Malalai Joya, a activista de luta pela democracia e direitos das mulheres no Afeganistão, está em Portugal a convite do Bloco de Esquerda. No sábado denunciou em Lisboa a fraude eleitoral e os crimes dos governantes de Cabul e este domingo tem encontro marcado com os portuenses às 16 horas no Café Guarany, nos Aliados.
Malalai Joya é das poucas vozes que o mundo conhece da intransigência da oposição aos talibãs e aos senhores da guerra e da droga que hoje ocupam os lugares de topo no poder político, protegidos pelas tropas de ocupação. Eleita deputada no parlamento afegão, foi expulsa desse órgão por dizer que "isto não é um parlamento, é um jardim zoológico" e que "a bancada da maioria é composta por criminosos e corruptos". "Confrontei-os com os seus crimes e por isso me expulsaram, fui insultada e ameaçada, inclusive de violação, e exigiram que pedisse desculpa para poder voltar" a ocupar o lugar para que tinha sido eleita. "Não ia pedir desculpa por dizer a verdade", afirmou Malalai Joya às dezenas de pessoas que compareceram ao encontro lisboeta com a activista, na livraria Ler Devagar.
"Venho de uma terra de tragédia. Substituíram os talibãs por uma clique que chega ao poder com as mãos ensaguentadas e que fala de direitos humanos sem acreditar em nada disso", começou por explicar a activista. "Por isso somos hoje o centro da produção de droga e um santuário para os terroristas", disse Malalai Joya.
"É muito difícil combater dois inimigos ao mesmo tempo. Por isso é tão importante a solidariedade internacional", referiu por várias vezes a activista afegã, identificando os talibãs, "com a sua mentalidade medieval" e as tropas estrangeiras, que "ao estilo do colonizador britânico usa a táctica de dividir para reinar", tendo criado a força dos talibãs contra os soviéticos e dos narco-senhores da guerra contra os talibãs.
Questionada sobre a entrega do Nobel da Paz a Obama, Malalai classificou-o como "um insulto à paz" e lançou a pergunta: "O que é que ele fez pela paz nestes 9 meses? Está a ser o presidente da guerra. Olhem para o que se passa no Afeganistão, no Iraque, até no Paquistão onde os aviões não tripulados continuam os bombardeamentos".
"Obama devia pedir desculpa ao meu povo por esta 'guerra ao terror' que não é mais que uma guerra aos inocentes", criticou a activista que também lembrou o investimento norte-americano na prisão de Bagram - "a nova Guantanamo" - e que "a democracia nunca foi feita com a guerra". Malalai não poupou críticas aos media ocidentais: "Eles dizem que se os ocupantes saírem vem aí a guerra civil. Mas nós já temos uma guerra civil hoje". Malalai acredita que o povo afegão "odeia os talibãs e os narcotraficantes". "Mas os ocupantes querem agora trazer de volta o Mullah Omar para o governo, dizendo que ele é um talibã moderado. Isto é só para enganar a opinião pública internacional", denunciou a activista que o Bloco de Esquerda e o seu grupo parlamentar em Estrasburgo - o GUE/NGL - querem ver vencer o Prémio Sakharov, que distingue os lutadores pelos direitos humanos no mundo.
O eurodeputado independente eleito pelo Bloco foi o anfitrião deste
encontro. Rui Tavares explicou as razões da proposta da candidatura de
Malalai Joya ao Prémio Sakharov. "Há 30 anos que ouvimos falar muito do
Afeganistão, mas quase nunca ouvimos falar uma voz do Afeganistão",
referiu Tavares para concluir que isso leva a uma cultura de impunidade
que resulta na "vergonha" de que "a guerra seja sempre a primeira opção
quando se trata do Afeganistão".
Quanto aos resultados das recentes presidenciais, contestados pelos observadores internacionais, Malalai Joya não tem dúvidas da falta de legitimidade dos resultados anunciados. "As urnas ficaram todas nas mãos da mafia e dizia-se que o importante não é quem vota, mas quem conta os votos. O fantoche sem vergonha que é Hamid Karzai foi o escolhido para ganhar e assim continuar no poder", acusou a ex-deputada, sem grande apreço pelo principal opositor, que "teve o apoio dos narcotraficantes e senhores da guerra".
"A educação é fundamental para a emancipação, e é isso que falta no Afeganistão", sublinhou por várias vezes na sua intervenção, criticando igualmente o agravamento das situações de pobreza, apesar dos 36 mil milhões que o país recebeu nos últimos oito anos.
A situação das mulheres no Afeganistão também foi destacada nas intervenções desta activista que por várias vezes referiu a misoginia da classe política. Malalai Joya recordou que o parlamento afegão tem 25% de mulheres, que na sua maioria estão alinhadas com o sector fundamentalista contrário aos direitos das mulheres. E deu muitos exemplos de ataques que demonstram que se estão a tornar mais comuns os crimes como violações ou a violência doméstica, bem como a discriminação nos tribunais e leis feitas à medida para impedir as mulheres de trabalhar ou sair à rua sem autorização do marido. "Leis que Karzai assinou para ter umas eleições tranquilas", disse Malalai, que no Afeganistão só sai à rua de burqa e com guarda-costas, "e nem assim estou segura. Assim, como é que podemos falar de democracia?", questionou.
» 5 Comentários
5"Nem imaginam o que vi..." em 21 de October de 2009 14:59
Estive no Afeganistão numa missão de imposição de paz da Nato no ano de 2006,e por muito que lhes pareça chocante o que Malalai Joya conta a verdade é que a realidade é bem mais assustadora... Estive numa guerra que não é a nossa mas pensava inocentemente que estava a ajudar,quando na realidade estava do lado inimigo!!Os senhores do ópio têm tanques de guerra e exércitos privados,os homens batem nas mulheres nas ruas, as crianças têm doenças de pele graves,sei la...e nós ali sem fazer NADA!!!!!!
4"Onde paira a solidariedad" em 20 de October de 2009 11:51
Estive presente em Lisboa, na Livraria Ler Devegar, e chocou-me (é o termo exacto) o número reduzido de pessoas presentes. O facto obriga-me a colocar as seguintes questões: Será que perdemos a capacidade de nos responsabilizarmos? Onde está o nosso sentimento de partilha? Já não acreditamos em atitudes nobres?
3Comentários em 20 de October de 2009 10:29
Que grande testemunho! São activistas assim que merecem ser reconhecidos. Sejam homens ou mulheres, é o acto em si e os princípios que lhe estão subjacentes que prevalecem.
2"Mães coragem" em 19 de October de 2009 22:31
Como é possivel no seculo 21,mães terem que se sacrificar para conseguir dar aos seus filhos o que elas não tiveram e tudo graças aos senhores da guerra que lucram bastante com a dor e a miséria humana dos povos desvastados por essa mesma guerra,devido á ganancia dos senhores do mundo. Essas Mães e os seus filhos são as verdadeiras vitimas desse flagelo. São verdadeiras heroinas.
1"mulheres lutadoras" em 18 de October de 2009 01:07
porque ,porque existir um mundo onde as mulheres continuam a ser descriminadas .porque vivermos numa sociedade mundial onde não se respeita as pessoas que trazem o ser humano ao mundo. é triste saber k existem pessoas que maltratam o quão precioso são as mulheres. ainda bm ke existem mulheres que fazem frente a essas pessoas que n final d contas não passam d uns terroristas incapazes d respeitarem a vida . ainda bm que existem mulheres que um pouco por tudo o mundo lutam contra a tristeza.
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