Sócrates-kamikaze, precipitando
legislativas, entregaria o governo de bandeja... punido pelos mesmos
sectores que ambicionam a estabilidade a qualquer custo.
Artigo de
Luís Fazenda
1. Tem sido apontado o
artificialismo das querelas entre Cavaco Silva e José Sócrates.
Deve compreender-se que no vaivém dos vetos presidenciais, em
matéria de direitos civis, autonomias regionais, assuntos militares
e de segurança, confrontam-se protecções eleitorais do presidente
e do primeiro-ministro. Ambos são candidatos a eleições, em
continuidade e disponibilidade exclusiva. Falam para eleitorados
potenciais. Na história da democracia portuguesa pós-Abril, nem a
cena é inédita, basta recordar os mandatos presidenciais, nem
prenuncia qualquer conflito institucional. A imprensa ávida de tomar
a sub-frase e a picardia como "disputa de poder", pode comparar a
"elegância" das relações entre presidentes e
primeiros-ministros, só idos, Eanes e Soares, Soares e Cavaco Silva.
A luta política não é mesmo um redondo vocábulo.
Ao que conta, Cavaco Silva e Sócrates
convergem nas regras das finanças públicas, na legislação
económica e social, na política interna europeia e na política
externa pró-NATO, ou seja, no essencial da governação.
As guerrinhas das "escutas" e das
propaladas "intrigas", são efeitos pacóvios de políticos
medíocres. A "má moeda" anda por muito lado nestes dias...
Simplesmente, a cooperação
estratégica prevista por Cavaco Silva não é uma coabitação.
Chega-lhes um ponto de encontro.
2. Chama-se a atenção para o
óbvio. Cavaco Silva tem eleições próximas, a um ano. Ganhou o seu
primeiro mandato à tangente. Quer confederar a direita e somar votos
ao centro. Os seus (dele) apelos ao compromisso podem cheirar a união
nacional mas é ao bloco central que acende a vela. Com Papa por cá.
Mas pergunta-se: e Sócrates não quer (ele) eleições antecipadas
na primeira oportunidade que os prazos constitucionais lhe permitam?
Por que o faria? Cavaco-candidato não lhe dá esse pretexto em nome
da estabilidade e do expectável apoio de "classes médias".
Sócrates-kamikaze, precipitando legislativas, entregaria o governo
de bandeja... punido pelos mesmos sectores que ambicionam a
estabilidade a qualquer custo. Fora das especulações jornalísticas
sobra apenas um pouco surpreendente empate. Isto é: a evolução na
continuidade.
3. Como vamos de bloco central?
O PSD conspira com o Governo para esvaziar a luta dos professores,
aprovam no Parlamento o processo de apaziguamento PSD/PS. O PSD
viabilizou o segundo orçamento rectificativo de 2009, até com
cheque à Madeira. O PSD já deixou cair bandeiras eleitorais como o
alargamento do subsídio de desemprego, o fim da co-incineração, ou
quaisquer outras que possam assemelhar-se às horríficas "coligações
negativas", que o PS pinta com as cores do apocalipse. Mesmo na lei
de finanças regionais, um míssil do PSD/Madeira, tenta o
estado-maior laranja um acordo de governo. Ficará o código
contributivo da segurança social suspenso por um ano - o que são
trocos para o orçamento. E neste piscar de olhos aos nano-micros
empresários, de meias com o CDS, nem sequer é certo o destino do
"pagamento especial por conta" do IRC.
A líder do PSD, uma espécie
de holograma político, tem estendido a mão. Já sublinhou,
imagine-se!, que não a norteia o combate ao défice
orçamental mas a redução do endividamento. A prioridade
que (ela) preconiza de apoio ao sector exportador e, em
geral, pela produção de bens transaccionáveis, choca-se
com a canalização de crédito disponível para grandes
obras públicas. Esta divergência, a substância do
confronto eleitoral das últimas legislativas, reproduz ao
nível político uma fractura existente na classe
capitalista. A crise financeira internacional apertou em
muito o acesso ao crédito. O governo salva a banca, e o
crédito às construtoras e indirectos, grosso modo, e a
torneira fecha-se a outras indústrias e serviços conexos.
Este é o miolo do negócio entre partes, ou talvez não, se
o pragmatismo do PSD se limitar a dar pavio ao PS, na
expectativa de que queime alguma coisa para factura
eleitoral.
O PSD, acossado por igual pretensão
do CDS, quer negociar a viabilização do OE para 2010.
4. Tal como o PSD, o CDS quer
averbar pontos no seu cartão. Tantos mais pontos quanto a
estabilidade possa "parecer" obra das suas iniciativas. O Graal
na direita é a busca pela recomposição partidária e por um
programa fortemente conservador, uma demanda algures entre Sarkozy e
Berlusconi. O CDS quer ser parceiro e não apenas sócio. A
negociação do "caderno de encargos" do CDS junto de Sócrates
dá-lhe tempo e espaço para exalar oxigénio quando a nuvem
carbónica envolve o PSD.
Sócrates vai à boleia da
direita. Assim é a proximidade de interesses, por muito que
o mau génio das personalidades o tente apagar.
5. O que é grave é a
dramatização de falsos cenários, a tragicomédia de hipotéticas
eleições antecipadas em 2010, para ocultar na atenção da opinião
pública o desemprego galopante, a santa aliança do código de
trabalho contra os direitos laborais, o colapso dos impostos por
fuga para off-shores, os negócios contra o Estado nas parcerias
público-privadas, a permissividade com a corrupção onde qualquer
sucata tem a alquimia do ouro.
O que é grave é que há milhares de
milhões de euros para acudir ao capital, sob diversas formas, e o PS
impede o alargamento do subsídio de desemprego, supostamente porque
custaria 600 milhões ao erário, contas não confirmadas, para 300
mil vítimas da crise e respectivas famílias!
O que é grave é a continuidade das
políticas liberais do Governo PS, sob o beneplácito da direita. A
crise social agudiza-se, o fracasso está estampado no rosto e nos
nervos do executivo. A fuga para a frente é o choque social - essa
é a cafeína do ministro das finanças.
6. Ingénuos ou crentes, ou
gente de má fé, há quem acuse a esquerda de não negociar com o
Governo do PS. Retenho que algumas pessoas podem querer lavar a
consciência do Governo, ou estipular um jogo táctico, nota-se por
exemplo nos textos de Soares. É curioso, mesmo assim, que não
tenham tocado campainhas quando Sócrates propôs coligação
governativa, ou acordo parlamentar, a qualquer um e a todos. A
direita percebeu o sinal. É curioso também que todos esses críticos
nem sequer esboçaram uma exclamação quando o Executivo de Sócrates
se recusou a discutir com o Bloco de Esquerda políticas concretas,
leis concretas, medidas mais que concretas. A direita percebeu o sinal.
A verdade é que Sócrates quer clivar
com os partidos à esquerda. Necessidade política é certo. Mas
sobretudo por cálculo eleitoral, a bipolarização como chantagem
pode ser o confisco dos votos à sua esquerda, pensa-se no Largo do
Rato. A luta social e o desastre governativo vão porém ditar a onda
contrária, a de castigo ao primeiro-ministro anti-esquerdas. O
desemprego vai falar. São 700 mil pessoas.
7. Tem um toque de soberba,
pouco sofisticado concede-se, quando o primeiro-ministro acusa o
Bloco de Esquerda de "só" querer atacar o Partido Socialista. Na
verdade o programa de governo (do qual deriva governabilidade,
repare-se...) que o B.E. sufragou apresenta políticas de igualdade,
medidas sociais, elementos de democracia na Europa, propostas de
distensão e paz internacionais, que são incompatíveis com o
programa do PS e de toda a direita, afinal com o arco do poder
vigente, a ordem política subjugada ao mercado. As
"sociais-democracias", as "terceiras-vias", tudo isso já lá
vai. O liberalismo é mais ou menos extremado, às vezes os
protagonistas confundem-se, basta olhar a cartografia europeia.
No auge da crise do capitalismo
(2007-2009) tinha a sua graça assistir ao talante do PS reclamar do
neo-liberalismo e das suas desgraças. Mais ou menos imitando os
banqueiros que zurziam nos supervisores dos bancos centrais, tudo
gente de parentela à puridade. Qualquer ilusão em que este PS é
reformável esbarra com uma imparidade pior do que a que resultou dos
activos tóxicos na (in)solvência dos bancos. Veja-se: é longa a
lista de dirigentes do PS que nos últimos 20 anos participou
activamente no modelo privatizador, a todos os níveis, de pequenas a
grandes empresas, aos serviços públicos. Do Estado, da Região dos
Açores, dos municípios.
A osmose empresarial do PS, em sentido
político assim o friso, e para o caso chega, dita a sua política.
Os negociantes do Estado não são os reformadores do Estado, para
que pilote o mercado e combata a desigualdade.
8. No próximo debate orçamental
2010 o Bloco de Esquerda não se demitirá de levar a votos as
reivindicações sociais de urgência e os meios fiscais
correspondentes. Não nos intimida a pressão. Não cedemos aos
ataques políticos e pessoais, dos mais mesquinhos, em que tem sido
pródigo o partido governista. Contudo, convém aclarar um ponto: a
teoria de que a Assembleia da República não pode alterar a proposta
de orçamento do Governo, ou entre orçamentos não pode votar
incidências nos orçamentos futuros, é completamente
inconstitucional. É o Governo que depende do Parlamento e não o
inverso. Mesmo com maioria absoluta, de um ou mais partidos apoiantes
do Governo, a responsabilidade orçamental é sempre da Assembleia.
Ainda mais, assim será quando estamos em presença de um Governo
minoritário que quer torcer o veredicto popular. O Povo não confiou
a maioria ao PS, ponto final. Chantagear o Parlamento, sob qualquer
pretexto, não é um mero truque político, mas um golpe no regime
democrático.
Luís Fazenda
27/12/09
» 1 Comentários
1"Clarificador" em 31 de December de 2009 15:43
Clarificador do essencial no barulho mediático, dos interesses do bloco central, das tácticas partidárias e do próprio BE. Morder mais onde ao poder mais pode doer - estar na luta e dar voz aos 700 mil desempregados e a outros tantos precários... Útil seria analisar mais a referida fractura da classe capitalista (portuguesa e não só?) e simultaneamente, sem deixar de insistir nas medidas de emergência social, concretizar mais as propostas do Bloco de alternativa estrutural da economia.
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