Milhares de pessoas desfilaram em defesa da Paz pelas ruas de Istambul, como é tradicional a 1 de Setembro. Desta vez houve outra grande manifestação, em Diyarbakir, a maior cidade do curdistão turco, porque as circunstâncias são diferentes: a "questão curda" está agora no centro do debate político. (vê aqui fotos da manifestação).
Artigo de João Romão, de Istambul para o Esquerda.net
O governo da Turquia quer encontrar uma solução para a "questão curda" até ao próximo Outono, antes da delegação da Comissão Europeia que acompanha a eventual adesão da Turquia produza um novo relatório sobre a situação no país. Desde o início dos anos 90 que não havia uma tentativa oficial para resolver este problema.
Desta vez, o primeiro-ministro, conservador, abriu o diálogo em todas as frentes: tem feito reuniões com o DTP (o maior partido curdo, representado no Parlamento da Turquia e com a presidência da maior parte dos municípios no território do curdistão), com todos os partidos representados no Parlamento, com os líderes religiosos, com os chefes militares, com as ONG envolvidas na questão curda, com associações de empresários, com intelectuais e figuras da cultura ou com os familiares das vítimas da conflito bélico que dura há 20 anos com a guerrilha do PKK, o ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão). O próprio Okalan, líder histórico do PKK, condenado a prisão perpétua, já manifestou o seu apoio a esta iniciativa.
A adesão ao diálogo proposto pelo governo tem sido quase unanimemente aceite e essa é a esperança do povo curdo para ver resolvido um conflito que já custou muitas vidas. A oposição ao processo tem vindo do CHP (o maior partido da oposição, kemalista, vagamente social-democrata), do MHP (partido nacionalista, de extrema-direita, com representação parlamentar) e de algumas associações de familiares de vítimas do conflito armado. Em todo o caso, o apoio ao processo de diálogo é claramente maioritário na Turquia e unânime no curdistão.
O curdistão ocupa um território de 500.000 km2, na sua maior parte na Turquia, mas que se estende pelo Iraque, Irão, Síria, Arménia e Azerbeijão. São 26 milhões de pessoas, com uma língua própria e que se reivindicam de uma nação: a maior nação sem Estado do Mundo. Este processo de diálogo com o governo da Turquia pode finalmente permitir o reconhecimento da nação curda. A presença massiva do povo e das organizações curdas nas manifestações de 1 de Setembro são um sinal da esperança com que estão a viver este momento.
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