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Fillon, Marine Le Pen e a Cristofobia

Apesar de programas económicos diametralmente opostos, Fillon e Marine Le Pen comungam da mesma mensagem sobre a França, recorrendo à polarização social para mobilizar o seu eleitorado.
Marine Le Pen, foto de Arnold Jerocki, EPA/Lusa
Marine Le Pen, foto de Arnold Jerocki, EPA/Lusa

Depois da vitória inesperada nas primárias do Partido Republicano, derrotando a ala relativamente centrista de Juppé, François Fillon parecia predestinado para o Eliseu. Culturalmente conservador e católico, Fillon estava particularmente bem colocado para disputar o espaço político que o Partido Republicano perdeu para a Front National de Marine Le Pen.

Mas o que lhe garantiu a vitória sobre Sarkozy e Juppé - durante a campanha das primárias, Fillon marcou distância em relação a Sarkozy insistindo que “ninguém pode liderar a França” a menos que “esteja além de qualquer suspeita” - está agora a virar-se contra ele. Antes do escândalo de salários pagos à mulher e aos filhos, a Economist definia Fillon como uma “mistura de conservadorismo rural e Thatcherismo”. 

É relevador que o facto de ter sido primeiro-ministro durante cinco anos, sob a liderança de Sarkozy, não tenha deixado memória nem tenha revelado nada de políticas concretas que o envergonhasse ou criasse problemas, à exceção das mordomias pessoais que agora se revelaram. Fillon definiu toda a sua carreira na sombra, deixando a Sarkozy o estrelato público. Apenas um escândalo pessoal o poderia colocar agora em risco. 

Apesar do “ruralismo” que a Economist lhe identifica, Fillon assume um certo Gaulismo: quer recuperar a França como a “maior potência Europeia” em 10 anos e, sobretudo, “combater o Islão radical”, numa narrativa que já reconhecemos do outro lado do atlântico.

A austeridade de Fillon: despedimento de 500 mil funcionários e plafonamento das pensões

Se as semelhanças com Marine Le Pen são óbvias na imagem que ambos projectam de França, o seu programa económico é radicalmente diferente, sendo mais próximo de Emmanuel Macron na desregulação laboral e fiscal que propõe e, simultaneamente, da austeridade alemã e degradação o setor público. 

Sendo austeritário, o centro do seu programa sustenta-se, sem novidade, no peso da dívida pública francesa que, aproximando-se de 100% do PIB, argumenta, exige um esforço de contenção drástico do setor público. Desde logo o despedimento de 500 mil funcionários públicos.

Mais revelador da sua adesão à austeridade é a proposta de reestruturar as “coletividades territoriais” (expressão que engloba todos diferentes níveis de governo regional e local, incluindo municípios, entidades metropolitanas, as regiões propriamente ditas e os respetivos presidentes regionais, as províncias ultramarinas, etc.), colocando as regiões francesas sobre pressão e metas orçamentais num programa semelhante à Lei dos Compromissos que foi aplicada em Portugal durante a troika. Quer também reduzir para metade “o número de níveis hierárquicos das coletividades” e rever a “partilha atual de competências entre o Estado e as coletividades”. 

Ainda no capítulo de controlo da despesas pública, Fillon aborda a segurança social e o programa austeritário mantém-se, com aumento da idade de reforma para 65 anos e eliminação do sistema de antecipações. Mas sobretudo, propõe um sistema de plafonamento da segurança social, privatizando parte dos fundos de capitalização, apesar de não ser claro exatamente o método com que o pretende fazer. 

A autarcia de Marine Le Pen: serviços públicos apenas para franceses

O programa de Marine Le Pen nestas matérias é totalmente subjugado a uma visão da França em conflito com o exterior, que aliás lhe vai pagar os programas sociais. Ao contrário de Fillon, mantém a idade de reforma nos 60 anos (com 40 anos de desconto). Propõe aumentar o ASPA - o complemento mínimo de velhice - mas restringindo o número de cidadãos recém-nacionalizados elegíveis. Pretende também definir um nível mínimo de poder de compra (Prime de Pouvoir d’Achat) nos €1500/mês, programa que seria financiado por uma nova Contribuição Social sobre as Importações de 3%. 

Por outro lado, se mantém o horário laboral nas 35 horas semanais, autoriza que a nível de negociação coletiva se alongue até às 37 ou 39 horas mas, nestes casos, impõe uma compensação salarial extra. 

Na saúde, pretende restringir o acesso a cuidados de saúde, proibindo o acesso de estrangeiros a hospitais públicos. Quer aumentar o número de médicos nas localidades e nos hospitais. 

Ao contrário de Fillon, pretende manter o imposto sobre as fortunas (ISF) e baixar em 10% os impostos sobre o primeiro escalão de IRS. E ataca as grandes empresas, propondo “proibir o acesso à contratação pública as multinacionais que pratiquem a deslocação fiscal”. 

A Cristofobia

O catolicismo conservador francês recuperou uma inesperada relevância no país nos últimos ano, tanto por efeito de uma campanha própria de polarização social em questões como o casamento homossexual como por consequência dos ataques terroristas, definindo um perímetro social altamente mobilizável eleitoralmente, precisamente o grupo de militantes que garantiu a vitória de Fillon nas primárias. 

La Christianophobie (Cristofobia) é o novo termo que vários grupos católicos adotaram para denunciar o que eles consideram ser uma discriminação elitista dos cristãos, sobretudo face a muçulmanos, e é também a acusação que utilizam contra qualquer político que não os satisfaça. O “L’Observatoire de la Christianophobie”, um blog federado do Riposte Catholique (que entre outras coisas se dedica a defender as relações da igreja católica dos EUA com Steve Bannon), é o seu epicentro operacional.

Marine Le Pen adotou rapidamente o novo jargão, denunciando sempre que possível o “racismo anti-brancos de que a França nunca fala”. O pai de Marine e fundador da Front National (FN), Jean-Marie Le Pen, era tradicionalmente criticado pela igreja católica pelas suas posições anti-imigração, existindo mesmo um veto mais ou menos oficial da igreja à FN, uma linha política que o atual Papa Francisco mantém mas que se revela cada vez mais distante da opinião dos seus fiéis, também dentro do sacerdócio. 

Longe vão os tempos onde a o cardeal Decourtray, arcebispo de Lyon, denunciava em 1985 (quando a FN obteve 11% nas eleições europeias) energicamente que “Nous en avons assez de voir grandir dans notre pays le mépris, la défiance et l’hostilité contra les immigrés. Comment pourrions nous laisser croire qu’un langage et dês théories qui méprisent l’immigré ont la caution de l’Eglise?” (Vemos no nosso país uma expansão do desprezo, da desconfiança e hostilidade contra os imigrantes. Como podemos nós acreditar que uma linguagem e teorias que desprezam imigrantes têm o apoio da Igreja?). 

Ou ainda o cardeal Lustiger, de Paris, que denunciava regularmente as teses “anti-cristãs” da FN bem como o “aviltante pensamento negacionista” sobre as câmaras de gás. Decourtray e Lustiger mantiveram o catolicismo francês longe da FN. Mas os tempos mudaram. 

Um debate organizado por uma universidade de verão de jovens católicos durante a campanha das regionais em 2015, no santuário de Sainte-Baume (Var), onde a convidada de honra era Marion Maréchal-Le Pen (ao contrário de Marine, Marion é católica praticante), fez soar os alarmes sobre a mudança de sensibilidades políticas dentro da própria igreja.

A nova geração de bispos a liderar a Igreja são mais discretos do que os seus antecessores, resistindo a tomadas de posição públicas, e não se mostram incomodados com a proximidade orgânica da FN nos diferentes movimentos que tentam defender os valores “tradicionais” na educação, casamento, família, género ou sexualidade.

O bispo de Var, Dominique Rey, que aprovou o convite a Marion Le Pen, define frequentemente o aborto ou a homossexualidade como “motores do nazismo" no seu blog Le Salon Beige

A resistência católica ao voto na FN tem caído de forma acentuada. Nas eleições departamentais de março de 2015, 16% dos católicos votaram na FN (9% dos quais praticantes regulares). O que parece confirmar a tendência de um apelo jovem da FN que, numa sondagem da OpinionWay em 2013, contava com o voto de 10% dos católicos praticantes abaixo dos 35 anos, e outros 35% tinham pelo menos opiniões positivas sobre Marine Le Pen. 

François Fillon era por isso a pessoa que iria reverter esta tendência. No entanto, com a debacle provocada pelo Le Canard Enchaîné, o resultado agora é absolutamente imprevisível estando definitivamente dependente do desenrolar da campanha eleitoral.  

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