Defende-se aqui que é urgente que a
militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda
anti-capitalista.
Artigo de Carlos Carujo
1- O grande circo da governabilidade
Ao que parece, o clima político
imediato continuará marcado pela histeria do governo minoritário
que vive entre a provocação e a vitimização face às "coligações
negativas" e à existência de uma oposição em geral e as
picardias com um Presidente baralhado à procura de uma reeleição.
Ironicamente, é o regresso do "deixem-me trabalhar" hoje como
arma de arremesso também contra Cavaco. Mas o trabalho em causa
talvez não seja substancialmente diferente...
Dos orçamentos mais ou menos limianos
às negociatas políticas de fundo sempre feitas com a direita, das
acusações de corrupção e deficit democrático à continuação do
business as usual do centrão político, o país arrisca-se a
viver uma conjuntura em que a uma agitação de superfície
corresponde o pano de fundo intocável de uma modernização
conservadora assente em baixos salários e qualificações de
fachada, "novas oportunidades" que são a velha oportunidade para
os mesmos de sempre e choques tecnológicos que não passam de
arrepios mediáticos.
Trata-se de um jogo vazio de "crises
políticas" que instalam um discurso hegemónico sobre a
governabilidade que favorece o arco do poder. A governabilidade é a
tese de resistência dos partidos dominantes à crise política de
fundo que se esconde por sob as crises mediatizadas. A
governabilidade enquanto irmã gémea destas crises mediatizadas é,
portanto, para reafirmar o mesmo por outras palavras, uma tentativa
de manter o status quo face à profunda crise económica e
ambiental e não a resposta que é necessário dar-lhe.
2- Do circo da governabilidade à
resposta das lutas sociais
A governabilidade enquanto discurso da
necessidade de um governo de maioria absoluta ou de uma coligação
estável pode também alimentar a esperança de uma via de saída
alternativa: uma governabilidade estabelecida pela soma de uma
maioria relativa do PS com os partidos à sua esquerda através de um
apoio crítico ou de uma pressão permissiva à esquerda. É a ideia
de desfazer o nó górdio do sistema político nacional apenas a
golpe de espada eleitoral, como se fosse assim tão simples alterar a
natureza do partido do governo já para não falar na correlação de
forças na luta de classes. Desta forma, essa "governabilidade
alternativa" encerrar-se-ia no plano do político enquanto
partidário, parlamentar ou governamental e escapar-lhe-ia o elemento
fundamental nesta equação: os movimentos e as lutas sociais.
Claro que estes são também marcados
pela conjuntura e pelas construções "teóricas" feitas a seu
propósito. É para responder a esta conjuntura que se traçam
tácticas em que um dos elementos importantes a ponderar é o quadro
político-partidário; a conjuntura interfere também com os ritmos
das lutas sociais, com os compassos de espera face aos novos
governos, as intensificações quando os calendários eleitorais
apertam, os momentos de suposta vulnerabilidade política que se
aproveitam etc.; a conjuntura influenciará assim a percepção dos
protagonistas dos movimentos sociais sobre a sua capacidade de impor
mudanças não se encontrando estes também imunes aos discursos
hegemónicos que sub-repticiamente vão ocupando o espaço público.
Mas, para além das reflexões
tácticas, os futuros imediatos têm-se vindo a encarregar
repetidamente de desmontar as esperanças dos/as que, a partir do
ponto de vista das lutas sociais, invistam numa solução
governamental para as suas questões. De cada vez, a um mínimo
eleitoralista de esquerda o PS faz corresponder um máximo político
do governo dos interesses dos poderosos. Sendo assim, se o momento já
é defensivo para a esquerda, a ilusão política que se instale nos
movimentos sociais corre o risco de encerrar as lutas num quadro
mínimo de apertadíssimas possibilidades e em conquistas mais que
parciais. Não perdendo de vista que o clima de "crises" do
próximo ano pode ser propenso a vitórias parciais ou a vitimizações
do poder que culpem também as forças da esquerda social, é
necessário ultrapassar o plano da táctica e pensar estrategicamente
nas debilidades e forças dos movimentos sociais portugueses.
3- Por debaixo da calçada política,
a praia ou o deserto?
Tendo a consciência de que não se
pode desfazer o puzzle calçada política de um sopro, somos forçados
a ponderar no que está, à esquerda, se mexe no plano social por
debaixo deste.
A primeira constatação, tal como as
outras na verdade, é óbvia: o panorama nacional é marcado por um
desequilíbrio forte entre esquerda política e esquerda social. A
uma esquerda política (entenda-se a esquerda à esquerda do PS)
forte, em crescimento eleitoral, corresponde uma esquerda social
fraca. Com a excepção do sindicalismo, os movimentos sociais
mobilizam poucos e intermitentemente. Uma fraqueza que se pode
explicar por razões endógenas: os nativos viveram muitos anos de
uma ditadura que instaurou processos fortes de conformismo apenas
rasgados brevemente pelo vendaval de Abril. Ou também se pode
ensaiar explicar esta fraqueza pela crise de cidadania própria dos
regimes políticos actuais, pela precarização e atomização
sistémica do capitalismo actual. Seja qual for a razão, a fraqueza
dos movimentos sociais é um dos maiores entraves à possibilidade de
uma transformação social socialista.
Uma fraqueza que não foi colmatada com
o surgimento do "movimento dos movimentos", dos Fóruns Sociais
Mundiais, da movida alterglobalização que em Portugal teve muito
pouca expressão.
Só depois desta constatação se
avança para uma outra de contornos globais: várias vezes esquerda
social e esquerda política estão, na prática, de costas voltadas
dificultando assim uma coligação positiva entre lutas sociais e o
plano político-partidário. Para justificar este divórcio
construíram-se auto-justificações diferenciadas. Sigo aqui Daniel
Bensaïd que distingue a ilusão política (que atinge direcções
políticas autistas e auto-suficientes, com a ideia de que a sua
posição cimeira no plano político permite uma visão de conjunto
que escapa aos activistas sociais, que atinge partidos com intenções
dirigistas e controleiras a respeito dos movimentos sociais, que
acaba por sacrificar o plano da luta social ao plano do combate
político-partidário) e a ilusão social (que atinge movimentos
sociais, sobretudo as novas teorias da alterglobalização, que acham
arcaico e/ou inerentemente conspurcado o plano partidário e o
Estado). A esquerda grande é, mais do que a que junta várias partes
do espectro político, aquela que estabelece uma dialéctica prática
e aberta entre as várias esquerdas sociais em si e entre estas e as
esquerdas políticas.
4- Mil movimentos florescerão?
Constatando a fraqueza e o divórcio ou
a subordinação entre planos, defende-se aqui que é urgente que a
militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda
anti-capitalista e que, para lá dos calendários eleitorais e das
crises, o próximo ano poderia ser altura disso.
É o tempo em que sentimos que há mil
militâncias onde sentimos necessidade de (re)investir de um ponto de
vista activista e radical. É o tempo em que há a urgência de
(re)inventar todas as lutas em que participámos e participamos.
Contudo, há igualmente o sentimento natural da distância que vai
entre todas as lutas transformadoras necessárias e aquelas em que
podemos investir porque não nos podemos desdobrar em todas elas e
porque não somos nunca tantos/as quantos/as os/as queremos ser. E,
sendo a parte mais forte, a componente política deste processo tem a
responsabilidade paradoxal de fazer um investimento não controleiro
nos movimentos sociais. Fácil de dizer, difícil de escapar às
tentações dirigistas ou de take-overs sobre movimentos, de
conseguir diálogos frutuosos com as componentes apolíticas desses
movimentos, de não acabar por reduzir estas lutas a agendas
políticas e a ganhos eleitorais.
Há a necessidade de identificar pontos
de fractura fundamentais do ponto de vista sistémico (dos movimentos
ecologistas e ecossocialistas que respondem à crise ambiental
estrutural, aos movimentos anti-precariedade que respondem à
estrutura laboral dos nossos tempos, aos movimentos de lutas pelos
direitos sociais e pelo bem comum atacado pelas perspectivas liberais
que permanecem dominantes) mas há também a necessidade de não
hierarquizar lutas nem menosprezar planos de militância sejam
molares sejam moleculares, de não reduzir a riqueza da diversidade a
um discurso simplista de prioridades (políticas ou sociais), de
pensar com o que está fora da nossa zona de conforto, de dialogar
com outros pontos de vista e de aprender com outras militâncias. Não
há receitas para isto mas há encontros marcados no campo das lutas
sociais a fazer. Há as muitas mãos necessárias para meter a estas
(tantas) obras?
Carlos Carujo
» 1 Comentários
1"medidas concretas" em 05 de January de 2010 08:17
Tive uma ideia para resolver o problema do deficit,é simples, basta levar ao extremo o conceito de subsidio, de ferias e de natal, na função publica decretando a sua igualdade, há semelhança do subsidio de refeição, indexando estes dois subsidios ao salario minimo. Seria uma medida socialmente equilibrada e iria ao encontro da necessidade de diminuir a despesa publica.
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