"A regulação do capitalismo é a crise e a bancarrota", disse Olivier Besancenot, o porta voz do Novo Partido Anticapitalista francês convidado para o comício "A Hora da Esquerda" que juntou quinhentas pessoas no Porto. Miguel Portas falou dos efeitos da crise em Portugal e a progressiva degradação do nível de vida em relação ao resto da UE. "Temos preços europeus e temos salários cada vez mais portugueses", diz o eurodeputado bloquista. Vê aqui as fotos do comício.
Olivier Besancenot, porta-voz do Novo Partido Anticapitalista,
começou por analisar a crise na UE e EUA, sublinhando a responsabilidade da direita e da esquerda internacional. "Só uma transformação revolucionária é que pode garantir uma resposta à crise do capitalismo, porque a regulação do capitalismo é a crise e a bancarrota", disse Besancenot sem poupar nas críticas aos governos da UE. "São todos mentirosos, porque falam de reformas mas não fizeram nada para limitar a livre circulação dos capitais. Hoje continuam a fazer a mesma política de austeridade, há dinheiro para salvar os bancos mas a caixa continua vazia para atender à urgência social", prosseguiu o carteiro que surpreendeu a França nas últimas presidenciais.
"As grandes dificuldades que o sistema vai encontrar ainda estão para vir, são as resistências sociais", previu Besancenot advertindo no entanto para o cenário de ressurgimento das ideias xenófobas que a crise propicia. "Esta é a hora de fazer a nova distribuição da riqueza, porque o preço da crise do sistema tem de ser pago pelos capitalistas e enquanto isso não acontecer não teremos boas notícias", continuou o porta-voz do NPA, concluindo que "é preciso trazer a vida real para a campanha.
Em seguida, Miguel Portas falou da crise, do desemprego e da precariedade, mostrando que "a crise vem de trás", com as políticas europeias que têm diminuído a fatia dos rendimentos do trabalho a favor do capital. "A evolução da desigualdade nos rendimentos é particularmente grave", disse o candidato bloquista para concluir que para os portugueses "esta crise nova surge por cima duma crise que já é velha".
Comparando em seguida Portugal com países de dimensão equivalente, numa apresentação sempre ilustrada por gráficos projectados num ecrã gigante, Miguel Portas demonstrou que a distância dos níveis de vida entre "os países do nosso campeonato" e os mais desenvolvidos da UE está a encurtar-se a um ritmo que Portugal não segue. "Temos preços europeus e temos salários cada vez mais portugueses", concluiu o eurodeputado do Bloco. Para além do atraso nos salários, também foi focado o da educação, "que é a área onde vai ser mais difícil recuperar". Quanto à crise económica e às previsões do Eurostat, OCDE e FMI, "só há uma constante: cada previsão é pior que a anterior".
"Quem nos trouxe à crise não nos vai tirar dela", diz Miguel Portas, para quem "os que não têm culpa nenhuma são os que estão a pagá-la: os mais jovens, os mais pobres e os desempregados". Mostrando em seguida declarações do Nobel da Economia Paul Krugman sobre as respostas dos governos á crise, Miguel Portas disse que elas provam que a Europa de Durão Barroso está a fazer apenas um sexto do que devia, "e desse sexto, a maior parte vai para os banqueiros".
"A Europa quer enfrentar esta crise, mantendo o Orçamento comunitário. Isto é irresponsável!", exclamou Miguel Portas, dizendo que a maior parte deste orçamento vai para a Política Agrícola Comum, que "distribui o dinheiro das ajudas para as grandes empresas e até à Raínha de Inglaterra ". Para financiar as medidas para responder à crise, Portas defendeu o fim do segredo bancário para combater a fraude, e criticou o governo por ter recuado na posição defendida pelo PS no parlamento.
Outra ideia defendida pelo candidato do Bloco foi "crédito como bem público", com a Caixa Geral de Depósitos, enquanto banco público, a liderar uma política de crédito orientada para o desenvolvimento da economia. "Os assuntos do crédito são demasiado importantes para ser deixados aos banqueiros" , avisou Miguel Portas antes de se referir aos paraísos fiscais que acolhem o dinheiro de "toda a economia ilegal e criminosa", num total avaliado pela revista Economist de "cinco vezes o total dos valor dos planos de combate à crise nos EUA e na UE juntos".
Durão Barroso também foi citado no discurso do candidato bloquista, a propósito do momento em que "esse grande português" defendeu o aumento da idade da reforma, um plano concretizado em Portugal pelo governo do PS. "O que precisamos é de justiça na economia", defendeu Miguel Portas, terminando a intervenção com um apelo ao voto a 7 de Junho: "Está nas nossas mãos tornar possível o que parece impossível, porque ou mudamos ou seremos irrealistas. Hoje, é a mudança que é realista!".
Francisco Louçã encerrou o comício referindo-se às dificuldades manifestadas pelos banqueiros na imprensa, e citando várias queixas. "A vida está difícil para os banqueiros", ironizou o dirigente bloquista, que não esqueceu a corrida ao crédito no BPN pelas empresas de construção civil. "O crédito é fácil para quem estende a mão ao Estado", afirmou Louçã. O "pânico" gerado pela proposta do Bloco de taxar os prémios dos gestores foi outro dos temas abordados, tal como as alternativas políticas estarão em confronto nas próximas legislativas. Louçã diz que todos já perceberam que "ou há bloco central, ou há Bloco de Esquerda".
Alda Sousa, dirigente do Bloco/Porto e também candidata ao Parlamento Europeu, descreveu alguns momentos marcantes da presença do Bloco nas mobilizações europeias por outra Europa e contra a guerra: "estivemos em Génova, na Escócia, em Bruxelas ou em Nice, estivemos nas lutas contra a NATO e pelo fim das bases militares norte-americanas". "Enquanto eles constroem a Europa Fortaleza, nós queremos a legalização dos trabalhadores imigrantes sem papéis; enquanto eles falam na igualdade de direitos para os nivelar por baixo, nós defendemos a igualdade para os nivelar por cima", defendeu Alda Sousa.
Na abertura, João Teixeira Lopes começou por saudar os convidados do Novo Partido Anticapitalista francês e disse que a esquerda europeia não se confunde com a política das elites europeias. Numa intervenção crítica das "políticas das elites europeias", João Teixeira Lopes não poupou críticas à dupla Barroso/Sócrates "Por onde eles passam semeiam a crise, a pobreza e as desigualdades sociais". Referindo a sua condição de candidato do Bloco à Câmara do Porto a intervir num comício antes das europeias, justificou-a na conclusão do seu discurso. "Quando falamos do que se passa nos bairros de Aldoar, do Aleixo, do Tarrafal, dizemos também 'Isto é a Europa!'"
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