantas coisas mais. Somos
pessoas e a maior fé que podemos ter é em nós mesm@s.
Sinceramente, sem despeito, as outras, se as houver, vêm por
acréscimo. Somos nós, homens e mulheres de carne e osso, filh@s das
nossas mães e dos nossos pais, cheios de vontade de mudar e de
vencer esse mito tão pesado que nos esmaga a vontade de fazer desta
Terra um paraíso. Somos gente que não pode esperar pela morte para
chegar lá, somos gente que não pode hesitar com os medos e as
culpas que a religião nos enfia na alma.
É
preciso reivindicar o ateísmo! É necessário assumi-lo como uma
forma de estar na vida. Porque será que tenho a sensação que estas
palavras ferem muita gente, à medida que me vão saindo da ponta dos
dedos? Porque será? Será que mato deus, quando nego a sua
existência? Bem sei que ateísmo e religião são duas coisas que se
contrapõem, mas não poderemos nós, gente, apenas dizer: ficas na
tua e eu na minha. O respeitinho é muito lindo, afinal...
Sonho
com zapatistas, sonho com esse mundo onde cabem muitos mundos. Sonho,
é o meu céu. Sonho acordado e com realidades, essa mesma, em La
Realidad, onde esse índio me perguntou pela minha religião e a
soube aceitar com a mesma solidariedade com que nos convertemos em
eternos companheiros.
Ricardo
Gomes
» 1 Comentários
1"Silva" em 09 de November de 2009 13:05
Antes de mais, os meus parabéns pelo tema abordado. A verdade é que o assunto "religião" é o mais polémico e que toca a um grande grupo de elites. É difícil um estado ser laico, mesmo estando salvaguardado na constituição.O dia que houver separação do sistema educativo, político e social da religião, os direitos humanos poderão se tornar uma realidade para esses países, incluindo o nosso. Uma sociedade mais justa e livre, sem os preconceitos e dogmas da religião. Um grande abraço.
» Submeter Comentário
|