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“Não quero ser atirada para um alçapão e ficar à espera da morte”

Cidadãos com deficiência falam das suas expectativas de vida e rejeitam ser atirados para as margens da sociedade.

“Eu e a minha circunstância”

A minha vida mudou há quinze anos quando um acidente de automóvel me atirou para uma cadeira de rodas para o resto da vida. Tinha 32 anos, um filho bebé e um casamento feliz. Na altura, e penso que isso acontece com toda a gente, o desespero tomou conta de mim e a vida deixou de fazer sentido. Não poder utilizar os braços para pegar no meu filho, ou ter de depender de outros, no meu caso a minha mulher, para poder realizar os atos mais simples e básicos da vida dilacerou-me.

O tempo não apaga as feridas, quando muito ameniza-as. Considerei-me um inválido durante muito tempo e confesso que me sentia bem quando percebia que as pessoas tinham pena de mim.

"Tão novo, com uma carreira tão bem sucedida e aconteceu-lhe isto. Coitado". Sabia que muita gente o dizia e isso alimentava a minha necessidade de sofrimento, e justificava a minha interrogação permanente: Porquê eu?

Daí à depressão foi um passo. Tudo deixou de fazer sentido, porque sentia-me apenas um peso morto que não tinha, não podia ter, vontade própria porque dependia dos outros para quase tudo.

Um dia, o médico disse-me uma coisa simples, mas que pode ter significado o momento de viragem que operei em relação à forma como passei a olhar para a minha deficiência. Numa consulta, o psiquiatra, num tom de voz de reprovação, aconselhou-me a pôr um ponto final na forma piegas como eu olhava para mim, porque se assim não fosse, não valeria a pena continuarmos as consultas.

"O Joaquim", disse-me o médico, "é hoje um homem diferente e tem de decidir se quer ou não viver dessa forma. A decisão diz-lhe unicamente respeito a si, porque todos os outros estarão a mais no seu processo de decisão. Reflita sobre isso e peço-lhe que me visite apenas se recomeçar a ver-se como um homem de corpo inteiro".

Levou algum tempo, implicou muitos tropeções e angústias profundas, mas houve um momento em que conversei comigo próprio para concluir que a partir daquele momento era eu e a minha circunstância. E nisso tudo estava um coração que bate, sangue a correr-me nas veias, a Filomena que continua a amar-me e um filho que é quase um homem. Seria sensato desistir de tudo isto por cobardia? Não. O caminho tem sempre obstáculos e, por isso, é preciso saber afastá-los não através da boa ação do dia ou da piedade dos outros mas da afirmação de uma cidadania inclusiva que nos coloque no mesmo patamar daqueles que não têm qualquer tipo de deficiência. Embora não conheça muito bem a filosofia subjacente à Vida Independente, quero crer que é este o seu sentido. Eu não sou uma pessoa doente. Tenho apenas limitações de natureza física que conseguirei ultrapassar se tiver apoio. E essa é uma responsabilidade que também cabe ao Estado. (Joaquim S., 47 anos, funcionário público).

“Tenho sonhos e quero concretizá-los”

Muitas vezes sinto que olham para mim como a desgraçada para quem a vida foi madrasta porque lhe roubou a independência que é a parte mais importante na vida de todas as pessoas.

Confesso que sinto-me revoltada pela incapacidade revelada pela sociedade em lidar com as pessoas com deficiência. Somos um fardo? Ou pessoas válidas que devem estar em pé de igualdade com toda a gente? Infelizmente, a primeira interrogação é para muita gente a única avaliação que são capazes de fazer de nós. Os amigos escasseiam, no trabalho sinto muitas vezes da parte de alguns colegas uma condescendência que está intimamente ligada à ideia que é preciso ter paciência connosco. Quando isso acontece tento digerir em silêncio a repulsa de quem não quer ser tratada como a coitadinha.

Vivo com os meus pais porque o meu namorado não quis prosseguir a relação depois do acidente, argumentando que não queria viver com alguém que iria depender dele. Ao contrário do que se possa nomedamente arquitetónica, ou outro tipo de obstáculos, são apenas, se me permite a expressão, poças de água que tenho de saber evitar.

Em Portugal, as políticas para as pessoas com deficiência carecem de alterações profundas. E as mentalidades precisam igualmente de uma revolução. Sou uma cidadã de corpo inteiro mas tenho medo que me falte o apoio essencial da minha família. Não quero ser atirada para um alçapão e ficar à espera da morte. Tenho sonhos e quero concretizá-los. (Ana Serôdio, 33 anos, administrativa, tetraplégica)

“Já fui rejeitado no acesso ao emprego por ser cego”

Em Portugal, as políticas para as pessoas com deficiência são ineficazes e esta realidade está patente, por exemplo, no campo do ensino, uma vez que a maioria da população cega não chega a completar o 12º ano, e depois tem mais dificuldades no acesso ao mercado de trabalho.

Para se ter uma noção do que acabo de dizer basta atentar nas estatísticas, que nos mostram uma taxa elevadíssima e preocupante de pessoas cegas que estão no desemprego.

Para mim, esta realidade resulta de uma prática discriminatória levada a cabo pelas entidades empregadoras, que acaba por comprometer os objetivos que se pretendem implementar através do modelo da Vida Independente, caso os poderes públicos não ajam por forma a que este tipo de situações não continuem a prejudicar o futuro das pessoas.

No entanto, deve ser sublinhado que o setor público é muitas vezes o primeiro a não cumprir a lei através de um expediente que passa pelo faseamento dos concursos. Uma vez que a legislação em vigor prevê a ocupação de postos de trabalho para pessoas com deficiência só a partir de três lugares, esta manobra permite contornar a lei.

Eu já fui alvo de uma situação óbvia de discriminação por parte da Câmara Municipal da Amadora, que não aceitou a minha proposta para um concurso público devido à minha deficiência. Eu tinha terminado um curso de animador social, mas o município considerou que era inadequado e perigoso um cego desenvolver trabalho num bairro social. Apresentei um recurso, mas os serviços da câmara continuam a negar-me a possibilidade de realizar um trabalho para o qual me preparei.

Considero que o projeto Vida Independente está ainda numa fase embrionária, e deve ter uma base essencial que se prende com o aumento das qualificações das pessoas com deficiência para garantir que estas não são prejudicadas no ensino. É preciso repensar todo o sistema e aumentar os materiais de apoi. É a única forma de suprir as falhas que, muitas vezes, são um um obstáculo à nossa progressão escolar.

O modelo Vida Independente é muito importante para a autodeterminação das pessoas, mas confesso que sou contrário à participação das IPSS, uma vez que estas têm uma visão demasiado protecionista e institucionalizadora, o que colide com a filosofia deste movimento. (Nuno Antunes, 41 anos, estudante universitário e membro da Assembleia de Representantes da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal -ACAPO )

Resto dossier

Deficiência e autodeterminação: O direito a uma Vida Independente

O direito a uma Vida Independente é essencial para garantir às pessoas com deficiência a sua autonomia e romper com a lógica institucionalizadora e assistencialista patente na atual legislação. Dossier organizado por Pedro Ferreira.

Vida Independente - Pelo direito à autodeterminação

O deputado do Bloco Jorge Falcato considera que o caminho para garantir a autodeterminação e o direito a uma vida independente das pessoas com deficiência passa pela rejeição das atuais políticas institucionalizadoras que as impede de concretizar os seus objetivos de vida.

A nossa Vida (in)Dependente

Enquanto encararmos as nossas incapacidades como tragédias, terão pena de nós, enquanto sentirmos vergonha de quem somos, as nossas vidas serão vistas como inúteis, enquanto ficarmos em silêncio, serão outras pessoas a dizer-nos o que fazer. Por Eduardo Jorge.

Grito de revolta de um tetraplégico

Chove. Chove muito. É um daqueles dias de chuva intensa. Como se isso não bastasse, está vento e frio. Um temporal extremamente desagradável. No entanto, é dia de trabalho. Tenho de colocar a capa para a chuva na cadeira.

Cronologia do processo para a implementação da Vida Independente em Portugal

Apresentamos uma cronologia dos momentos mais significativos do percurso com vista à adoção de políticas para as pessoas com deficiência baseadas no modelo de Vida Independente.

“Queremos promover a permanência das pessoas no seu meio natural de vida”

A secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, considera que a assistência pessoal deve libertar as pessoas da institucionalização forçada.

“Não quero ser atirada para um alçapão e ficar à espera da morte”

Cidadãos com deficiência falam das suas expectativas de vida e rejeitam ser atirados para as margens da sociedade.

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