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Zeca Afonso: Um grande amigo e um homem extraordinário

Luís Cília refere a grande amizade que o une a Zeca Afonso. A enorme qualidade do seu trabalho “deixa grandes marcas na cultura portuguesa”, assinala o compositor e intérprete no testemunho que deu ao Esquerda.net.
Luis Cilia e Paco Ibáñez.

Luís Cília nasceu no Huambo, Angola, em 1943. Após uma breve passagem por Portugal, entre 1959 e 1964, onde começou a musicar poesia por influência do poeta Daniel Filipe, parte para Paris, onde vem a conhecer Zeca Afonso. Luis Cilia foi o primeiro cantor de intervenção que no exílio denunciou a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal.

O Luís Cília nasceu em Angola e veio para Portugal só em 1959

Sim, eu vim para Portugal em 1959 porque em Angola não havia universidades. Vim para cá para fazer o 5º, 6º e 7º anos e depois entrar em económicas.

E foi em 1962 que conheceu o poeta Daniel Filipe que o incentivou a musicar poesia

Eu frequentava a Casa de Estudantes do Império, que vivia um bocado fechada sobre si mesma, ainda que tivéssemos alguns contactos, e existissem estudantes que pertenciam a partidos, não estou só a falar do MPLA mas também de partidos portugueses. De qualquer forma, não conhecia nada do que se passava em Coimbra, por exemplo ao nível da canção. Na altura, cantava rock. Entretanto, conheci o poeta Daniel Filipe que me mostrou um disco do Brassens e outro do Ferré e aí deu-se a mudança. Foi nessa altura que comecei a musicar poemas sem ter ligação nenhuma àquele centro, que era Coimbra, ao Zeca e ao Adriano, sobretudo.

Então durante o período em que esteve em Portugal, entre 1959 e 1964, não teve contacto nenhum com o Zeca Afonso nomeadamente?

Não. Estive em colégios internos, portanto não tinha qualquer contacto e, como lhe digo, na altura cantava rock, na rádio em direto, inclusive. Não tinha qualquer educação política na altura, e foi quando comecei a frequentar a Casa de Estudantes do Império que comecei a ter uma consciência política, da vida não só em Portugal como também no que respeita à guerra colonial.

No exílio denunciou a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal...

Isso já foi quando cheguei a Paris.

Quando é que se deu o primeiro contacto com a música do Zeca Afonso?

Já foi em Paris. É inacreditável mas, de facto, já estava em Paris, já tinha feito uma série de músicas e estava até a preparar-me para gravar o meu primeiro disco. Em Paris conheci uma cantora muito importante, e que, em França, foi como uma mãe para mim, a Colette Magny, que me apresentou à Chant du Monde e eles convidaram-me para fazer um disco. É o meu primeiro disco, um disco muito ingénuo, um bocado panfletário, que gravei numa tarde, dezasseis canções numa única tarde. É um disco com muitas imperfeições mas pelo qual eu tenho um carinho especial. Entretanto, não sei se em junho ou julho, o CITAC de Coimbra foi a Paris e a delegação integrava o Adriano. E aí conheci pessoalmente o Adriano através do Manuel Alegre, que também tinha acabado de chegar a Paris. Lembro-me de um dia, na Île Saint-Louis, que é por trás da Notre Dame, nos termos encontrarmos e termos cantarmos todos umas canções. O Adriano incluiu, inclusive, três das canções que eu cantei nesse dia no disco que fez a seguir – o “Sou barco”, etc. O Adriano conheci-o pessoalmente aí, mas não tinha nenhum disco dele. E foi por essa altura que ouvi o primeiro disco do Zeca Afonso, acompanhado na viola por uma pessoa também muito importante, com um excelente trabalho, o Rui Pato. Foi aí que conheci os primeiros discos do Zeca Afonso, que eram uma maravilha, de um talento enorme.

E quando é que conheceu pessoalmente o Zeca Afonso?

Foi em Paris, porque eu não podia vir a Portugal. Conheci-o quando o Zeca foi lá cantar pela primeira vez. Já não me recordo da data precisa, mas ainda foi nos anos 60, numa espécie de foyer de estudantes no Bairro Saint-Michel, que era dirigido pelo Ayala, um exilado que vivia lá há muitos anos. A partir daí ficámos amigos. Ele e a Zélia chegaram a ficar em nossa casa numa altura em que não estávamos em Paris. Comecei, portanto, a ter uma relação mais intensa com o Zeca, também com o Paco Ibáñez conheceu o Zeca nessa época através de mim.

Então, ainda antes de regressar a Portugal, teve vários contactos com o Zeca?

Sim, creio que vários. Não lhe posso precisar quantos, mas cada vez que o Zeca ia a Paris nós encontrávamos-nos e eu tinha sempre um enorme prazer em vê-lo e em ouvi-lo cantar.

Quando regressa do exílio a Portugal, a 30 de abril de 1974, com José Mário Branco, ou o José Mário Branco consigo, como preferir

E nós com o Álvaro Cunhal… [risos]

Exatamente, e vocês com o Álvaro Cunhal. O Zeca Afonso estava à vossa espera no aeroporto da Portela e cantou-se a Grândola. Lembra-se desse momento e dos sentimentos que se impuseram?

Sim, claro que me lembro. Sabe, eu sou um bocado tímido e vou dizer francamente que aquele “folclore” não me agradava muito. Numa altura em Portugal em que havia homens que saíam da prisão, tendo estado presos 20 anos, e que tinham sofrido muito nessas condições, não me parecia boa ideia nós virmos armados nos 'grandes exilados'. Por isso, nas fotografias e filmagens apareço sempre com um ar desconfortável. Mas sim, esteve lá o Zeca e também o José Jorge Letria, o Ary dos Santos, o Adelino Gomes, o José Duarte, do jazz,… Estiveram mais pessoas, da área da música, mas destes lembro-me. Juntámos-nos e cantou-se a Grândola, que foi uma excelente escolha dos militares. Às vezes, os militares não têm grande gosto, mas aí tiveram.

Quais foram as experiências que mais o marcaram no convívio com o Zeca? Lembra-se de algum momento em particular?

Conhecer o Zeca já foi algo extraordinário. Tivemos uma experiência um bocado infeliz. Houve um concerto na Mutualité em que cantava o Tino Flores, o Sérgio, o José Mário, eu e o Zeca e apareceram uns tipos – a quem eu chamava dois nomes, os 'Che Guevaras das latrinas' e os 'Che Guevaras do Quartier Latin' - que fizeram um panfleto horrível a dizer “Chora camarada, chora” contra o Zeca Afonso em que insinuavam coisas horríveis. Esse espetáculo acabou muito mal, porque eles foram lá mesmo para provocar. Lembro-me que o Zeca ficou bastante amargurado com essa experiência na altura. Foi uma experiência desagradável que ele teve em Paris na qual eu participei. [ver documentos publicados no final deste artigo]

Em que ano foi?

Eu penso que em 1970. O que me choca nisto é que muitos desses 'pseudo-revolucionários do Quartier Latin' que fizeram aquela coisa lamentável depois, quando o Zeca morreu, eram algumas das viúvas do Zeca.

Sobre outros momentos, cada vez que o Zeca lá foi convivemos. Lembro-me de um encontro com o Zeca e com o Paco Ibáñez no café, no Quartier Latin, durante o qual estivemos a falar da música. O Zeca era sempre, de facto, uma pessoa muito agradável.

A vossa experiência de convívio foi sempre através da música, de ativismo político também?

O Zeca nunca foi do Partido Comunista e eu era militante do Partido Comunista. Mas devo-lhe dizer que tive alguns problemas depois do 25 de Abril porque os meus grandes amigos não eram do Partido Comunista. Era o Zeca, era o Fausto, era o Sérgio… Do partido era o Adriano. Portanto não tive relacionamento político com o Zeca. Em absoluto, tivemos, porque éramos os dois contra o fascismo. Mas eu estava noutro partido e o Zeca depois esteve mais ligado à LUAR. Mas isso nunca, nunca foi impedimento da nossa grande amizade. O Zeca era uma pessoa aberta.

Que características do Zeca destaca, como cantor, como ativista, como amigo?

Como cantor, era um homem com uma criatividade inacreditável. Ainda por cima porque o Zeca não tinha estudado música e ter aquela inventividade é, de facto, extraordinário. O Zeca era um criador fora de comum. E também como poeta. Os poemas do Zeca são de uma grande qualidade. Como amigo, eu só tenho a dizer bem do Zeca. Acompanhei um pouco a sua doença, e foi uma situação muito dolorosa para todos aqueles que eram amigos dele.

Qual é, a seu ver, a maior herança que o Zeca deixou?

Há duas. O Zeca, o homem que é um exemplo para nós, um grande amigo e um homem extraordinário. E o exemplo que ele deixa na cultura portuguesa. É uma pessoa que, pela sua grande qualidade, ultrapassa a barreira da música clássica e da música ligeira. A sua qualidade deixa grandes marcas na cultura portuguesa.

E o que é que o Zeca representa hoje na música e na sociedade portuguesa?

Uma das vezes em que esteve em Portugal, o Leo Ferré disse-me: “Se eu começasse hoje, não me tinha safado”. Porque hoje, a nível de editoras, a nível das pessoas em geral, e no que respeita à canção, é o 'mastiga e deita fora'. Já não há aquela atenção que se dava à música naquela altura. Seguir um cantor, por exemplo. Comprávamos um disco do Zeca sem o ouvir. Eu também. Em França, cada vez que saía um disco do Brassens eu ia logo comprar, nem ouvia primeiro. Hoje já não existe esse tipo de público. Mas, por outro lado, eu noto que há uma série de jovens que estão muito atentos à música que se fazia naquela altura e que continuam a ter uma grande admiração pela música do Zeca. Isso dá-me uma certa esperança que o Zeca vai perdurar. Merece perdurar, porque ele tem grande qualidade.


Testemunho gravado pelo Esquerda.net via telemóvel a 15 de fevereiro de 2017.

Luis Cilia e Fidel Castro, julho de 1967.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Resto dossier

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