Durante a última semana, a polícia e os media britânicos alertaram de modo sensacionalista para uma catástrofe que se iria desenrolar no seio da cidade de Londres nos dias 1 e 2 de Abril. Os trabalhadores no distrito financeiro foram aconselhados a ir “disfarçados”, foram anunciadas invasões de escritórios com hora marcada, foram previstos terríveis confrontos e muita violência. Leia a reportagem de Ana Cruz, em Londres
Na manhã de 1 de Abril, apesar do clima de receio que pairava na cidade, tudo parecia calmo e normal, todos os serviços estavam operacionais. No distrito financeiro, para onde tinham sido programados grande parte dos protestos do dia, muitos estabelecimentos estavam de portas encerradas e algumas ruas encontravam-se cortadas.
Às 11h da manhã, os manifestantes juntaram-se em quatro pontos da cidade tantos quantos os Cavaleiros do Apocalipse, os quais representavam algumas das reivindicações consideradas mais urgentes exigidas pelos activistas da organização “G-20 Meltdown”: a condenação dos crimes financeiros; o fim da guerra; as alterações climáticas; e o apoio aos que perderam as suas casas. As marchas fizeram-se pacificamente por entre o trânsito, sem grande aparato policial à vista. As críticas ao sistema apareciam de todas as formas, com muita imaginação, através de máscaras, música, performances de rua ou simples dísticos onde se podia ler frases como “Carbon change too little too late”, “We are angry!”, “People before profits” ou “Bankers rhymes with...”. A animação era grande e os manifestantes conseguiram até fazer rir alguns funcionários dos muitos que espreitavam de todas as janelas dos escritórios do distrito financeiro. Os manifestantes eram sobretudo jovens, alguns idosos, mas quase nenhuma criança (eram muitas nas manifestações sobre Gaza).
Por volta do meio-dia, as quatro concentrações convergiram para diante do Banco de Inglaterra, como planeado, deparando-se com muita polícia. Às 12h30 esta já tinha bloqueado todas as ruas que davam acesso à praça e ninguém podia entrar nem sair, a não ser os jornalistas, banqueiros e moradores. Dentro do cordão, muitos continuavam a festa dançando, outros mostravam-se mais preocupados, outros ainda efectuavam verdadeiras acrobacias para pendurar as suas bandeiras no topo das colunas do Banco de Inglaterra, nas patas do cavalo do “Duque de Ferro” ou nos postes e semáforos, sendo fortemente aplaudidos pela multidão. O jogo do gato e do rato continuava entre a polícia e os anarquistas; os agentes estavam empoleirados nas varandas e equipados com a mais alta tecnologia de aquisição de imagem, que apontavam descaradamente aos activistas de cara tapada.
A indignação dos manifestantes, apanhados de surpresa, ia aumentando à medida que as horas passavam. A informação dada pela força policial era pouca e os seus agentes mostravam-se inflexíveis diante das centenas de pedidos e razões apresentadas pelos manifestantes para serem libertados. A tensão subia junto dos cordões policiais, onde se verificavam alguns empurrões, situações que eram agravadas pelos muitos jornalistas que se precipitavam para tentar fotografar ou filmar sempre que havia algum contacto mais aceso.
Muitas pessoas concentravam-se do outro lado da barreira, a muitos metros de distância, na esperança de poder juntar-se à manifestação. Passadas mais de três horas de detenção, já as paredes dos edifícios transformadas em casas de banho, aconteceu o evento mais mediático da cimeira G-20: uma dezena de manifestantes de cara tapada partiram os vidros do Royal Bank of Scotland e por uns minutos invadiram-no, tendo dois sido presos. Mais ao fim do dia, deixados sem água nem comida, e sem quaisquer condições sanitárias, impedidos de participar no resto dos protestos que se desenrolavam noutros pontos da cidade ou de cumprir os seus compromissos privados, profissionais ou familiares, a frustração e desespero eram grandes e aumentava a intensidade dos conflitos com a polícia. Depois de oito horas detidos, a polícia começou a deixar sair um a um, revistando-os. Houve queixas de que esta concedia a libertação dos activistas na condição de se identificarem e serem fotografados, e levando-os pelo braço ao longo da rua Princes.
Acampamento pelas alterações climáticas
Pelas 12h30, muitos ambientalistas começaram a montar as suas tendas à porta do edifício do Câmbio Climático Europeu, situado noutro ponto do distrito financeiro, ocupando em poucos minutos a rua Bishopsgate. O acampamento, organizado pela associação “Climate Camp”, visava protestar contra o ‘câmbio de carbono’, segundo eles, uma medida não eficaz para reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, permitindo que os países ricos continuem com os mesmos níveis de poluição. O plano era acampar durante 24 horas, por isso foi montada uma cozinha, casa de banho e posto médico. Durante toda a tarde, o protesto desencadeou-se pacificamente. Por volta das 18h30, a polícia decidiu encurralar os activistas. Do lado de lá das linhas policiais, não paravam de chegar outros activistas, acumulando-se persistentemente em todas as ruas dos cruzamentos próximos, sem nunca lhes ser dada oportunidade de se juntarem ao acampamento.
Comentava-se que eram em número bastante mais elevado do que as que estavam realmente na Bishopsgate. Apesar da indignação geral, o ambiente era animado e descontraído, muita música através de um sistema de som movido a bicicletas, batucadas, uma banda folk e artistas vários, alguma poesia, numa atmosfera de companheirismo e apelo à não-violência. A polícia, que se mantinha nos cordões, de vez em quando levava um manifestante algemado. Algumas pessoas desempenhavam o papel de observadores, identificados com coletes vermelhos, tomando nota dos relatos da polícia e dos manifestantes. Por volta das 23h30, a polícia começou a deixar sair as pessoas uma a uma, revistando-as, um processo que foi bastante moroso. Muitos ficaram, com o objectivo de pernoitar. Há relatos e imagens de que, pela manhã, os manifestantes foram violentamente varridos pela polícia sem aviso prévio nem tempo para pegarem nos seus pertences - apesar dos braços no ar dos manifestantes apelando à calma --, o que provocou vários feridos e bastante pânico. No fim do protesto, havia bastante descontentamento dos ambientalistadas pela forma violenta como a manifestação tinha acabado, apesar de ter sido pacífica durante todo o dia e noite.
Chama-se “kettle” a táctica usada pela polícia de deter os manifestantes durante horas a fio, impedindo que outros activistas se juntem aos protestos. Este método tem sido bastante criticado no Reino Unido por ser considerado um atentado contra a liberdade de expressão e de manifestação, apesar de opiniões contrárias acharem que estes meios se justificam para garantir menor número de ocorrências de violência. Esta técnica é sobretudo conhecida por ter sido usada nos protestos do “May Day” em 2001, depois da qual foi levantada uma acção civil que só ficou resolvida em Janeiro deste ano pelos “Law Lords” (funcionários judiciais da Casa dos Lordes que actuam como última instância na decisão de casos civis), em favor da polícia britânica.
Apesar de terem ocorrido alguns incidentes condenáveis - sobretudo de confrontação entre a polícia e os manifestantes (nada comparado com a escalada de violência que se anunciara) -- ,o ambiente geral foi pacífico e os manifestantes acreditam terem conseguido passar a mensagem às 20 nações reunidas na cimeira. Se estas vão tê-la em conta ou não, é outra história.
Ana Cruz é uma cientista portuguesa a residir em Londres.
» 1 Comentários
1"ENEGIA SUJA NA PARAIBA" em 11 de April de 2009 17:55
gostaria de protesta contra a construção da termoelétrica na minha cidade CAMPINA GRANDE PB como poder haver a troca de energia vinda de uma hidroeletrica para uma movida a óleo diesel o nosso prefeito VENEZIANO VITAL DO REGO afirmou que apenas iria consumir 30 camiao de óleo diesel por mes nada mal para as distribuidoras do diesel como pode haver isso depois que o brasil assinou o protocolo de quoito onde estar o ministro do meio ambiente so na amazona a paraíba faz parte do BRASI
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