A luta entre tubarões

Manipulações sobre as taxas de juro? É um tema aborrecido, mas o escândalo que envolve o banco inglês Barclays pela manipulação de informação para fixar a taxa Libor afeta a vida quotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo. Por Alejandro Nadal.
Capa da edição de 7 de julho da Economist, apenas na versão vendida no Reino Unido.
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Manipulações sobre as taxas de juro? É um tema aborrecido, mas o escândalo que envolve o banco inglês Barclays pela manipulação de informação para fixar a taxa Libor afeta a vida quotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo. Por Alejandro Nadal.

O episódio revela uma vez mais que os agentes do mundo financeiro aviam-se com uma grande colherada. A investigação das agências reguladoras tenta tapar com um dedo o deslumbrante esplendor das mentiras e canalhices dos banqueiros.

Vamos por partes. O setor financeiro e os seus comparsas no mundo académico tentaram fazer crer, desde há mais de cem anos, que a taxa de juro é uma variável que se determina no mercado de fundos emprestáveis. Quer dizer, difundiu-se a fábula de que numa economia capitalista a taxa de juro é o preço que põe em equilíbrio a oferta e a procura de fundos (feitas pelos aforradores e pelos investidores). De acordo com essa visão, os bancos só desempenham uma função intermediária que é remunerada (pelas diferenças entre as taxas ativas e passivas de juro). Um mecanismo de mercado impessoal, análogo ao do mercado de maçãs, realiza o equilíbrio entre oferta e procura, determinando a taxa de juro.

Já sabemos que os bancos não têm de esperar que venha um cidadão virtuoso e aforrador realizar um depósito para poder emprestar essa quantidade a outro cidadão, desta vez um empreendedor. Na realidade, ao investidor pode ser emprestado o que procura se o seu projeto for considerado rentável e, para isso, é-lhe aberta uma conta, tal como se tivesse realizado um depósito. Ou seja os bancos não são simples intermediários: estão envolvidos numa operação de criação monetária.

Portanto, a taxa de juro não se determina no mítico mercado de fundos emprestáveis. É uma variável que se forma numa complexa prática social, na qual o sistema bancário tem a batuta. Por outras palavras, a taxa de juro é uma variável que não se determina por um mecanismo de mercado impessoal. Desta nova perspetiva depreendem-se enormes implicações.

Como meros cidadãos estamos sempre expostos aos abusos dos grandes predadores. A melhor prova está no que se refere ao pagamento de juros aos bancos. Por isso o escândalo da taxa Libor é tão importante e requer que as suas implicações políticas sejam analisadas.

A taxa Libor (London Interbank Offer Rates) é um dado fundamental no mercado mundial de serviços financeiros. É a taxa de referência dos empréstimos interbancários, assim como de uma infinidade de contratos de derivados. A Libor integra-se da seguinte maneira. A Associação de Banqueiros Británicos (BBA, sigla em inglês) pede a um grupo de grandes bancos que indiquem as taxas de juros que poderiam praticar a empréstimos a outros bancos para diferentes categorias de contratos e prazos de vencimento. O resultado é comunicado diariamente, às 11 da manhã, na praça de Londres. Não se trata, portanto, de taxas de juro que realmente se estão a realizar nas transações, mas das perceções dos bancos incluídos no painel da BBA sobre o custo dos empréstimos interbancários. A taxa Libor é atualmente o referente de operações que envolvem, não só grandes fundos de pensões, grupos corporativos ou a dívida pública, mas também para muitas operações, como a sua hipoteca ou um pequeno empréstimo do seu banco local.


Publicado no jornal mexicano La Jornada. Tradução de António José André.

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Dossier

Esta infografia do New York Times resume o que é a Libor e como a sua manipulação afetou empréstimos e hipotecas desdde 2005.

Boa parte da cobertura mediática do escândalo Libor centrou-se nas formas como o Barclays tentou manipular a taxa para baixo durante a crise financeira, para fazer o banco parecer mais seguro. Isso levou alguns ouvintes a fazerem uma boa pergunta: se as taxas foram empurradas para baixo, isso não ajuda os consumidores? Por Robert Smith, da NPR.

A Autoridade dos Serviços Financeiros é o suposto regulador da City londrino, mas documentos internos "devastadores" revelam que ela coordenou secretamente estratégias de lóbi ao mais alto nível com a indústria que devia investigar. Artigo de Melanie Newman.

O escândalo partiu do Reino Unido mas a investigação já incide sobre pelo menos quatro dos maiores bancos europeus: Crédit Agricole, HSBC, Deutsche Bank e Société Générale. O elo de ligação entre os quatro é um antigo corretor do Barclays.

A tese mediática da "maçã podre" já não resulta. Estamos a assistir à corrupção sistémica da banca - e à conspiração sistémica. Por Naomi Wolf.

Manipulações sobre as taxas de juro? É um tema aborrecido, mas o escândalo que envolve o banco inglês Barclays pela manipulação de informação para fixar a taxa Libor afeta a vida quotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo. Por Alejandro Nadal.

O escândalo envolve cerca de 20 grandes bancos internacionais e um mercado de cerca de 50 biliões de dólares, quatro vezes o PIB dos Estados Unidos. Entrevista a Michael Moran, professor de Economia do Centro de Investigação de Mudança Sócio-Cultural (CRESC), da U. de Manchester, por Marcelo Justo/Carta Maior.

Alguns gigantes da banca mundial – aqueles que apostam contra as dívidas públicas e recolhem os juros pagos com os sacrifícios dos povos – andaram nos últimos anos a manipular as taxas de juro de referência para lucrarem ainda mais com a desgraça alheia.

O direito tem um conjunto de escritores nos quais pode confiar para defender e inclusivamente babar a elite dos criminosos de colarinho branco, mas o centro conseguiu produzir gente ansiosa para defender mentiras. Artigo de William K. Black.

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