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Entre o riso e o sagrado

Máscaras do Carnaval de Veneza

O Padre e Filósofo Anselmo Borges, num artigo publicado no Diário de Notícias, valoriza a dimensão «catártica» do Carnaval: «O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente normalizar comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.» E lembra que «foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se». Porque o sagrado não sobrevive sem o riso.

 

Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

Padre Anselmo Borges O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!...

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Diário de Notícias - 2006

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Resto dossier

Dossier Carnaval – foto Papangus no Carnaval de Olinda, Pernambuco, Brasil

Dossier Carnaval

Em época de Entrudo e de folia, o Esquerda.net republica o dossier organizado por Luís Leiria, de 2007, dedicado a esta grande festa popular: desde as suas origens até à particularidade dos carnavais de Veneza e do Brasil. Divirta-se!

Entrudo em Tourém, Montalegre - Foto extraída de naturbarroso.net

O Entrudo em Tourém, Montalegre

De entre todas as celebrações cíclicas anuais, o Entrudo ou Carnaval é das que maior riqueza de aspectos apresenta, além de uma grande variedade de elementos e de uma característica complexidade de significações.
Podendo a sua origem ser mais arcaica, é contudo nos velhos ritos romanos de celebração do fim do Inverno e de início de Primavera que deve ser encontrado o seu sentido mais genuíno. Apesar dos seus rituais pagãos, as comemorações do Entrudo ultrapassaram as fronteiras da Europa acompanhando a difusão do cristianismo.

Torres, o mais popular carnaval português

Tudo leva a crer que as facécias de Carnaval em Torres Vedras, tal como hoje o conhecemos, tenham emergido no rescaldo da luta dos republicanos contra a dinastia dos Braganças. A imponência das vestes reais em que se integram elementos de ridículo como o ceptro régio transmudado em corno ou o leque de Sua Sereníssima Alteza, a Rainha, alterado para abano de fogareiro plebeu, parecem credibilizar esta génese. A actual festa do Carnaval de Torres, nascida em 1923 contem já os elementos distintivos que hoje permanecem : os Reis, as matrafonas, o cocotte, os carros alegóricos, os cabeçudos e a espontaneidade.

Atriz Cris Vianna, raínha da bateria da Imperatriz Leopoldinense, 2016 – Foto wikipedia

Carnaval no Brasil: de manifestação popular a empreendimento comercial

Nesta crónica publicada na Folha de S. Paulo em 2005, o poeta Ferreira Gullar lembra como o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi evoluindo da avenida para o sambódromo, tornando-se no que é hoje: as mudanças acabaram por descaracterizar a apresentação das escolas de samba, que hoje está transformado num empreendimento comercial, visando mais o lucro do que a qualidade e a autenticidade dessa manifestação cultural popular, originalmente carioca, hoje nacional.

Escola de samba Imperstriz Leopoldinense

Documentário sobre uma escola de samba do Rio de Janeiro

Os vídeos que se seguem são parte de um documentário sobre a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, "Imperatriz do Carnaval", de Medeiros Schultz. Neles é possível ver a cidade do Rio de Janeiro que se prepara para o Carnaval, o ensaio da bateria da escola de samba, a descrição de cada um dos instrumentos da bateria, e o ensaio final no barracão da escola.

Frevo – foto de cartaeducacao.com.br

O frevo fez cem anos

Carnaval não é só samba. O frevo, uma "combinação de canto, toque e dança", domina ainda o carnaval de alguns estados do Nordeste brasileiro, como Pernambuco e Paraíba. Este ano, o frevo faz cem anos e passou a ser classificado património imaterial da cultura brasileira. Neste artigo da Carta Maior, o jornalista Edson Wander conta a história deste ritmo contagiante e destaca as principais iniciativas destinadas a comemorar o centenário.

Veneza: bailes medievais e mascarados à moda setecentista

Enquanto as madrinhas de bateria se requebram e os trios eléctricos fazem tremer as avenidas no Brasil, bailes medievais e mascarados à moda setecentista comemoram a mesma festa - a quilómetros e séculos de tradição de distância -, em Veneza.
O uso de máscaras em Veneza data dos anos 1200 e representava uma maneira de viver uma "loucura legal", ou seja, escondidos pelo ornamento, os venezianos permitiam-se quase tudo. No começo do século 14, surgiram leis que restringiam as traquinices mascaradas, na tentativa de travar a decadência moral.

Moacyr Scliar (1937-2011) - Foto: Cia das Letras/Divulgação

Os que não gostam de Carnaval

Há exactamente 65 anos, Dorival Caymmi compôs o histórico Samba de Minha Terra, cuja letra é categórica: Quem não gosta de samba/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do pé. Com isto dividiu a humanidade, ou, pelo menos, os brasileiros, em dois grupos: os que gostam e os que não gostam de samba. Que correspondem a dois outros grupos, os que gostam e os que não gostam de Carnaval - protagonistas de uma oposição tão ferrenha que provavelmente os transformará em protagonistas da Batalha Final.

Giovanni Domenico Tiepolo (1727-1804), Scène Carnival, le menuet, 1750, Musée du Louvre, Paris – Foto wikipedia

História do Carnaval

Muitas são as teorias e opiniões sobre a origem do Carnaval. Mas numa ideia todas elas convergem: a transgressão, o corpo, o prazer, a carne, a festa, a dança, a música, a arte, a celebração, a inversão de papéis, as cores e a alegria, fazem parte da matriz genética de uma das manifestações populares mais belas do Mundo.

Máscaras do Carnaval de Veneza

Entre o riso e o sagrado

O Padre e Filósofo Anselmo Borges, num artigo publicado no Diário de Notícias, valoriza a dimensão «catártica» do Carnaval: «O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente normalizar comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.» E lembra que «foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se». Porque o sagrado não sobrevive sem o riso.

Padre Mário de Oliveira – Foto extraída de viriatoteles.com

Deus gosta mais do Carnaval

Numa Quarta-feira de Cinzas, o Padre Mário de Oliveira escreveu no seu diário um texto precioso sobre a forma como a Igreja venera o dia que se segue ao Carnaval: «Mas como é que Deus poderia gostar mais do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas, do que do dia de ontem, Carnaval? Não é Ele o Deus da Alegria e da Festa? Não é Ele o Deus da Vida e dos Vivos? Não é Ele o Deus da Plenitude e da Abundância? Não é Ele o Deus do Excesso e da Ressurreição? (...) A humanidade, cada vez mais liberta da nefasta influência do clero católico e da sua ideologia moralista, também gosta mais do Carnaval, do que da Quarta-feira de cinzas». Para ler devagarinho e aos bocadinhos.

Bloco da Capoeira no circuito Campo Grande, Salvador - Foto wikipedia

“Atrás do trio eléctrico só vai quem pode pagar”

Quando as escolas de samba do Rio de Janeiro começaram a desfilar em recinto fechado (primeiro fechou-se a avenida Presidente Vargas e depois construiu-se o sambódromo, uma espécie de estádio para ver os desfiles), o carnaval de Salvador da Bahia passou a ser o maior carnaval de rua do Brasil. Nessa altura, como cantava Caetano Veloso, atrás do trio eléctrico só não vai quem já morreu." Hoje tudo mudou. Como mostra esta entrevista da Carta Maior com o geógrafo  Clímaco Dias, é preciso dinheiro (e muito) para pular no carnaval de Salvador.

Maria Rita interpretando a canção "Todo Carnaval tem seu fim"

Epílogo: Todo Carnaval Tem Seu Fim

Para encerrar o dossier Carnaval, a canção "Todo o Carnaval Tem Seu Fim", na interpretação da cantora Maria Rita.