Enquanto enterra
dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão,
o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma
cimeira da aliança.
Artigo de Jorge Costa
2009 terminou com a
clarificação da política de Obama para o Afeganistão. O
anúncio de mais 30 mil tropas norte-americanas - a que se somam
outras 7.500 de países aliados dos EUA - confirmou a opção
pela escalada na ocupação do país mais pobre do mundo. Confirmou,
sublinhe-se, porque desde o início do seu mandato que Obama vinha
multiplicando o investimento militar: mais tropas, mais ataques
aéreos, mais meios militares, mais mercenários. 2010
anuncia-se assim como o ano do alargamento da guerra: num ano de
mandato, Obama multiplica por três as tropas ocupantes (serão 100
mil em 2010) e duplica os mercenários no terreno (mais de 100
mil hoje, poderão chegar a 150 mil quando se completar o desembarque
dos reforços).
O fracasso está à vista:
o país continua a bater recordes de miséria e está classificado
pela Transparency International como o mais corrupto do mundo, logo
depois da Somália. O tráfico de heroína retomou os níveis
exorbitantes dos anos pré-taliban e os ocupantes não conseguem pôr
de pé um arremedo de forças armadas (um quarto dos recrutas afegãos
treinados em 2008 já desertaram).
Passados oito anos, vale a
pena lembrar a justificação original desta guerra: a perseguição
aos autores dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Nessa altura,
a Al-Qaeda e os talibãs eram mostrados como a mesma coisa.
Tomada Cabul, a guerra afegã era apresentada como
questão de cirurgia anti-terrorista em refúgios montanhosos
e ficava ofuscada pela aventura seguinte, o Iraque. Oito anos depois,
a al-Qaeda não passará de uma centena de operacionais em todo o
Afeganistão (segundo um relatório dos serviços secretos citado
pela ABC), mas
os norte-americanos continuam a não controlar grande parte do
território afegão, deslocam-se com enorme risco, tiveram o ano de
maiores perdas desde a invasão e desdobram-se em esforços
de suborno de talibãs "moderados", os aliados que ali
podem arranjar. O fracasso militar é tanto mais clamoroso quanto a
guerrilha é uma força com menos recursos que os mujahedines
armados por Reagan contra a URSS nos anos
80. Hoje, são norte-americanos os habitantes da antiga base militar
soviética de Bagram e é em visita a Moscovo que vamos encontrar o
secretário-geral da NATO, angariando apoio russo para o governo
Karzai.
Mas o pior pode estar
ainda para vir. Chama-se Paquistão e já mudou o nome à guerra -
agora designada "Afpak", Afeganistão-Paquistão. Segundo o
New
York Times, a Casa Branca autorizou o aumento do número de
bombardeamentos com aviões não-pilotados (drones)
em território tribal paquistanês, estando a negociar com o governo
do Paquistão o alargamento destas operações a refúgios de
combatentes afegãos no Baluquistão paquistanês, já fora das áreas
tribais fronteiriças. Estes ataques podem ter efeitos devastadores:
não só são conhecidos vários casos de massacre de civis
como, sempre que estas operações ocorreram em território do
Paquistão, causaram verdadeiras tormentas políticas num país que é
potência nuclear e onde o extremismo se tem desenvolvido.
Ao anunciar a guerra, o
Nobel da Paz pintou-a com as cores de "esperança" que
costuma usar: Obama trazia na algibeira vagas menções a uma
retirada futura ("...que nos permita iniciar a transferência
das nossas forças em Julho de 2011"). Mas essas palavras foram
esvaziadas no próprio dia pelo secretário da Defesa, Robert Gates
("estaremos no Afeganistão nos próximos anos"), e pelo
conselheiro de Segurança Nacional, o general James Jones ("Julho
de 2011 é uma descida, não é um penhasco").
Em 2010, Portugal
estará comprometido de forma mais profunda nesta guerra. Das
primeiras decisões de Augusto Santos Silva como novo ministro da
Defesa foi o significativo aumento da presença portuguesa no
Afeganistão, que poderá superar os 250 militares (até agora eram
cerca de uma centena). Enquanto enterra dinheiro e recursos para
salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para
receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança. Será um
momento crítico do balanço da guerra de Obama e uma convocação
para toda a esquerda: não queremos a NATO em Portugal, não
queremos Portugal na NATO. E queremos todas as tropas ocupantes
fora do Afeganistão. Em 2010, estaremos na rua a dizê-lo.
Jorge Costa
» 2 Comentários
2"Master" em 02 de January de 2010 20:39
As tropas ocidentais estão no Afeganistão porque: 1º - Defesa territorial do ocidente (primeira linha defensiva) mesmo ás portas do oriente - O dragão Chinês & Companheiros um dia quererá engolir-nos. 2º -Garantir que o ópio afegão continua a chegar aos laboratórios farmaceuticos ocidentais (um amigo meu, militar, VIU as tropas da coligação a defender uma plantação de papoilas da BAYER. 3º-Posicão estratégica para a questão israelita, as profecias dizem o resto, Vão levar a maior tareia.
1"Não podemos consentir" em 02 de January de 2010 00:20
http://antinatoportugal.wordpr ess.com/ Portugal está a participar num crime! O Estado português não pode participar nesta guerra, de modo nenhum. A constituição portuguesa proíbe uma guerra ofensiva, sem qualquer ligação com a defesa do nosso território e do nosso povo. É importante mostrar como estamos a ser colectivamente metidos, sem que a imensa maioria o saiba, num enorme lodaçal. Lodaçal militar, humanitário, económico, político...vassalagem para com os EUA!
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