Está aqui

Carnaval no Brasil: de manifestação popular a empreendimento comercial

Atriz Cris Vianna, raínha da bateria da Imperatriz Leopoldinense, 2016 – Foto wikipedia
Atriz Cris Vianna, raínha da bateria da Imperatriz Leopoldinense, 2016 – Foto wikipedia

Nesta crónica publicada na Folha de S. Paulo em 2005, o poeta Ferreira Gullar lembra como o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi evoluindo da avenida para o sambódromo, tornando-se no que é hoje: as mudanças acabaram por descaracterizar a apresentação das escolas de samba, que hoje está transformado num empreendimento comercial, visando mais o lucro do que a qualidade e a autenticidade dessa manifestação cultural popular, originalmente carioca, hoje nacional.

Tem branco no samba

Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo, 6/02/05

"Sei muito bem que domingo de Carnaval não é dia para ninguém resmungar. Sucede que os resmungos de hoje são, por assim dizer, carnavalescos, de modo que, se não os resmungar agora, perco a ocasião. Não obstante, devo esclarecer que não se trata de um resmungar ocasional, tanto que, já faz três anos, desisti de ir à Marquês de Sapucaí assistir ao desfile das escolas de samba.

E olhem que eu fazia isso desde 1954, quando o desfile era na avenida Presidente Vargas, onde não havia arquibancadas de nenhum tipo, o público ficava de pé nas calçadas, de um lado e outro da avenida, e as escolas desfilavam sobre uma passarela de um metro de altura talvez.

Depois, o desfile passou para a avenida Rio Branco e, mais tarde, para a Antônio Carlos, antes de se transferir definitivamente para a Marquês de Sapucaí.

Ali, nos primeiros anos, as arquibancadas, construídas com tubos de metal e placas de madeira, eram desmontáveis, o que resultava em grandes despesas para a prefeitura. Decidiram então construir arquibancadas em carácter definitivo, cujo projecto foi encomendado ao arquitecto Oscar Niemeyer; nasceu assim a passarela do samba que se tornou conhecida pelo nome não apropriado de Sambódromo.

Naquela época -antes da passarela definitiva-, lá pelos anos 60, nosso grupo de amigos chegava à avenida por volta das 18h e só saía de lá quando terminava o desfile, muitas vezes às 13h do dia seguinte. Foi a época de ouro dos desfile das escolas de samba, que começou com as inovações introduzidas pela Salgueiro nas fantasias e nos carros alegóricos, pondo fim às figuras patéticas de condes e marqueses a sambar com chapéus de pluma empapados de suor.

As escolas cresciam de tamanho com a adesão da classe média da zona sul do Rio. Desfilando com 4.000, 5.000 figurantes, o grande risco era ‘atravessar' o samba e perder pontos no quesito harmonia. Para resolver esse problema, juntou-se ao desfile um carro de som com alto-falantes poderosos, onde iam o ‘puxador' do samba e dois tocadores de cavaquinho; melhorou, mas não resolveu satisfatoriamente o problema.

A solução surgiria com a construção do Sambódromo, mas a emenda saiu pior que o soneto: instalou-se uma rede de alto-falantes ao longo da passarela que agora transmite a voz do ‘puxador' e o som dos instrumentos numa altura insuportável. Ao contrário de antigamente, quando se ouvia o samba enquanto a escola estava passando e, ao chegar ao final da sua exibição, nossos ouvidos descansavam até começar o samba da escola seguinte, agora você tem que aguentar dez ou 12 horas de cantoria repetitiva em som altíssimo, sem nenhuma trégua; verdadeira tortura para o espectador, particularmente os de certa idade, como eu...

Mas isso é o de menos. Muito piores foram as mudanças que terminaram por descaracterizar a apresentação das escolas de samba, hoje transformadas em empreendimento comercial, visando mais o lucro do que a qualidade e a autenticidade dessa manifestação cultural popular, originalmente carioca, hoje nacional.

A necessidade de limitar a duração do desfile levou à aceleração rítmica do samba de enredo, que hoje de samba tem muito pouco. Por isso mesmo costumo dizer, em tom de brincadeira, que as escolas de samba deveriam passar a se chamar ‘escolas de marcha'. Entregue a realização do desfile à Liga das Escolas de Samba, dominada por ‘bicheiros', muitos deles ligados ao tráfico de drogas, o interesse económico se sobrepôs a tudo, desde a escolha do enredo e do samba até as fantasias e alegorias, que já quase nada apresentam de novo, pois se tornaram meras cópias de tudo o que foi criado há duas décadas pelo menos.

Em razão de tudo isso, os preços dos ingressos, de tão altos, estão fora do alcance dos moradores dos morros e subúrbios cariocas, as comunidades que deram origens às escolas de samba e às quais elas permanecem ligadas. Os turistas estrangeiros compram, em seu país de origem, um kit que inclui, além de passagem e hospedagem, uma fantasia e o direito de desfilar numa escola de sua preferência, mesmo que não saibam dançar nem cantar samba.

Não falo dos camarotes, cujo preço para os dias do desfile equivale ao de um pequeno apartamento. Hoje, são comprados por grandes empresas que os usam para se promoverem.

Por isso mesmo o público assiste a um desfile que, a cada dia, inclui mais gente de classe média e turistas estrangeiros, uma vez que, nas grandes escolas, o preço das fantasias exclui a participação do povão. A tradicional ala das baianas só desfila porque a fantasia é paga pela escola. Como diz um amigo meu, chegará o dia em que o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro terá a seguinte composição: brancos desfilando, brancos assistindo e crioulos na bateria... Estes talvez ainda ali permaneçam por algum tempo por ser necessário manter alguma coisa da autêntica escola de samba, de saudosa memória. Mas não se sabe até quando, porque o que já tem de japonês, holandês e sueco aprendendo a tocar tamborim, agogô e reco-reco não está no gibi.

Mas isso é bom, dirá o leitor mais aberto a tais mudanças, para quem estes meus resmungos de hoje não são carnavalescos, mas apenas saudosistas." 

(...)

Resto dossier

Dossier Carnaval – foto Papangus no Carnaval de Olinda, Pernambuco, Brasil

Dossier Carnaval

Em época de Entrudo e de folia, o Esquerda.net republica o dossier organizado por Luís Leiria, de 2007, dedicado a esta grande festa popular: desde as suas origens até à particularidade dos carnavais de Veneza e do Brasil. Divirta-se!

Entrudo em Tourém, Montalegre - Foto extraída de naturbarroso.net

O Entrudo em Tourém, Montalegre

De entre todas as celebrações cíclicas anuais, o Entrudo ou Carnaval é das que maior riqueza de aspectos apresenta, além de uma grande variedade de elementos e de uma característica complexidade de significações.
Podendo a sua origem ser mais arcaica, é contudo nos velhos ritos romanos de celebração do fim do Inverno e de início de Primavera que deve ser encontrado o seu sentido mais genuíno. Apesar dos seus rituais pagãos, as comemorações do Entrudo ultrapassaram as fronteiras da Europa acompanhando a difusão do cristianismo.

Torres, o mais popular carnaval português

Tudo leva a crer que as facécias de Carnaval em Torres Vedras, tal como hoje o conhecemos, tenham emergido no rescaldo da luta dos republicanos contra a dinastia dos Braganças. A imponência das vestes reais em que se integram elementos de ridículo como o ceptro régio transmudado em corno ou o leque de Sua Sereníssima Alteza, a Rainha, alterado para abano de fogareiro plebeu, parecem credibilizar esta génese. A actual festa do Carnaval de Torres, nascida em 1923 contem já os elementos distintivos que hoje permanecem : os Reis, as matrafonas, o cocotte, os carros alegóricos, os cabeçudos e a espontaneidade.

Atriz Cris Vianna, raínha da bateria da Imperatriz Leopoldinense, 2016 – Foto wikipedia

Carnaval no Brasil: de manifestação popular a empreendimento comercial

Nesta crónica publicada na Folha de S. Paulo em 2005, o poeta Ferreira Gullar lembra como o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi evoluindo da avenida para o sambódromo, tornando-se no que é hoje: as mudanças acabaram por descaracterizar a apresentação das escolas de samba, que hoje está transformado num empreendimento comercial, visando mais o lucro do que a qualidade e a autenticidade dessa manifestação cultural popular, originalmente carioca, hoje nacional.

Escola de samba Imperstriz Leopoldinense

Documentário sobre uma escola de samba do Rio de Janeiro

Os vídeos que se seguem são parte de um documentário sobre a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, "Imperatriz do Carnaval", de Medeiros Schultz. Neles é possível ver a cidade do Rio de Janeiro que se prepara para o Carnaval, o ensaio da bateria da escola de samba, a descrição de cada um dos instrumentos da bateria, e o ensaio final no barracão da escola.

Frevo – foto de cartaeducacao.com.br

O frevo fez cem anos

Carnaval não é só samba. O frevo, uma "combinação de canto, toque e dança", domina ainda o carnaval de alguns estados do Nordeste brasileiro, como Pernambuco e Paraíba. Este ano, o frevo faz cem anos e passou a ser classificado património imaterial da cultura brasileira. Neste artigo da Carta Maior, o jornalista Edson Wander conta a história deste ritmo contagiante e destaca as principais iniciativas destinadas a comemorar o centenário.

Veneza: bailes medievais e mascarados à moda setecentista

Enquanto as madrinhas de bateria se requebram e os trios eléctricos fazem tremer as avenidas no Brasil, bailes medievais e mascarados à moda setecentista comemoram a mesma festa - a quilómetros e séculos de tradição de distância -, em Veneza.
O uso de máscaras em Veneza data dos anos 1200 e representava uma maneira de viver uma "loucura legal", ou seja, escondidos pelo ornamento, os venezianos permitiam-se quase tudo. No começo do século 14, surgiram leis que restringiam as traquinices mascaradas, na tentativa de travar a decadência moral.

Moacyr Scliar (1937-2011) - Foto: Cia das Letras/Divulgação

Os que não gostam de Carnaval

Há exactamente 65 anos, Dorival Caymmi compôs o histórico Samba de Minha Terra, cuja letra é categórica: Quem não gosta de samba/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do pé. Com isto dividiu a humanidade, ou, pelo menos, os brasileiros, em dois grupos: os que gostam e os que não gostam de samba. Que correspondem a dois outros grupos, os que gostam e os que não gostam de Carnaval - protagonistas de uma oposição tão ferrenha que provavelmente os transformará em protagonistas da Batalha Final.

Giovanni Domenico Tiepolo (1727-1804), Scène Carnival, le menuet, 1750, Musée du Louvre, Paris – Foto wikipedia

História do Carnaval

Muitas são as teorias e opiniões sobre a origem do Carnaval. Mas numa ideia todas elas convergem: a transgressão, o corpo, o prazer, a carne, a festa, a dança, a música, a arte, a celebração, a inversão de papéis, as cores e a alegria, fazem parte da matriz genética de uma das manifestações populares mais belas do Mundo.

Máscaras do Carnaval de Veneza

Entre o riso e o sagrado

O Padre e Filósofo Anselmo Borges, num artigo publicado no Diário de Notícias, valoriza a dimensão «catártica» do Carnaval: «O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente normalizar comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.» E lembra que «foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se». Porque o sagrado não sobrevive sem o riso.

Padre Mário de Oliveira – Foto extraída de viriatoteles.com

Deus gosta mais do Carnaval

Numa Quarta-feira de Cinzas, o Padre Mário de Oliveira escreveu no seu diário um texto precioso sobre a forma como a Igreja venera o dia que se segue ao Carnaval: «Mas como é que Deus poderia gostar mais do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas, do que do dia de ontem, Carnaval? Não é Ele o Deus da Alegria e da Festa? Não é Ele o Deus da Vida e dos Vivos? Não é Ele o Deus da Plenitude e da Abundância? Não é Ele o Deus do Excesso e da Ressurreição? (...) A humanidade, cada vez mais liberta da nefasta influência do clero católico e da sua ideologia moralista, também gosta mais do Carnaval, do que da Quarta-feira de cinzas». Para ler devagarinho e aos bocadinhos.

Bloco da Capoeira no circuito Campo Grande, Salvador - Foto wikipedia

“Atrás do trio eléctrico só vai quem pode pagar”

Quando as escolas de samba do Rio de Janeiro começaram a desfilar em recinto fechado (primeiro fechou-se a avenida Presidente Vargas e depois construiu-se o sambódromo, uma espécie de estádio para ver os desfiles), o carnaval de Salvador da Bahia passou a ser o maior carnaval de rua do Brasil. Nessa altura, como cantava Caetano Veloso, atrás do trio eléctrico só não vai quem já morreu." Hoje tudo mudou. Como mostra esta entrevista da Carta Maior com o geógrafo  Clímaco Dias, é preciso dinheiro (e muito) para pular no carnaval de Salvador.

Maria Rita interpretando a canção "Todo Carnaval tem seu fim"

Epílogo: Todo Carnaval Tem Seu Fim

Para encerrar o dossier Carnaval, a canção "Todo o Carnaval Tem Seu Fim", na interpretação da cantora Maria Rita.