Está aqui

2016, o ano mais quente de sempre que já não é notícia

Dos 17 anos mais quentes desde que há registos, só um não pertenceu ao século XXI. Alterações climáticas são a constante mais evidente num tempo de instabilidade fortemente associada à crescente degradação material do planeta. Por João Camargo.
Urso polar num iceberg a derreter.
Urso polar num iceberg a derreter. Foto de Gerard Van der Leun/Flickr.

O ano que termina, 2016, é o ano mais quente desde que há registos, embora isso dificilmente seja já novidade, já que os dois anos anteriores bateram exactamente esse mesmo recorde. As alterações climáticas são a constante mais evidente num tempo de instabilidade social, económica e política fortemente associadas à crescente degradação material do planeta. Em 2016 terminou ainda uma sequência sem precedentes de meses consecutivos de recordes históricos de temperaturas: entre Maio de 2015 e Agosto de 2016 todos os meses foram os mais quentes alguma vez registados, com o último a ser o mês mais quente de sempre. Dos 17 anos mais quentes desde que há registos, só um – 1998 – não pertenceu ao século XXI.

As consequências físicas e climáticas deste pico de temperatura sentem-se um pouco por todo o planeta:

  • Na Austrália ocorreu o maior branqueamento de corais alguma vez observado, com 93% da Grande Barreira de Coral na Austrália a aproximar-se da morte no verão no Hemisfério Sul, devido às variações da temperatura do Oceano Pacífico;
  • Nos Estados Unidos quadruplicou o número e a duração de clusters de tornados e o aumento do número de tornados por cluster, isto é, há mais tornados, estão mais concentrados e duram mais tempo,
  • Houve uma quebra acentuada das chuvas em África e em particular na África Subsahariana: na Etiópia há 10 milhões ameaçados pela fome e mesmo no Lesoto, país em altitude e com precipitação acentuada, a seca ameaça 700 mil pessoas.

Um dos sinais mais preocupantes do agravamento das alterações climáticas é a degradação das zonas polares: no mês passado, a extensão de gelo no Ártico foi a mais pequena desde que se começaram a registar as imagens por satélite em 1979. A perda de gelo no Ártico é de cerca de 40% quando comparado com o final da década de 70 e o início dos anos 80. Em resposta a esta perda de gelo, os ecossistemas oceânicos próximos estão a sofrer importantes impactos, nomeadamente na produção de algas, que está 50% acima do que era em 1997, o que altera toda a cadeia alimentar do Ártico. Pela segunda vez, abriu-se a Passagem do Nordeste no Pólo Norte, e o cruzeiro de luxo Crystal Serenity atravessou-a. Em Dezembro a onda de calor no Pólo Norte colocou as temperaturas 20 a 30ºC acima daquilo que deveria estar nesta altura do ano (quando não há sol a incidir sobre o Pólo), o que faz com que mesmo no inverno o gelo continue a derreter.

A perda de gelo no Ártico é de cerca de 40% quando comparado com o final da década de 70 e o início dos anos 80. Em resposta a esta perda de gelo, os ecossistemas oceânicos próximos estão a sofrer importantes impactos, nomeadamente na produção de algas, que está 50% acima do que era em 1997, o que altera toda a cadeia alimentar do Ártico.

Ultrapassando-se todas as projecções prévias, 12% do gelo da Gronelândia está a derreter, com a projecção de um impacto ainda superior sobre a subida do nível médio do mar.

O elefante escondido das alterações climáticas, a Antártida, registou em Dezembro uma perda de 3,84 milhões de quilómetros quadrados comparados com a média dos 30 anos entre 1981 e 2010. Perdeu um área de gelo do tamanho da Índia.

2016 foi o primeiro ano passado todo acima das 400 partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera, concentração nunca registada nos últimos 800 mil anos. Além disso, em Fevereiro e Março a temperatura média ultrapassou a subida de 1,5ºC prevista no acordo de Paris. Com o efeito combinado das alterações climáticas e do El Niño, em Fevereiro a temperatura média esteve 1,63ºC acima da era pré-industrial e em Março a temperatura média esteve 1,54ºC acima da era pré-industrial.

Em termos de emissões de dióxido de carbono, 2016 teve um aumento de emissões de 0,2%, voltando a subir em relação a 2015, em que as emissões estiveram estacionárias. É uma redução importante no aumento das emissões, quando comparamos com a subida cavalgante de 3,5% ao ano das emissões na década 2000-2010 e de 1,8% entre 2006 e 2015. Por outro lado houve uma explosão nas emissões de metano, identificada em particular desde 2007 e com acelerações em 2014 e 2015, que põe em perigo os esforços para reduzir as emissões de dióxido de carbono. As emissões de metano para a atmosfera têm fontes variadas, mas um estudo publicado na Nature revela que a indústria dos combustíveis fósseis subavaliou a sua produção de metano entre 60% e 110%. 

Cientistas da Universidade de Cornell já tinham feito uma avaliação das perdas de metano para a atmosfera na actividade de produção de gás de xisto por fracking, assim como da produção petrolífera e da produção de carvão e concluíram que houve uma gigantesca omissão por parte das petrolíferas. O boom do gás dos Estados Unidos e do Canadá, assim como a expansão das minas de carvão da China serão dos principais responsáveis pelo boom das emissões de metano, acompanhando a produção pecuária intensiva e a produção de arroz. Em 2016 também se quantificou pela primeira vez a produção de metano a partir de barragens e os números são surpreendentes, colocando um não definitivo ao estatuto da energia hidroeléctrica como “renovável”. A concentração de metano na atmosfera em 2016 é de 1830 partes por bilião (mil milhões), quando na era pré-industrial era de 722 partes por bilião.

A 4 de Novembro entrou em vigor o Acordo de Paris, a dias da realização da COP-22 de Marrakesh e das eleições dos Estados Unidos. Tal foi possível apenas devido ao forte incentivo dado pela ratificação conjunta dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo – Estados Unidos e China. A China, seguindo o exemplo de 2015, voltou a reduzir as suas emissões em 2016.

Os Estados Unidos são o maior emissor histórico de gases com efeito de estufa, isto é, o país com maior responsabilidade no mundo sobre as alterações climáticas, e são actualmente também o maior produtor mundial de combustíveis fósseis. A Rússia é o maior emissor até ao momento a não ter ratificado o Acordo de Paris

Os Estados Unidos são um país central para a questão das alterações climáticas: são o maior emissor histórico de gases com efeito de estufa, isto é, o país com maior responsabilidade no mundo sobre as alterações climáticas, e são actualmente também o maior produtor mundial de combustíveis fósseis, em particular por causa revolução do fracking. A Rússia é o maior emissor até ao momento a não ter ratificado o Acordo de Paris. Antes mesmo da Cimeira do Clima foi assinado em 2016 um acordo para a redução das emissões de gases com efeito de estufa  do tráfego aéreo internacional (não contemplado, em conjunto com o comércio marítimo e as forças militares no Acordo de Paris), que volta a insistir no falhado comércio de créditos de carbono, e um acordo para eliminar progressivamente as emissões de outro gás com efeito de estufa – os hidrofluorocarbonetos – principalmente presente nos ares condicionados.

Poucos dias depois do início da Cimeira, Donald Trump, assumido negacionista das alterações climáticas, foi eleito presidente dos Estados Unidos. A sua promessa de rasgar o Acordo de Paris, feita durante a campanha eleitoral, passou a ser uma ameaça permanente sobre o diálogo político das alterações climáticas. As dúvidas foram-se dissipando com as escolhas ministeriais do novo presidente dos Estados Unidos: escolheu Myron Ebell, negacionista militante das alterações climáticas como responsável pela transição do Departamento de Protecção Ambiental (EPA), nomeou Rick Perry, outro negacionista e ex-Governador do Texas para liderar o Departamento de Energia (que o mesmo Perry assumiu querer fechar nas presidenciais de 2012) e a cereja no topo do bolo: Rex Tillerson como Secretário de Estado (Ministro dos Negócios Estrangeiros e responsável pela política externa dos EUA).

Tillerson era até à data o presidente da ExxonMobil, a maior petrolífera privada do mundo. 2016 foi o ano em que vários procuradores de vários estados dos Estados Unidos aceitaram uma queixa colectiva de centenas de cidadãos dos EUA contra a ExxonMobil por ter conhecimento das alterações climáticas pelo menos desde 1969 e por ter financiado directamente grupos negacionistas para desmentirem cientistas e bloquearem as respostas políticas necessárias ao combate às alterações climáticas. A ligação directa de Tillerson a Vladimir Putin, a intervenção russa na campanha eleitoral americana e uma estratégia conjunta EUA -Federação Russa para a exploração hidrocarbonetos no Ártico parecem ser o motivo que levou o presidente cessante Barack Obama (que teve uma acção mais que oportunista sobre a questão das alterações climáticas, incentivando acordos internacionais enquanto expandia a produção de combustíveis fósseis no país) a anunciar a interdição da exploração de gás e petróleo no Ártico.

A vitória temporária dos “protectores da água” – que desde Abril estiveram acampados em Standing Rock para travar o North Dakota Access Pipeline – foi conseguir que Obama recusasse a autorização para uma empresa privada (propriedade em parte de Donald Trump e de Rick Perry) continuar a construção de mais um oleoduto dentro de uma reserva índia. Uma batalha de desobediência civil com poucos precedentes nos últimos anos, protagonizada pelas comunidades indígenas dos Estados Unidos, representou mais um importante avanço no bloqueio de infraestruturas que garantem a continuação do modelo de combustíveis fósseis.

A vitória temporária dos ativistas que desde Abril estiveram acampados em Standing Rock para travar o North Dakota Access Pipeline foi conseguir que Obama recusasse a autorização para uma empresa privada construir mais um oleoduto numa reserva índia. Uma batalha de desobediência civil com poucos precedentes nos últimos anos, protagonizada pelas comunidades indígenas dos Estados Unidos.

No final de 2015 Obama tinha suspenso a construção de outro oleoduto – o Keystone XL das areias betuminosas do Canadá, atravessando todo o continente americano até chegar ao Golfo do México – que Trump prometeu ressuscitar. Para isso conta com o apoio do muito popular e igualmente oportunista primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau que, apesar de se reivindicar de ser engajado na luta contra as alterações climáticas, apoia vários projectos de combustíveis fósseis relacionados com a catastrófica exploração das areias betuminosas na Alberta. O oleoduto Kinder Morgan, aprovado recentemente pelo primeiro-ministro, será um dos exemplos mais acabados desta política de facto consumado e de instalação durante as próximas décadas da indústria petrolífera, e que maior resistência social irá provocar.

Desde as eleições nos Estados Unidos, a intimidação a cientistas climáticos tornou-se uma constante, com o presidente-eleito a ameaçar fechar o departamento de alterações climáticas da NASA, um dos maiores centros de investigação na matéria no mundo, e a ameaçar deixar de recolher os dados climáticos com os satélites americanos. Mesmo dentro dos Estados Unidos, existem já declarações de insubordinação institucional em relação ao novo presidente. A Califórnia e Nova Iorque já afirmaram que vão manter uma política de cortes de emissões gases com efeito de estufa, independentemente da política federal (que Trump já anunciou que será de revitalização de todas as indústrias mais sujas, com o carvão à cabeça) e o governador da Califórnia, Jerry Brown, já anunciou que se Trump desligar os satélites para recolher os dados climáticos, a Califórnia irá lançar os seus próprios satélites.

Na Europa, a retórica das petrolíferas continua a fazer caminho e a União Energética tenta consolidar o gás como energia futura, impedindo a rápida transição para as renováveis através da construção de infraestruturas, como gasodutos, terminais LNG. Os conflitos militares no Norte de África e no Médio Oriente procuram abrir caminhos para mais combustíveis fósseis importados e espalhados pela Europa, para poder reduzir as importações da Rússia. As emissões desprezadas e escondidas de metano são uma razão mais do que suficiente para abandonar a ideia criminosa que é a transição para o gás.

Paradoxalmente, é a acção dos estados centrais e das organizações regionais como a União Europeia que ainda garante sobrevivência da indústria dos combustíveis fósseis. Em 2016, investidores responsáveis pela gestão de 5,2 biliões de dólares (empresas financeiras, fundos de pensões, governos locais e regionais) concordaram em desinvestir dos combustíveis fósseis. Em 2015 foram investidos 288 mil milhões de euros em novos projectos de renováveis, 70% de todo o dinheiro investido na produção de energia, suplantando o investimento combinado de fósseis e nuclear, o que permitiu instalar em média 500 mil painéis solares por dia.

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Dirigente do Bloco de Esquerda e deputado municipal na Amadora

Resto dossier

Os temas de 2016

Neste ano em que todos os perigos se adensaram no mundo e em que a Europa falhou no principal, Portugal conseguiu provar que a política de austeridade não é inevitável e deu esperança na luta pela mudança social em defesa dos mais pobres e do trabalho. Veja aqui uma seleção de alguns temas que marcaram o ano de 2016 em Portugal e no mundo.

Um ano de acordo à esquerda

O ano ficou marcado pela reversão de medidas do anterior governo PSD/CDS e pela recuperação de rendimentos. O acordo que viabiliza o atual executivo do PS veio provar que era possível outro caminho. É preciso ir ainda mais longe, nomeadamente no combate à precariedade, e não aceitar recuos na defesa dos direitos.

Donald Trump na série Simpsons

Donald Trump, de farsa a ameaça global

A eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA é um elemento central no movimento de extrema-direita internacional.

Urso polar num iceberg a derreter.

2016, o ano mais quente de sempre que já não é notícia

Dos 17 anos mais quentes desde que há registos, só um não pertenceu ao século XXI. Alterações climáticas são a constante mais evidente num tempo de instabilidade fortemente associada à crescente degradação material do planeta. Por João Camargo.

Presidenciais: a eleição de Marcelo e o resultado histórico de Marisa

Com a maior abstenção de sempre em eleições sem recandidaturas presidenciais, a vitória de Marcelo acabou por se traduzir na pior votação do atual Presidente, comparando com os seus antecessores. Com mais de 10% dos votos, Marisa Matias conseguiu superar o melhor resultado da área do Bloco e tornou-se a mulher mais votada de sempre para a Presidência.

 

X Convenção do Bloco

Convenção do Bloco com mira apontada às ameaças de Bruxelas

A X Convenção do Bloco foi a primeira realizada num contexto político em que o Bloco integra a maioria parlamentar que afastou a direita do poder. As principais críticas foram dirigidas a Bruxelas e às ameaças de sanções a Portugal.

As principais vítimas desta deriva punitiva são os países do sul, vergados a políticas de austeridade extremas que provocaram uma regressão social devastadora.

Sanções: O rolo compressor da chantagem política

Quando a Comissão Europeia (CE) “aprovou” o Orçamento do Estado de Portugal para 2017, embora com avisos de que iria manter uma vigilância apertada sobre o mesmo, já tinha deixado um historial de ameaças sobre imposições de sanções que acabaram por se tornar num dos assunto do ano.

Golpe e contragolpe na Turquia

A madrugada de 15 de julho ficou marcada pela tentativa de golpe militar na Turquia. Mas as tropas fieis ao presidente Erdogan conseguiram travar o golpe. Em seguida, Erdogan declarou o estado de emergência e deu início a uma caça às bruxas que ainda decorre, com o objetivo de consolidar o poder absoluto no país.

11 dos 17 ativistas angolanos que foram julgados.

Repressão em Angola

Os 17 jovens ativistas angolanos foram acusados de “atos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” e condenados a penas entre os dois e os oito anos, apesar de depois terem recebido uma amnistia. Eduardo dos Santos foi reeleito presidente do MPLA por 99.6% dos votos e prepara sucessão.

 Estima-se que quatro milhões de sírios tenham fugido do país. Foto Obvius

Os refugiados e os interesses que os aprisionam

O ano que agora termina continuou a ser marcado pela crise dos refugiados, vítimas de um complexo de jogo de interesses que continuou a desprezar os Direitos Humanos daqueles que fogem do terrorismo e da guerra.

Durão Barroso

Durão Barroso contratado pela Goldman Sachs

As aventuras e desventuras de Durão não se esgotaram na Comissão Europeia. Menos de dois anos depois de terminar o seu mandato foi contratado pelo banco de investimento mais agressivo do Mundo, com quem já tinha uma longa parceria.

Logotipos da Monsanto e da Bayer.

Bayer compra Monsanto

Farmacêutica comprou multinacional produtora de sementes geneticamente modificadas e de pesticidas, entre os quais o glifosato. Grupo resultante será o maior do ramo e representará um desastre para a nutrição global.

A seleção portuguesa soube interpretar o realismo tático definido por Fernando Santos. Foto Fragmentos

Euro 2016: Os méritos de um campeão improvável

Apesar de ter vários jogadores de craveira internacional, Portugal acabou por ser um campeão europeu improvável, sobretudo se tivermos em linha de conta que jogou a final contra a França, país organizador do Europeu. Por Pedro Ferreira.

Manifestações em São Paulo contra Michel Temer. Foto de Sebastiao Moreira/EPA/Lusa

Brasil: 2016 marcou o fim da hegemonia do PT

O ano marcado pelo afastamento de Dilma Rousseff e pelo fim dos governos hegemonizados pelo PT termina com mais incógnitas que certezas. Por Luis Leiria, no Rio de Janeiro.

Adicionar novo comentário