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O frevo fez cem anos

Frevo – foto de cartaeducacao.com.br
Frevo – foto de cartaeducacao.com.br

Carnaval não é só samba. O frevo, uma "combinação de canto, toque e dança", domina ainda o carnaval de alguns estados do Nordeste brasileiro, como Pernambuco e Paraíba. Este ano, o frevo faz cem anos e passou a ser classificado património imaterial da cultura brasileira. Neste artigo da Carta Maior, o jornalista Edson Wander conta a história deste ritmo contagiante e destaca as principais iniciativas destinadas a comemorar o centenário.

 

 

 

CENTENÁRIO DO FREVO

Ferveção centenária

O frevo faz cem anos e é tombado [classificado como Património] pelo Iphan (Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional) como património imaterial da cultura brasileira. Pernambuco prepara-se para fazer deste o carnaval do ano do frevo. Haverá comemorações por todo o ano.

Edson Wander

Combinação vibrante de canto, toque e dança, o frevo ganha neste próximo dia 9 em Recife (PE) uma reverência que reconhece seu valor musical para além do carnaval que lhe deu origem. Já se fazia frevo em Recife, mas a palavra só apareceu como caracterização do ritmo no dia 9 de Fevereiro de 1907 nas páginas do Jornal Pequeno do Recife. Para descrever a animação do povo nas ruas e clubes sob o som da marchinha acelerada, o jornalista Osvald de Almeida, que se escondia sob o pseudónimo de Paula Judeu, cravou o termo, que já andava na boca do povo.

    

Frevo é uma corruptela coloquial de ferveção. Dizia-se à época em Recife "o povo está fervendo na rua", expressão que a mágica ambulante da linguagem popular levou a "o povo está frevendo na rua". De frever a frevo foi um passinho lingüístico captado pelo repórter pernambucano que acabou homenageado depois por Nelson Heráclito Alves Ferreira (1902-1976), pioneiro e tido como um dos maiores criadores de frevo da história.

Ferreira fez para o jornalista o frevo-de-rua Osvald é Frevo. Segundo o compositor, musicólogo e estudioso do frevo Samuel Valente, o marco de Fevereiro em 1907 é apenas simbólico, já que na virada do século 19 para o 20 as bandas de música de Recife já ensaiavam os primeiros acordes próprios do frevo, mas ainda vistos como marchas. O frevo é um ritmo que "entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé", nas palavras do compositor Luiz Bandeira (1923-1998).

Como praticamente todos os géneros musicais consolidados no Brasil, o frevo nasceu da confluência das culturas europeia e afro-brasileira. Historiadores pernambucanos asseguram que, antes de o termo frevo aparecer no Jornal Pequeno do Recife, já dava os primeiros trinados e bailados numa simbiose de polcas, modinhas, dobrados e maxixes e jogos pastoris (formação de pau e corda) pelas ruas da capital pernambucana.

As bandas de música (civil ou militar) da época ajudaram a dar a conformação sonora ao que se conhece hoje do frevo, uma massa musical destacada pelos metais. Sobre o frevo-de-rua, a versão instrumental do género, o maestro Guerra-Peixe disse uma vez ser "a única música popular que não admite o compositor de orelha". Era uma referência à exigência técnica dessa música e um destaque aos maestros que comandavam as trupes "frevísticas".

A música era sempre acompanhada nos blocos pelos capoeiristas. Em maioria negros ainda vítimas do preconceito e da perseguição policial, esses dançarinos aceleravam os passos ao ritmo da música para despistar seus detratores e defender-se nos enfrentamentos entre os próprios grupos, que também existiam, garantem os historiadores pernambucanos. "Vem daí o embrião do parafuso, da tesoura, dobradiça e as outras centenas de passos do frevo que se observa hoje", completa Valente, estudioso de pródiga memória que é sempre requisitado pelo editor paranaense Leon Barg, do selo Revivendo Músicas, nas reedições de discos de frevo. As sombrinhas coloridas que passaram a marcar o colorido do frevo eram os velhos e bons guarda-chuvas que serviam de escudo e ponto de equilíbrio para as evoluções dos dançarinos.

Música que já incendiava as ruas e clubes de Recife desde a virada do século 19 para o 20, o frevo só chegou ao disco a partir dos anos 20, junto com a inauguração da indústria fonográfica no Brasil. "Borboleta Não é Ave", uma marcha-canção composta por Nelson Ferreira para o carnaval de 1923, foi o primeiro frevo gravado por Bahiano, o mesmo "cancionista" que gravou "Pelo Telefone", de Donga (1917). Frevo como género musical foi admitido e difundido "oficialmente" a partir de 1933, numa reunião da Federação Carnavalesca Pernambucana, uma espécie de Liga dos Blocos do Carnaval de Recife. Pelo combinado na convenção dessa federação, quando a marchinha fosse instrumental ela seria designada "frevo-de-rua" e "frevo-canção", quando fosse cantada.

A primeira gravação de frevo-de-rua, ainda com cara de marcha, foi "Não Puxa Maroca", de 1929, registro da RCA-Victor pela Orquestra Victor Brasileira, dirigida por ninguém menos que Pixinguinha (1897-1973). Maroca, conta o pesquisador Samuel Valente, era uma prostituta famosa na época que inspirou Nelson Ferreira nesta e em pelo menos outros três frevos. Valente estima a produção de Ferreira em cerca de 250 composições. Pianista, gravou também com muita gente da Era do Rádio; acompanhou Francisco Alves e Almirante em várias valsas e canções que se tornaram famosas à época. Foi músico e compositor requisitado nacionalmente em outros géneros, mas manteve a fama de grande produtor de frevo e passou à história com um dos melhores, ao lado de Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (1904-1997). Para Antonio Nóbrega, são nomes que significam para o frevo o que Pixinguinha e Jacob do Bandolim representam para o choro.

Nelson Ferreira tornou-se ícone do género não só pelas composições em si, sugere Valente, mas por ter sido um pioneiro nos três tipos de frevo que passaram a ser produzidos: frevo-de-rua (instrumental), o frevo-canção e o frevo-de-bloco, uma variação que primava por particularidades como iniciar sempre com um apito seguido de um surdo, os primeiros acordes da melodia e coral feminino. Ferreira deu forma a essa terceira variação do frevo com a música Evocação, de 1957. Ironia do destino, o primeiro frevo gravado foi por um artista baiano e o último show de um dos maiores nomes do frevo pernambucano deu-se na Bahia, no carnaval de 1976, em Salvador. Em dezembro do mesmo ano, morreu Nelson Ferreira.

Comemorações atravessarão o ano
Pernambuco prepara-se para fazer deste carnaval o ano do frevo. As comemorações terão seu ponto alto durante as folias de Momo, mas devem estender-se por todo o ano.

A prefeitura do Recife levou ao Iphan a proposta de tornar o frevo património cultural imaterial do Brasil. O Conselho Consultivo do Património Cultural do Iphan, que se reúne na tarde deste dia 9 de fevereiro na Sacristia da Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife, acatou o pedido do tombamento. O anúncio oficial será feito às 18h, quando o ministro Gilberto Gil e o presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, anunciarão o resultado da votação e darão início a uma grande festa popular, com o Show dos 100 Anos do Frevo da Feira Música Brasil.

No cenário fonográfico, três discos de projecção nacional serão lançados. Dois deles são de artistas pernambucanos famosos e já estão nas lojas desde o fim de 2006. Antonio Nóbrega (na foto com Samuel Valente) lançou o segundo volume de Nove de Frevereiro, compilação de frevos-de-rua (instrumental) e frevos-canção, entre composições próprias e de mestres consagrados do género. Alceu Valença gravou um CD e DVD ao vivo em show no Marco Zero (praça histórica de Recife) que reuniu mais de cem mil pessoas.

O terceiro disco integra a vasta programação preparada pela prefeitura de Recife. Em parceria com a gravadora carioca Biscoito Fino, foi gravado o álbum duplo 100 Anos do Frevo, que traz a participação de artistas pernambucanos e de outros Estados, a maioria grandes figuras da MPB. No disco 1, há frevos instrumentais de compositores consagrados e, no 2, estão os frevos cantados por Lenine, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Vanessa da Mata, Edu Lobo e outros. A direção musical dos álbuns ficou a cargo de Carlos Fernando e arranjos de Clóvis Pereira, Spok e Edson Rodrigues, todos músicos pernambucanos.

Outros discos de artistas pernambucanos serão lançados com apoio da prefeitura, casos dos compositores J. Michiles, Claudionor Germano, Maestro Ademir Araújo e Nonô Germano. Spok (Inaldo Cavalcanti de Albuquerque) e sua Frevo Orquestra ganhará a edição do primeiro DVD. Spok é considerado hoje o principal renovador do género, fama que aumentou com o elogiado primeiro álbum de seu grupo, Passo de Anjo, lançado em 2004. Ainda na programação oficial recifense, haverá diversos shows, seminários, cursos, espaço próprio à difusão da cultura do frevo erguido em parceria com a Fundação Roberto Marinho e um livro com textos literários e críticos, fotos e ilustrações.

A publicação trará textos de Ariano Suassuna, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima, Tárik de Souza, Chico Anísio, Antonio Maria e outros. Até uma exposição ao estilo do "cow parade" (a grande exposição aberta de arte criada na Suíça em 1998) está sendo programada. Um grupo de 17 artistas plásticos pernambucanos foram convidados a fazer 17 protótipos de passistas de frevo em fibra de vidro de 2,20 metros de altura. As peças serão espalhadas pela cidade. A programação completa das comemorações do centenário do frevo em Recife pode ser conferida no site da prefeitura (www.recife.pe.org.br).

Frevo no palco e no disco
Dois dos melhores defensores da tradição "frevística" na atualidade dedicam seus novos álbuns às comemorações do centenário do frevo. Antonio Nóbrega lança a segunda parte de Nove de Frevereiro, enquanto Alceu Valença foi ao Marco Zero para gravar seu elogio público à tradição do género. Melhor concebido, os dois álbuns de Nóbrega fazem uma antologia do gênero em meio às produções próprias com outros parceiros. O primeiro disco, lançado em 2005, acabou premiado no Prêmio Tim como melhor álbum na categoria regional. Trazia basicamente o repertório consagrado do género (15 faixas) mais uma faixa autoral (Garrincha, dele com Wilson Freire).

O volume 2 do projecto amplia o espectro da homenagem em forma e conteúdo. Com participações de vários músicos convidados, Nóbrega insere sua rabeca na linguagem do frevo. São 16 faixas com novos nomes das diferentes matizes do frevo, como os maestros Edson Rodrigues e Clóvis Pereira (frevo-de-rua), os compositores J. Michiles, Getúlio Cavalcanti e Wilson Freire, além das figuras clássicas do gênero, como Nelson Ferreira, Lourival Oliveira e Capiba.

Na produção e arranjos, Nóbrega contou com os músicos Edmilson Capelupi (SP) e Spok, da Spok Frevo Orquestra, que comandou as gravações em Recife. Aparecem ainda convidados ilustres como a Banda Mantiqueira (SP), Quinteto da Paraíba, Quinteto Villa-Lobos (RJ), os grupos de choro Sujeito a Guincho e Papo de Anjo (SP), Orquestra Retratos (PE) e o acordeonista Toninho Ferraguti. A inclusão de elementos "estranhos" ao frevo não comprometeu a releitura.

Numa faixa em especial, Florilégio, Nóbrega fez um pot-pourri de frevos de ontem e hoje na voz de grandes nomes da música brasileira. Por quase sete minutos de música desfilam nomes como Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Dominguinhos, Chico César, Claudionor Germano, Dalva Torres, Expedito Baracho, Melissa Dias, Ná Ozzetti, Nena Queiroga, Silvério Pessoa, Suzana Salles, Valéria Moraes e Vanessa Oliveira. O disco é fechado com Melodia Sentimental, de Heitor Villa-Lobos, em cuja segunda parte o maestro Clóvis Pereira a acelera no ritmo do frevo.

Nóbrega diz que a associação de Villa-Lobos com o frevo é uma "glosa livre" dele que se torna mais perceptível ao público que assistir ao espetáculo. O disco vem com um bem cuidado encarte de 60 páginas contendo minibiografias dos mais importantes nomes do frevo, glossário de passos, fotos inéditas sobre o frevo do acervo de Pierre Verger e ensaio fotográfico do Nóbrega dançarino feito pelo renomado Walter Carvalho. O espetáculo do disco, conta Nóbrega, deverá ser gravado para virar um DVD duplo com registro do show e um documentário do frevo feito pelo próprio Walter Carvalho.

É homenagem a um gênero que mais atendeu ao talento múltiplo de Nóbrega, acha ele próprio. "O frevo é uma instituição para mim porque junta o instrumental, o canto e a dança, três possibilidades artísticas que eu sempre busquei explorar em meu trabalho", diz, admitindo ter o frevo uma ascendência sobre ele mais do que as outras tradições pernambucanas como o maracatu e as cirandas, por exemplo.

Homenagem menos imponente, mas não menos vibrante foi o show que Alceu Valença registrou no Marco Zero no ano passado. O CD (14 faixas) e o DVD (17) foram projetados para entrar nas comemorações do frevo. Valença valeu-se de uma grande banda (privilegiando os metais) para repassar 17 músicas pinçadas de seu vasto repertório, nem todas frevos originais, mas colocadas na ambientação "frevística" do show. No palco, ele recebeu participações especiais de Silvério Pessoa (em Voltei, Recife, de Luiz Bandeira), Daúde (em Embolada do Tempo, do próprio Alceu), Zeca Baleiro (em Vassourinha Aquática, de Alceu com Matias da Rocha e Joana Batista Ramos) e Paula Lima, que divide voz com ele em Maracatu (dele com Ascenso Ferreira).

A produção musical ficou com o guitarrista da banda de Alceu (Paulo Rafael), mas Spok dá o ar de graça em alguns solos. Nos extras, mais duas faixas, numa delas, Acende a Luz (de Alceu Valença), o Maestro Duda ganha uma menção honrosa e participação na regência; e Alceu fala da importância do frevo para ele e para Pernambuco.

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Resto dossier

Dossier Carnaval – foto Papangus no Carnaval de Olinda, Pernambuco, Brasil

Dossier Carnaval

Em época de Entrudo e de folia, o Esquerda.net republica o dossier organizado por Luís Leiria, de 2007, dedicado a esta grande festa popular: desde as suas origens até à particularidade dos carnavais de Veneza e do Brasil. Divirta-se!

Entrudo em Tourém, Montalegre - Foto extraída de naturbarroso.net

O Entrudo em Tourém, Montalegre

De entre todas as celebrações cíclicas anuais, o Entrudo ou Carnaval é das que maior riqueza de aspectos apresenta, além de uma grande variedade de elementos e de uma característica complexidade de significações.
Podendo a sua origem ser mais arcaica, é contudo nos velhos ritos romanos de celebração do fim do Inverno e de início de Primavera que deve ser encontrado o seu sentido mais genuíno. Apesar dos seus rituais pagãos, as comemorações do Entrudo ultrapassaram as fronteiras da Europa acompanhando a difusão do cristianismo.

Torres, o mais popular carnaval português

Tudo leva a crer que as facécias de Carnaval em Torres Vedras, tal como hoje o conhecemos, tenham emergido no rescaldo da luta dos republicanos contra a dinastia dos Braganças. A imponência das vestes reais em que se integram elementos de ridículo como o ceptro régio transmudado em corno ou o leque de Sua Sereníssima Alteza, a Rainha, alterado para abano de fogareiro plebeu, parecem credibilizar esta génese. A actual festa do Carnaval de Torres, nascida em 1923 contem já os elementos distintivos que hoje permanecem : os Reis, as matrafonas, o cocotte, os carros alegóricos, os cabeçudos e a espontaneidade.

Atriz Cris Vianna, raínha da bateria da Imperatriz Leopoldinense, 2016 – Foto wikipedia

Carnaval no Brasil: de manifestação popular a empreendimento comercial

Nesta crónica publicada na Folha de S. Paulo em 2005, o poeta Ferreira Gullar lembra como o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi evoluindo da avenida para o sambódromo, tornando-se no que é hoje: as mudanças acabaram por descaracterizar a apresentação das escolas de samba, que hoje está transformado num empreendimento comercial, visando mais o lucro do que a qualidade e a autenticidade dessa manifestação cultural popular, originalmente carioca, hoje nacional.

Escola de samba Imperstriz Leopoldinense

Documentário sobre uma escola de samba do Rio de Janeiro

Os vídeos que se seguem são parte de um documentário sobre a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, "Imperatriz do Carnaval", de Medeiros Schultz. Neles é possível ver a cidade do Rio de Janeiro que se prepara para o Carnaval, o ensaio da bateria da escola de samba, a descrição de cada um dos instrumentos da bateria, e o ensaio final no barracão da escola.

Frevo – foto de cartaeducacao.com.br

O frevo fez cem anos

Carnaval não é só samba. O frevo, uma "combinação de canto, toque e dança", domina ainda o carnaval de alguns estados do Nordeste brasileiro, como Pernambuco e Paraíba. Este ano, o frevo faz cem anos e passou a ser classificado património imaterial da cultura brasileira. Neste artigo da Carta Maior, o jornalista Edson Wander conta a história deste ritmo contagiante e destaca as principais iniciativas destinadas a comemorar o centenário.

Veneza: bailes medievais e mascarados à moda setecentista

Enquanto as madrinhas de bateria se requebram e os trios eléctricos fazem tremer as avenidas no Brasil, bailes medievais e mascarados à moda setecentista comemoram a mesma festa - a quilómetros e séculos de tradição de distância -, em Veneza.
O uso de máscaras em Veneza data dos anos 1200 e representava uma maneira de viver uma "loucura legal", ou seja, escondidos pelo ornamento, os venezianos permitiam-se quase tudo. No começo do século 14, surgiram leis que restringiam as traquinices mascaradas, na tentativa de travar a decadência moral.

Moacyr Scliar (1937-2011) - Foto: Cia das Letras/Divulgação

Os que não gostam de Carnaval

Há exactamente 65 anos, Dorival Caymmi compôs o histórico Samba de Minha Terra, cuja letra é categórica: Quem não gosta de samba/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do pé. Com isto dividiu a humanidade, ou, pelo menos, os brasileiros, em dois grupos: os que gostam e os que não gostam de samba. Que correspondem a dois outros grupos, os que gostam e os que não gostam de Carnaval - protagonistas de uma oposição tão ferrenha que provavelmente os transformará em protagonistas da Batalha Final.

Giovanni Domenico Tiepolo (1727-1804), Scène Carnival, le menuet, 1750, Musée du Louvre, Paris – Foto wikipedia

História do Carnaval

Muitas são as teorias e opiniões sobre a origem do Carnaval. Mas numa ideia todas elas convergem: a transgressão, o corpo, o prazer, a carne, a festa, a dança, a música, a arte, a celebração, a inversão de papéis, as cores e a alegria, fazem parte da matriz genética de uma das manifestações populares mais belas do Mundo.

Máscaras do Carnaval de Veneza

Entre o riso e o sagrado

O Padre e Filósofo Anselmo Borges, num artigo publicado no Diário de Notícias, valoriza a dimensão «catártica» do Carnaval: «O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente normalizar comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.» E lembra que «foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se». Porque o sagrado não sobrevive sem o riso.

Padre Mário de Oliveira – Foto extraída de viriatoteles.com

Deus gosta mais do Carnaval

Numa Quarta-feira de Cinzas, o Padre Mário de Oliveira escreveu no seu diário um texto precioso sobre a forma como a Igreja venera o dia que se segue ao Carnaval: «Mas como é que Deus poderia gostar mais do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas, do que do dia de ontem, Carnaval? Não é Ele o Deus da Alegria e da Festa? Não é Ele o Deus da Vida e dos Vivos? Não é Ele o Deus da Plenitude e da Abundância? Não é Ele o Deus do Excesso e da Ressurreição? (...) A humanidade, cada vez mais liberta da nefasta influência do clero católico e da sua ideologia moralista, também gosta mais do Carnaval, do que da Quarta-feira de cinzas». Para ler devagarinho e aos bocadinhos.

Bloco da Capoeira no circuito Campo Grande, Salvador - Foto wikipedia

“Atrás do trio eléctrico só vai quem pode pagar”

Quando as escolas de samba do Rio de Janeiro começaram a desfilar em recinto fechado (primeiro fechou-se a avenida Presidente Vargas e depois construiu-se o sambódromo, uma espécie de estádio para ver os desfiles), o carnaval de Salvador da Bahia passou a ser o maior carnaval de rua do Brasil. Nessa altura, como cantava Caetano Veloso, atrás do trio eléctrico só não vai quem já morreu." Hoje tudo mudou. Como mostra esta entrevista da Carta Maior com o geógrafo  Clímaco Dias, é preciso dinheiro (e muito) para pular no carnaval de Salvador.

Maria Rita interpretando a canção "Todo Carnaval tem seu fim"

Epílogo: Todo Carnaval Tem Seu Fim

Para encerrar o dossier Carnaval, a canção "Todo o Carnaval Tem Seu Fim", na interpretação da cantora Maria Rita.