Os riscos sistémicos de
economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de
activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque
dominarão as grandes economias no ano de 2010.
Artigo de
Francisco Louçã
"Acabou a recessão
técnica", clamava o primeiro-ministro no Verão. Desde então
repetiu sempre o mesmo: tudo resolvido, o governo fez o que tinha a
fazer, o país voltou aos carris do progresso.
Só que havia nesta
história, como na da morte da Mark Twain, um ligeiro exagero. Em
primeiro lugar, porque este critério de "recessão técnica" é
um critério técnico para esconder a recessão. Com estas contas,
uma economia pode estar a decrescer e a criar desemprego durante anos
seguidos e estar "tecnicamente" fora da recessão. Este conceito
é ignorante e enganador.
Em segundo lugar, o
governo escondeu os números do descalabro orçamental, consequência
do aumento das despesas e diminuição de receitas que o
prolongamento da recessão inevitavelmente provoca. Foi precisamente
quando proclamava que tinha "terminado a recessão técnica" que
o governo pediu um orçamento rectificativo para aumentar a dívida
pública este ano em quase 10% do PIB. Veja-se um detalhe das contas
enganadoras: neste momento, as contas públicas não registam o
buraco do BPN (que haverá de andar entre os 2 e os 3 mil milhões de
euros quando se apurarem as contas finais) e só regista um activo,
os 380 milhões de euros da conta de participações do Tesouro, que
correspondem ao capital social do banco, mesmo que este não valha
nada. O pior das contas ainda está para vir.
Finalmente, a crise
continua por uma outra razão. É que, ao longo de toda a década, o
crescimento da economia foi medíocre, a divergência europeia
acentuou-se e o desemprego estrutural de longo prazo agiganta-se.
Nesta economia dependente de outras, nem as exportações crescem nem
a produção se reconverte.
Assim, os riscos
sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam
sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa
porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. O risco de
nova recessão continua muito significativo.
A crise continua, ainda,
porque o fracasso dos senhores da economia é a maldição nacional:
Belmiro de Azevedo preocupa-se com a imposição das 60 horas
semanais nos hipermercados e centros comerciais, e Américo Amorim
preocupa-se com as rendas que o Estado lhe garante. Nem emprego, nem
qualificação, nem inovação, nem justiça na economia. Essa é a
crise de 2010.
Francisco Louçã
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