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Venezuela, meu amor

A esquerda de que faço parte nunca foi ambígua sobre a condenação de regimes que oprimem o povo e sufocam a democracia. Isso vale para Angola e para o regime venezuelano. Artigo de Joana Mortágua
Foto Guillermo Lengemann Garcés/Flickr

Todos os dias vemos imagens de uma Venezuela destroçada às mãos de um poder que recusa encontrar no sofrimento do seu povo razão suficiente para renunciar. Nas ruas de Caracas, os protestos acompanham a pobreza, os supermercados estão vazios e a fila do racionamento só alimenta o mercado negro, onde os trabalhadores perdem tudo e as máfias prosperam.

Em plena crise humanitária, a miséria é mais que muita, mas a Venezuela continua a sugar as suas poucas reservas para o pagamento da dívida externa. O desespero por dólares é tanto que o país está a aceitar qualquer negócio, até com o diabo, como aconteceu recentemente com a venda de títulos da dívida da empresa Petróleos da Venezuela (PDVSA), a preço de saldo, à Goldman Sachs.

Enquanto os gigantes financeiros especulam com o destino da Venezuela, Nicolás Maduro tenta resistir ao seu. O chavismo que mobilizou a esperança de multidões de ex-pobres morreu afogado num poço de petróleo, deixando como lastro uma retórica nacionalista anti- -ianque e uma veia caudilhista que já se sentia em Chávez e pulsa em Maduro.

O mesmo petróleo com que Chávez tirou milhões da pobreza também serviu para corromper o exército, a burguesia e um batalhão de burocratas. A petroeconomia rentista e desértica, sem investimento noutros setores produtivos nem serviços públicos robustos, acabou por traçar o seu próprio destino. O colapso do preço do petróleo levou o país à rutura e atirou a base social de apoio do chavismo de volta para a pobreza, sem rede pública de segurança.

Sem outra resposta para a contestação popular, o regime endureceu e as oposições engrossaram fileiras, incluindo as que sempre agiram e até promoveram golpes de Estado a mando dos Estados Unidos. Sim, Maduro tem a infeliz história da América Latina do seu lado quando fala de imperialismo, mas a verdade é que enquanto Chávez teve apoio popular não houve intervencionismo que o impedisse de ganhar eleições.

Pelo contrário, Maduro perdeu-as. Com uma assembleia dominada pela oposição, o presidente passou a governar por decreto presidencial com a cumplicidade do Supremo Tribunal. Os abusos contra os restantes partidos são constantes, da inutilização da assembleia à ameaça de ilegalizar o Partido Comunista da Venezuela.

O regime manobra contra todos os instrumentos democráticos constitucionais, incluindo o referendo revogatório, que permitiria ao povo expulsar o presidente a meio do mandato. A última farsa foi a convocação de uma assembleia nacional constituinte sem sufrágio universal nem participação dos partidos, uma verdadeira assembleia corporativa como a que conhecemos por cá no tempo da ditadura.

O chavismo passou de projeto do povo a ditadura de caudilho, e não há democrata no mundo que aceite pactuar com isso. A tragédia que todos temos medo de antever só pode ser evitada pela realização de eleições presidenciais. É essa a saída democrática exigida pelo povo venezuelano, é a que exigiríamos se lá estivéssemos, sem esquecer os tantos portugueses entre a população diariamente sujeita às pilhagens e à miséria.

Bem sei que há uma esquerda cega que, 25 anos depois da queda do Muro, ainda acha que vale tudo na defesa de regimes pseudocomunistas. É escolha sua se Brejnev ainda lhes aquece os corações. A esquerda de que faço parte nunca foi ambígua sobre a condenação de regimes que oprimem o povo e sufocam a democracia. Isso vale para Angola e para o regime venezuelano, ainda que as calúnias da direita ignorante insistam que lhes temos amor.

Artigo publicado no jornal “I” a 7 de junho de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.

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Comentários

Não concordo quando diz que o Chavez tirou milhões da miséria. Isso é mentira!!!
Chavez iludiu o povo que o faria... mas só a sua família e os seus compinchas é que enriqueceram.
Chavez aconselhou os seus seguidores a invadirem hotéis, terrenos, supermercados... muitos deles de emigrantes que fizeram da Venezuela o que ela era até finais dos anos 80.
Os chavistas invadiram hotéis e instalaram-se lá como se das suas casas se tratasse. Isto foi no auge do chavismo!!!
O problema é que Chavez tinha carisma e o apoio da América Latina. Depois de Chavez morrer , o Maduro (ex-motorista de autocarros) ficou com a manta de retalhos na mão que acabou por se romper de vez.
O que ele faz agora é CRIME INTERNACIONAL e terá de ser julgado como tal...

A questão da Venezuela é tão complexa que é muito difícil nos dias de hoje encontrar um ponto que se pegue para justificar a situação. Aliás, a Grécia esteve não há muito tempo numa situação que por pouco não resultou numa Venezuela à europeia e, Joana Mortágua, foram exactamente os negócios com o diabo que evitaram o pior. Não nos esqueçamos também dos nossos próprios negócios com o diabo que têm resultado por exemplo em aumentos anuais de 15 a 20 por cento nos custos da energia. De qualquer modo, são conhecidas algumas verdades e senhor Pedro Resende, o verdadeiro crime internacional é a CIA despejar dinheiro nas ruas de Caracas, como confirmou a mãe do jovem de 17 anos que morreu ontem alegadamente por uma granada de gaz lacrimogéneo.

Parabéns Joana por ter tido o desassombro de pôr o dedo onde há muito já deveria ter estado. As esquerdas não não são nem podem ler linearmente pela mesma cartilha É preciso encontrar hoje o espaço certo sem ceder minimamente à direita mas tMb perceber os erros passados e sacudir a poeira bolorenta de outros tempos de uma forma lúcida pensada e esclarecida. O seu artigo vai nesse sentido ... já não era sem tempo . Que o Bloco o assimile e continue a ir em frente ...esse o seu espaço hoje e aqui .

Queria fazer uma correção acadêmica a citação da venda de titulos,se utilizando do texto do economista Venezuelano Francisco Rodrigues do Bank of América e da Torino Capital.Queria sugerir a leitura de livros da história venezuelana,o Pais deu default apenas em 1902.Os titulos venezuelanos sempre foram comercializados ,e não é correto dizer que ele tem deságio de 68%.
Na verdade os juros cobrados na operação de 20 VINTE ANOS ,capitalizados podem chegar a este juros.
A Venezuela comercializa os títulos no mercado,não são ações e sim títulos pra fazer exploração de petróleo como qualquer pais petroleiro.A PDVSA é 100 % estatal e pela constituição não pode ser vendida.
Assim vamos checar antes ,pra não ser chamados da esquerda que a DIREITA gosta.

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