Comissão Europeia quer "obsessão" com défice já em 2010
09-Nov-2009
Portugal vai ter de começar a consolidar as contas públicas
já a partir de 2010, para corrigir o actual défice orçamental
"excessivo", segundo a Comissão Europeia, para menos de 3 por cento
do PIB o mais tardar em 2013. Se for imposto esse limite, as medidas de combate
à crise podem estar em perigo.
Embora não tenha havido uma política coordenada de resposta
à crise, a UE quer agora impor um controlo do défice a todos os países. Se
Portugal aceitar esse limite pode estar a por em causa a recuperação económica
dos próximos anos.
Este objectivo obrigará o país a assegurar um ajustamento
anual médio de 1,25 por cento do PIB em termos estruturais (ou seja,
descontados os efeitos da conjuntura económica). O que significa que o esforço
de ajustamento poderá ser relativamente suave na primeira parte do período,
altura em que a economia deverá crescer pouco, ou nada, mas terá de ser
intensificado na segunda parte quando - e se - a retoma se confirmar.
Esta é a trajectória de ajustamento que a Comissão Europeia
vai recomendar ao Governo na próxima quarta-feira, no quadro de uma nova etapa
do procedimento previsto no Pacto de Estabilidade e Crescimento do euro (PEC)
para os países que, como Portugal, estão em situação de défice orçamental
"excessivo", ou seja, superior a 3 por cento do PIB.
A medida corre o risco de estrangular quaisquer políticas públicas
de recuperação económica, obrigar a cortar ainda mais nos serviços públicos e impedir
uma resposta consistente à crise.
A fixação de 2010 para Portugal iniciar o esforço de
consolidação, um ano mais cedo que a data definida pelos ministros europeus das
Finanças para o conjunto da União Europeia (UE), a par da intensidade do ritmo
proposto, deve-se ao "elevado défice público, dívida pública e respectivos
juros, e à actual situação das contas correntes", segundo o texto do
projecto de recomendação a que o PÚBLICO teve acesso. Este projecto, preparado
por Joaquin Almunia, comissário responsável pela economia e finanças, ainda
poderá ser alterado até à reunião de quarta-feira da totalidade da Comissão,
que terá de o validar.
Em 2010, e apesar da cessação das medidas de estímulo, as
previsões apontam para o mesmo défice de 8 por cento do PIB, o que Bruxelas
atribui à persistência de um ambiente recessivo, acção dos estabilizadores
automáticos e "crescimento acentuado dos gastos com os juros" da
dívida.
Neste contexto, prossegue o texto, "uma trajectória de
ajustamento credível e sustentável requer que as autoridades portuguesas
comecem a consolidação em 2010" e "assegurem um ajustamento anual
médio em termos estruturais de 1,25 por cento do PIB".
A meta de 2013 definida para Portugal corrigir o défice
excessivo traduz as "circunstâncias excepcionais" - caso da actual
recessão - previstas no Pacto de Estabilidade, depois da reforma de 2005, que
autorizam um alargamento do habitual prazo de dois anos entre a constatação de
um desequilíbrio das contas públicas e a sua anulação.
Outros países da zona euro, como Espanha, França, Irlanda,
Itália, Bélgica, Eslovénia, Eslováquia e Malta, terão de seguir o mesmo caminho
iniciando a consolidação em 2010 ou mesmo 2009.
Ao invés, os países com maior margem de manobra orçamental resultante de
desequilíbrios menos acentuados poderão esperar por 2011 para iniciar o
processo, caso da Alemanha, Holanda ou Áustria. A quase totalidade dos 16
países da zona euro estará este ano em défice orçamental "excessivo"
em resultado da actual recessão, sendo as excepções a Finlândia e o Luxemburgo.
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