Desculpem, mas sou ateu criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
03-Nov-2009

Ricardo GomesPois é, neste país parece que temos que pedir desculpa por uma confissão, ou lá o que isso seja. Lutamos pela liberdade religiosa, mas e onde está a liberdade de não religião? A liberdade do nada e do tudo ao mesmo tempo? E a liberdade?

Ser ateu não significa matar deus, como poderia eu matar algo que para mim não existe? Ser ateu não põe em causa outras religiões, ser ateia não significa destruir igrejas, mesquitas ou sinagogas, ser ateu não significa nada, ser ateia significa muito, uma luta contra o obscurantismo e a estupidez. Não quer dizer isto que quem escolhe uma religião, pertence a um culto, acredite na espiritualidade, nas coisas, na terra, no sol, na lua, seja estúpid@. Ser ateu não significa estar acima d@s outr@s. Ser ateu implica fé e respeito, como tem de significar não sê-lo.

A luta é contra o obscurantismo e não contra a religião. E gostava de vos contar uma pequena história, ocorrida em 2002, em Chiapas, México. Na comunidade rebelde zapatista de La Realidad, um observador pelos direitos humanos juntou-se ao já grande grupo de observadores que aí se encontrava. No entanto, esta pessoa (não interessa a nacionalidade, nem a orientação política) manifestou uma enorme intolerância quando se apercebeu que nessa tão idealizada comunidade - onde vive o sub-comandante Marcos - havia uma igreja. A raiva e a desilusão tomaram conta das suas atitudes, transformando-se da pior maneira em intolerância, algo que @s camaradas zapatistas não aceitam. E os gritos inquisitórios mandavam tirar dali aquela igreja, que @s cegava e apagava a verdadeira luz, a da luta revolucionária. E no dia seguinte, aquela pessoa tinha sido expulsa da comunidade. Um homem da comunidade, vendo a minha atitude contemplativa, calando e esperando um momento para opinar, acercou-se. Perguntou-me o que pensava sobre aquilo. Não sabia o que pensar, não conhecia as práticas religiosas, mas passei a conhecê-lo. Rezam ainda nas igrejas estes homens e mulheres carregados de força e dignidade. Nas igrejas, católicas, rezam e a homilia, o sermão, assume a forma de um panfleto revolucionário, de um deus camarada que lhes dá força para acreditarem no que são e que se assim não for, sem a fé nas pessoas, deixarão de avançar. Assim continuam, assim temos de continuar.

Assim temos de continuar, nós, que somos feministas, anti-racistas, ecologistas, lésbicas, homossexuais e tantas coisas mais. Somos pessoas e a maior fé que podemos ter é em nós mesm@s. Sinceramente, sem despeito, as outras, se as houver, vêm por acréscimo. Somos nós, homens e mulheres de carne e osso, filh@s das nossas mães e dos nossos pais, cheios de vontade de mudar e de vencer esse mito tão pesado que nos esmaga a vontade de fazer desta Terra um paraíso. Somos gente que não pode esperar pela morte para chegar lá, somos gente que não pode hesitar com os medos e as culpas que a religião nos enfia na alma.

É preciso reivindicar o ateísmo! É necessário assumi-lo como uma forma de estar na vida. Porque será que tenho a sensação que estas palavras ferem muita gente, à medida que me vão saindo da ponta dos dedos? Porque será? Será que mato deus, quando nego a sua existência? Bem sei que ateísmo e religião são duas coisas que se contrapõem, mas não poderemos nós, gente, apenas dizer: ficas na tua e eu na minha. O respeitinho é muito lindo, afinal...

Sonho com zapatistas, sonho com esse mundo onde cabem muitos mundos. Sonho, é o meu céu. Sonho acordado e com realidades, essa mesma, em La Realidad, onde esse índio me perguntou pela minha religião e a soube aceitar com a mesma solidariedade com que nos convertemos em eternos companheiros.

Ricardo Gomes

» 1 Comentários
1"Silva"
em 09 de November de 2009 13:05por D.
Antes de mais, os meus parabéns pelo tema abordado. A verdade é que o assunto "religião" é o mais polémico e que toca a um grande grupo de elites. É difícil um estado ser laico, mesmo estando salvaguardado na constituição.O dia que houver separação do sistema educativo, político e social da religião, os direitos humanos poderão se tornar uma realidade para esses países, incluindo o nosso. Uma sociedade mais justa e livre, sem os preconceitos e dogmas da religião. 
 
Um grande abraço.
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