O nosso leitor Armando
Soares, conta-nos a revolta da sua esposa: "com a mesma idade que eu (60
anos) começou a trabalhar antes dos 10 anos, a descontar aos 14, sempre
trabalhou, sempre descontou, até que um dia tinha ela 50 anos, o patrão
resolveu fechar a empresa (...) Terminou o desemprego próximo dos 55 anos, meteu
reforma antecipada, ganha actualmente 186 euros, trabalhou uma vida 35 anos,
qualquer rendimento é maior do que o ordenado dela (...)".
Publicamos ainda opiniões de Luís Peres
e José Lopes.
Reforma de 186 euros,
depois de trabalhar 35 anos
Armando Soares
É a primeira vez que participo, li parte da primeira pagina e
lembrei-me de escrever estas frases.
Estou reformado, não me sinto mal com o meu salário, fui
operário todo o meu tempo de trabalho activo (comecei a trabalhar com 10 anos
mas a descontar a partir dos 14, estou com uma reforma de 6oo e poucos euros,
tenho 59 anos), atá aqui tudo normal, operário normal; ordenado normal,
situação normal, sou casado,,,,
Começa agora a não ser normal...
A minha esposa, com a mesma idade que eu (60 anos) começou a
trabalhar antes dos 10 anos, começou a descontar aos 14, sempre trabalhou,
sempre descontou, até que um dia tinha ela 50 anos, o patrão resolveu fechar a
empresa (carteiras de senhora, malas), para ficar o filho com a empresa, foi
tudo tratado em tribunal, com o devido acompanhamento do sindicato, sentença
lida indemnização aos trabalhadores, mas como o patrão passou tudo para o nome
do filho, não tinha nada, não pagou nada, seguiu-se o desemprego (entretanto
ainda trabalhou num outro local mas a idade já era elevada veio embora no fim
do contrato).
Terminou o desemprego próximo dos 55 anos, meteu reforma
antecipada, ganha actualmente 186 euros, trabalhou uma vida 35 anos, qualquer
rendimento é maior do que o ordenado dela---revoltada roubada é o que ela
sente.
Obrigado. É um desabafo do marido.
Armando Soares
O que me dói
Luís Peres
É obvio que a "bolha" tinha de rebentar um dia.
Entretanto, foi um fartar vilanagem.
O que me dói, a mim e a muitos milhões que vivemos do nosso
mísero ordenado ou parca reforma, o que me dói, dizia, é que possa haver
impunemente quem possa vir para a reforma após cinco anos de trabalho e receba
uma "compensação" de largos milhares pelo trabalho magnífico
desenvolvido em prol de si próprio e seus "compadres"! E o valor da
reforma mensal muito, mas muito, antes dos 65 anos?
As maiores Instituições Financeiras Mundiais vão à falência,
quando ontem apresentavam milhões de lucro. O maior Banco Nacional anda
"aos papéis" e ainda ontem era uma Instituição altamente saudável que
distribuía lucros, pagava fortunas aos seus Administradores e ostentava luxos
por tudo quanto era sítio!
Como tudo muda de um dia para o outro?
Quem pede responsabilidades a toda esta "gente"
que por todo o Mundo fez o que quis e ainda lhe sobrou tempo?
Luís Peres
A herança de George
W. Bush
José Lopes (Ovar)
Afinal que herança deixa Bush, não só aos seus compatriotas,
mas aos povos do mundo, que vêem reflectir-se nas suas vidas, por mais anónimas
que sejam as consequências do desmoronar de um sistema económico, que levou ao
colapso dos mercados financeiros, aos quais os vários governos tentam salvar
injectando fundos para salvar o capital, cujos custos e sacrifícios continuarão
a recair sobre os trabalhadores e as famílias.
W. Bush, como o 43º presidente a sair de cena, deixa o seu
país, que quis apresentar ao mundo, como a potência "guarda-chuva" dos povos,
com pelos menos dois cenários de guerra, cujo desfecho ainda são imprevisíveis,
mas cujos custos humanos e económicos são bem evidentes.
Só no Iraque, desde a sua invasão, sem mandato das Nações
Unidas, os custos por mês rondam os 12 milhões de dólares, enquanto o povo a
quem foi prometido salvar das "garras" do tirano e das "armas de destruição
massiva" do regime de Saddam Hussein, contam-se por baixo, cerca de 90 mil
civis iraquianos mortos.
Trata-se de uma guerra com cheiro a petróleo, que
nomeadamente aos americanos, também já custou uma factura cara pela aventura de
Bush, traduzida em perto dos 4200 militares mortos neste conflito em que todos
os dias se contam os mortos e estropiados.
Todo este sacrifício para que o mundo também foi arrastado,
ainda que com surpreendentes movimentos anti-guerra, surge como resposta aos
atentados terroristas de 11 de Setembro que naturalmente mais enraiveceu e
manchou, com a profunda humilhação que representou para a potência americana e
Bush, filho, cuja resposta ao terrorismo que continua a ser um duro osso de
roer por exemplo no Afeganistão, a seu jeito, foi a de "dente por dente".
Herança guerreira deixada ao futuro presidente.
Mas se o carácter obstinado de Bush em casa, para além do
seu défice intelectual, deu origem a outros pesadelos, como o desemprego a
ultrapassar os 6% e o fracasso das políticas económicas com inevitáveis
consequências sociais. No mundo, deixou mais ódios, desde logo na América
Latina, que rejeita justamente ser o "quintal" dos EUA, enquanto a Guerra Fria
se volta a colocar no instável tabuleiro de xadrez, em que o orgulho russo foi
ferido pelo inquilino da Casa Branca, com imprevisíveis efeitos inquietantes
para os povos na área, que estão a sofrer, tanto no silêncio como na vida e na
carne, a repressão mais truculenta e tirana. Assim aconteceu recentemente
perante a cobardia do mundo ocidental, que se curvou e silenciou indignamente,
tal como continua a fazer relativamente ao comportamento da China no Tibete e
outras regiões, como a que se abateu sobre a Geórgia, que confiou e se apoiou
no "amigo" americano para esmagar sentimentos nacionalistas internos e acabou
por deixar o seu povo sujeito á humilhação e ocupação, espezinhado pelo vizinho
russo enraivecido, que ambiciona recolocar as suas "peças" no tabuleiro do xadrez
ético e rico da região, numa posição mais confortável ao domínio e controlo dos
seus interesses. Ainda que reine a tendência e ambição separatista, nuns casos
fomentada pelos russos e noutros pela pretensão geoestratégica de Washington no
Leste europeu.
São pois, heranças muito pesadas e perigosas, as deixadas ao
mundo por Bush.
21/10/2008
José Lopes (Ovar)
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