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Uma
notícia
relativamente discreta durante a semana passada, revelou-nos que o ministro reencaminhado na
pasta do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, Mariano Gago,
recebeu, desde o início do presente ano lectivo, cinco queixas
graves de violência ocorrida durante as praxes académicas. Quatro
delas foram enviadas para a Procuradoria-Geral da República e
devemos esperar seguimento. Convém dizer que os auto-intitulados
"veteranos", como vem sendo hábito, já
reagiram
para nos convencer de que estão sempre dispostos a definir novos
"limites" às suas arbitrariedades.
A
notícia não surpreende por revelar qualquer novidade sobre a
natureza violenta das praxes. A violência é o seu ingrediente
principal, a sua legitimação e até, dum certo ponto de vista, a
sua auto-justificação: a praxe existe, nas palavras - mais ou
menos sofisticadas e conscientes, conforme os casos - dos seus
defensores, porque é preciso uma ordem que organize o espaço
escolar, que imponha regras aos que chegam de novo, que responda à
novidade com o conservadorismo. Por isso é violenta, será sempre
violenta. É, tem sido, uma espécie de excepção aparente na nossa
vida colectiva. Nas praxes, mais do que não haver democracia, o
autoritarismo e a segregação são a sua forma de afirmação. É
assim que demasiadas vezes a violência da ideologia da praxe se
torna física e, quando conhecida, volta a espantar o país.
Mas
a surpresa foi-se esbatendo pela coragem de vários estudantes que,
nos últimos anos, enfrentaram o poder das praxes, lutaram contra
todos os compadrios e intimidações, conseguindo mesmo vitórias
difíceis nos tribunais, que responsabilizaram finalmente agressores
e as instituições de ensino superior que lhes deram toda a
cobertura. A recente condenação da Universidade Lusíada pela morte
de Diogo Macedo (pelos seus "colegas" da tuna, em instalações
cedidas pela própria Universidade) é o último exemplo - embora
ainda sem consequências criminais para os presumíveis agressores.
A
novidade poderá ser, então, que temos, finalmente, um ministro da
tutela que não quer compactuar com as violências das praxes. Será?
Aparentemente é verdade. De facto, é importante que Mariano Gago
faça o que é normal, assumindo as suas responsabilidades e
afastando o manto de impunidade que protege as instituições de
ensino superior e respectivos Reitores, cúmplices de actos
frequentemente medievais e quase sempre mais preocupados com a
"imagem" do seu reinado e em garantir as graças dos "seus"
estudantes.
Gago
responde a um contexto novo e a uma nova atenção perante o
escândalo, mas também por um passado em que sempre se afirmou
contra as praxes. Hoje, enquanto ministro, escolhe palavras duras,
considerando-as "fascistas"
e avisando a navegação, com ar decidido, que, com ele, o regabofe
vai parar aos tribunais.
Mas
Mariano Gago precisa, também ele, dum julgamento mais cuidado. As
praxes são uma ovação dum ensino superior excludente e elitista,
uma claque que grita pelo reconhecimento tribal e situacionista numa
Universidade à venda para consumidores desesperados, à mercê das
angústias do sub-financiamento e sob a cobiça do mercado que exige
portas escancaradas para a invadir. Nesta fábrica de futuros
precários que Gago confirmou e acentuou, a passagem é mais breve e
o horizonte mais curto: por essas e por outras, a praxe muda -
adapta-se, apesar de afirmar a "tradição" - mas persiste na
sua função essencial de contenção e esvaziamento, ocupando o
espaço deixado vazio por outras experiências que ficam por
acontecer.
É
por isso que este ministro não nos pode oferecer - como nenhum
outro - um combate definitivo às praxes, às suas raízes,
significados e consequências. Porque Gago continua a querer
estudantes dóceis, que aceitem a sua Universidade de penúrias
luxuosas, com propinas e empréstimos, a caminho ou já pomposas
fundações, excluindo os estudantes das decisões que importam à
comunidade escolar.
É
de facto urgente uma luta forte contra a maior de todas as violências
da praxe. O combate ao conformismo é o desafio permanente do
movimento estudantil e foi sempre nele que se colocaram todas as
questões decisivas e todos os avanços importantes. A oposição às
praxes sempre fez e fará parte duma disputa grande pela
Universidade, onde não se esperam que sejam decretos a substituir
uma luta aberta e decidida, capaz de convocar o conjunto dos
estudantes e da sociedade, em que todos têm lugar, independentemente
do número de matrículas ou de outra coisa qualquer.
Tiago
Gillot
» 2 Comentários
2"Informem-se" em 02 de November de 2009 19:47
Sinceramente sou da opinião que quem escreve tem a obrigação de se informar antes. Como em todas as áreas, há pessoas que se excedem e têm atitudes inconcebíveis. Mas nem todas são assim. Como o Tiago saberia caso tivesse pesquisado, na maioria das faculdades ninguém é obrigado a estar presente em praxe. Muito pelo contrário. Só participam devido ao espírito de camaradagem e entre-ajuda existente na maioria das actividades praxísticas. É pena que queiram pôr tudo no \\\"mesmo saco\\\". C
1Comentários em 02 de November de 2009 17:10
Licenciei-me no tempo em que havia luto e lutas académicas contra o regime do Estado Novo. Eram tempos bem menos fascistas que estes que hoje a cacicada que frequenta as universidades(ou mercearias?) impoe. De acordo com o artigo apresentado. F.Antunes
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