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Presidenciais: a eleição de Marcelo e o resultado histórico de Marisa

Com a maior abstenção de sempre em eleições sem recandidaturas presidenciais, a vitória de Marcelo acabou por se traduzir na pior votação do atual Presidente, comparando com os seus antecessores. Com mais de 10% dos votos, Marisa Matias conseguiu superar o melhor resultado da área do Bloco e tornou-se a mulher mais votada de sempre para a Presidência.
Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias antes do frente-a-frente na SIC durante a campanha eleitoral. Foto Paulete Matos.

A história da campanha presidencial portuguesa de 2016 resumiu-se a uma questão: conseguirão os nove candidatos obter a maioria dos votos e obrigar Marcelo Rebelo de Sousa a uma segunda volta? As sondagens davam há muitos meses um apoio esmagador ao “Professor”, que se acabara de retirar do comentário televisivo que manteve por longos anos, cilindrando a concorrência das noites de domingo nas audiências. 

Com toda a habilidade política que lhe é reconhecida, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa afastou os partidos – ou melhor, as figuras mais marcadas da então maioria governamental PSD/CDS – para se entregar a uma “campanha dos afetos”, aproveitando os níveis de popularidade conquistados em antena, fugindo sempre ao conflito, mas também à clareza sobre o que seria o exercício do seu mandato. Acabou por cumprir o objetivo da eleição à primeira volta, mas com o menor número de votos de sempre em presidenciais sem Presidentes recandidatos.

Os restantes candidatos iam com a missão de o obrigar a uma segunda volta, mas alguns nunca conseguiram ultrapassar as suas próprias dificuldades. Na área socialista, António Sampaio da Nóvoa lançou cedo a candidatura e cedo se perdeu na indefinição do perfil da campanha que trazia, ficado refém do desejo de ver anunciado um apoio oficial do PS que nunca chegou a acontecer. Com o Partido Socialista à beira de perder por falta de comparência uma eleição presidencial, a candidatura de Maria de Belém nasceu como uma candidatura de fação dentro das lutas internas que tinham acabado de dividir o PS com a substituição de Seguro por Costa, e arrastou-se nos semanas finais de campanha em comícios vazios onde a candidata tentava defender a reposição das subvenções vitalícias aos políticos, enquanto as pensões dos trabalhadores continuavam cortadas.

À esquerda, o PCP apostou no ex-deputado madeirense Edgar Silva, um candidato com fraca notoriedade à partida e que nunca conseguiu inverter essa dificuldade. Os momentos de tensão que procurou criar nos debates com Marisa Matias, acusando-a de ter apoiado guerras imperialistas no Médio Oriente e na Líbia, ficaram para a história desta campanha como dos momentos de maior sectarismo entre candidatos de esquerda. O resultado final não chegou aos 4%, mostrando que essa estratégia de campanha não mereceu a aprovação do eleitorado comunista.

A candidatura de Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, foi a única a conseguir corresponder ao resultado eleitoral obtido pelo partido nas legislativas realizadas três meses antes. Com 10.15% dos votos, Marisa Matias ultrapassou em número de votos a candidatura protagonizada 30 anos antes por Maria de Lourdes Pintasilgo, tornando-se a mulher mais votada de sempre para presidir à República portuguesa. Com uma campanha centrada nas críticas ao mandato do presidente cessante, Cavaco Silva, e na vontade de protagonizar o ciclo de mudança que acabara de afastar o governo da direita, Marisa Matias recolheu apoios e simpatia muito para além da área política do Bloco, o que se traduziu num resultado histórico.

Quanto aos restantes candidatos, o destaque da noite eleitoral foi para Vitorino Silva, conhecido como o “Tino de Rans”, com 3.28%. A campanha populista de Paulo de Morais, que procurou associar a generalidade dos partidos à corrupção em Portugal, obteve 2.16%, enquanto o socialista Henrique Neto não foi além dos 0.84%. Com votações residuais ficaram os candidatos Jorge Sequeira (0.3%) e Cândido Ferreira, que se recusou a participar nos frente a frente televisivos (0.23%).

Resto dossier

Os temas de 2016

Neste ano em que todos os perigos se adensaram no mundo e em que a Europa falhou no principal, Portugal conseguiu provar que a política de austeridade não é inevitável e deu esperança na luta pela mudança social em defesa dos mais pobres e do trabalho. Veja aqui uma seleção de alguns temas que marcaram o ano de 2016 em Portugal e no mundo.

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O ano ficou marcado pela reversão de medidas do anterior governo PSD/CDS e pela recuperação de rendimentos. O acordo que viabiliza o atual executivo do PS veio provar que era possível outro caminho. É preciso ir ainda mais longe, nomeadamente no combate à precariedade, e não aceitar recuos na defesa dos direitos.

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Urso polar num iceberg a derreter.

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Dos 17 anos mais quentes desde que há registos, só um não pertenceu ao século XXI. Alterações climáticas são a constante mais evidente num tempo de instabilidade fortemente associada à crescente degradação material do planeta. Por João Camargo.

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X Convenção do Bloco

Convenção do Bloco com mira apontada às ameaças de Bruxelas

A X Convenção do Bloco foi a primeira realizada num contexto político em que o Bloco integra a maioria parlamentar que afastou a direita do poder. As principais críticas foram dirigidas a Bruxelas e às ameaças de sanções a Portugal.

As principais vítimas desta deriva punitiva são os países do sul, vergados a políticas de austeridade extremas que provocaram uma regressão social devastadora.

Sanções: O rolo compressor da chantagem política

Quando a Comissão Europeia (CE) “aprovou” o Orçamento do Estado de Portugal para 2017, embora com avisos de que iria manter uma vigilância apertada sobre o mesmo, já tinha deixado um historial de ameaças sobre imposições de sanções que acabaram por se tornar num dos assunto do ano.

Golpe e contragolpe na Turquia

A madrugada de 15 de julho ficou marcada pela tentativa de golpe militar na Turquia. Mas as tropas fieis ao presidente Erdogan conseguiram travar o golpe. Em seguida, Erdogan declarou o estado de emergência e deu início a uma caça às bruxas que ainda decorre, com o objetivo de consolidar o poder absoluto no país.

11 dos 17 ativistas angolanos que foram julgados.

Repressão em Angola

Os 17 jovens ativistas angolanos foram acusados de “atos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” e condenados a penas entre os dois e os oito anos, apesar de depois terem recebido uma amnistia. Eduardo dos Santos foi reeleito presidente do MPLA por 99.6% dos votos e prepara sucessão.

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Os refugiados e os interesses que os aprisionam

O ano que agora termina continuou a ser marcado pela crise dos refugiados, vítimas de um complexo de jogo de interesses que continuou a desprezar os Direitos Humanos daqueles que fogem do terrorismo e da guerra.

Durão Barroso

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As aventuras e desventuras de Durão não se esgotaram na Comissão Europeia. Menos de dois anos depois de terminar o seu mandato foi contratado pelo banco de investimento mais agressivo do Mundo, com quem já tinha uma longa parceria.

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Farmacêutica comprou multinacional produtora de sementes geneticamente modificadas e de pesticidas, entre os quais o glifosato. Grupo resultante será o maior do ramo e representará um desastre para a nutrição global.

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Euro 2016: Os méritos de um campeão improvável

Apesar de ter vários jogadores de craveira internacional, Portugal acabou por ser um campeão europeu improvável, sobretudo se tivermos em linha de conta que jogou a final contra a França, país organizador do Europeu. Por Pedro Ferreira.

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O ano marcado pelo afastamento de Dilma Rousseff e pelo fim dos governos hegemonizados pelo PT termina com mais incógnitas que certezas. Por Luis Leiria, no Rio de Janeiro.

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