Direita junta maioria, governo e presidente

O velho sonho de Sá Carneiro foi concretizado, mas não da forma que o fundador do PSD imaginava. A direita gere o país como um protetorado e cumpre as ordens emanadas por Berlim e Bruxelas: mergulhar a economia na recessão e transferir a riqueza para os credores da banca europeia.
Com Passos Coelho e Paulo Portas no Governo, Cavaco em Belém e Angela Merkel em Berlim, o país afundar-se-á na recessão nos próximos anos. Foto André Kosters.
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O velho sonho de Sá Carneiro foi concretizado, mas não da forma que o fundador do PSD imaginava. A direita gere o país como um protetorado e cumpre as ordens emanadas por Berlim e Bruxelas: mergulhar a economia na recessão e transferir a riqueza para os credores da banca europeia.

A entrada do FMI em Portugal foi um dos temas que dominaram a agenda da campanha presidencial. Cavaco Silva defendia que não se devia levantar a voz aos grandes países, mantendo-se fiel à sua imagem de marca do "bom aluno" de Bruxelas, enquanto Manuel Alegre apelava a uma mobilização nacional para impedir a entrada do FMI. Com o Governo Sócrates enfraquecido pelos protestos populares e dividido no apoio à sua candidatura, Alegre avisava em janeiro que "a Direita portuguesa quer o poder todo e tem uma agenda política que é a destruição do Estado social".

O primeiro passo para essa tomada do poder foi dado por Cavaco Silva, embora fragilizado pela reeleição mais curta de sempre e pelas fortes suspeitas de ter beneficiado de favores de Oliveira e Costa, seu vizinho de férias e ex-secretário de Estado, fundador do BPN e autor da maior fraude financeira conhecida em Portugal, com a ajuda de outros barões do PSD, um dos quais - Dias Loureiro - nomeado Conselheiro de Estado por Cavaco.

Logo a seguir à tomada de posse, Cavaco aproveitou a oportunidade para desferir um golpe no governo de Sócrates, apelando aos jovens para protestarem nas ruas, em vésperas da manifestação marcada para 12 de março e que surpreendeu toda a gente pelo número e abrangência política dos manifestantes.

José Sócrates apresentaria a demissão pouco depois, ao não ver aprovado no Parlamento um novo pacote de austeridade, não sem antes ter recebido os banqueiros em São Bento, que o pressionaram a pedir um programa de assistência financeira ao FMI e à União Europeia, semelhante aos da Grécia e da Irlanda.

O programa da troika foi subscrito por Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas e o PS pagou o preço da sua governação nas legislativas de junho: o PSD obteve a maioria absoluta e formou com o CDS o governo mais abertamente neoliberal desde o 25 de abril.

Nessas eleições, os partidos que se opuseram ao acordo com a troika não foram beneficiados por isso. O Bloco de Esquerda teve um sério revés eleitoral, perdendo metade da bancada e regressando aos números de 2005. No debate aberto sobre os resultados que o partido promoveu na internet, houve muita discussão sobre alguns dos elementos apontados como eventuais causas desse desaire, como o apoio à candidatura de Manuel Alegre, a oportunidade da apresentação duma moção de censura a Sócrates poucas semanas antes de se demitir, ou a recusa em participar numa reunião com a troika, a pedido desta.

Apesar da vitória confortável, Passos Coelho não teve vida fácil logo a seguir às eleições com a sua própria bancada parlamentar. O ex-candidato presidencial Fernando Nobre, a quem tinha sido prometida a presidência do Parlamento em caso de vitória do PSD, não conseguiu juntar os votos necessários e passou por uma nova humilhação - depois de ter sido severamente criticado por muitos apoiantes por fazer o contrário do que dissera nas presidenciais, aceitando um lugar nas listas do PSD - que o obrigou a renunciar ao Parlamento dois dias depois de lá ter entrado.

Logo nos primeiros meses de mandato, Passos Coelho foi ainda criticado por estar a propor medidas que poucos meses antes disse que nunca faria, como cortar o subsídio de férias e natal, nomear para cargos públicos gente fora da órbita dos favores partidários ou aumentar o IVA na restauração e cafés. Graças às contradições e ao efeito das medidas que tem aplicado, a verdade é que apenas seis meses depois de eleito, o primeiro-ministro já é vaiado por populares em muitas das suas deslocações, tal como aconteceu a José Sócrates no seu último mandato.

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O Governo de Passos Coelho assumiu que a sua receita é empobrecer o país e sacrificá-lo à troika na maior recessão desde 1975. As medidas subscritas pelo PSD, CDS e PS cortam salários, pensões e serviços públicos e aumentam o desemprego e a emigração.

O velho sonho de Sá Carneiro foi concretizado, mas não da forma que o fundador do PSD imaginava. A direita gere o país como um protetorado e cumpre as ordens emanadas por Berlim e Bruxelas: mergulhar a economia na recessão e transferir a riqueza para os credores da banca europeia.

Mais de 300 mil pessoas juntaram-se num protesto inédito nas capitais de distrito, convocado nas redes sociais em nome da democracia e contra a precariedade que atinge boa parte dos trabalhadores jovens. A iniciativa teve sequência meses depois no protesto do 15 de outubro e numa iniciativa legislativa popular a apresentar no parlamento no início de 2012.

Só em juros e comissões, o país vai pagar mais de 35 mil milhões, quase metade do valor do empréstimo. E há 12 mil milhões que vão diretamente para a recapitalização da banca, poupando os seus acionistas a arriscar mais capital. Se lhe somarmos a transferência dos seus fundos de pensões para o Estado, a operação resulta num 'duplo jackpot' para os banqueiros, à custa dos sacrifícios dos trabalhadores.

As medidas de austeridade no Orçamento de Estado para 2012 motivaram a convocatória de uma greve geral conjunta da CGTP e UGT, considerada a maior de sempre e que pela primeira vez contou com uma grande manifestação em Lisboa. Para a história fica também a intervenção policial, que reprimiu os piquetes de greve e infiltrou agentes provocadores na manifestação.

Pela primeira vez desde o 25 de abril, o PSD/Madeira não conquistou os votos da maioria dos madeirenses. Depois duma campanha marcada pela descoberta da dimensão do buraco das contas da Região, Jardim conservou por escassa margem a maioria absoluta no parlamento.

Numa entrevista dada em dezembro, o primeiro ministro avisou os jovens que as suas pensões de reforma vão valer metade do que valem hoje e aconselhou os professores desempregados a emigrar para Brasil ou Angola.

A violência policial em Portugal continuou a fazer manchetes em 2011 e pela primeira vez foi desmascarada a utilização de agentes provocadores em manifestações por parte da PSP, no dia da greve geral.

Depois de recolherem 12 mil assinaturas numa petição a contestar a cobrança de dívidas da segurança social que deviam ter sido pagas pelos patrões, os movimentos de precários não pouparam o ministro Pedro Mota Soares, que ameaçou os precários de prisão penhoras e pô-los a pagar num escalão acima do que seria devido.

Cerca de 700 pessoas responderam no dia 17 de dezembro ao apelo para dar início ao trabalho de auditoria cidadã da dívida portuguesa. O objetivo é separar o trigo do joio e identificar os abusos que têm sido cometidos contra os interesses dos contribuintes para alimentar negócios milionários em proveito da banca e das empresas privadas.

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