Rankings escolares e discriminação criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
15-Oct-2009

Carlos CarujoOs rankings de escolas são já um mau hábito recorrente no debate sobre educação em Portugal. Ciclicamente, regressa o discurso das melhores e das piores escolas, com os respectivos responsáveis a gabar-se do excelente corpo docente e condições oferecidos ou a desculpar-se com o tipo de alunos e a falta de meios.

Os defensores dos rankings sublinham a sua transparência e rigor. Mas esta propalada transparência choca com a subjectividade de um número desgarrado. E até a decisão do que entra no ranking não é nada transparente (entram na lista todos os exames ou só os de algumas disciplinas, entram todas as escolas ou só a partir de determinado número de alunos que realizaram o exame?).

Minudências à parte, o que interessará debater é o próprio disparate de listar as escolas pelos resultados dos exames nacionais. A ser verdadeiramente rigoroso, quem defendesse a utilidade de fazer uma lista das "melhores" escolas baseada apenas nos resultados escolares dos alunos teria de fazer outro tipo de contas porque estas não medem nunca a contribuição da escola para o resultado nos exames: para efeitos estatísticos conta o mesmo o "bom" aluno que à partida entra numa escola secundária e mantém as suas competências, logo tem bom resultado, o aluno "médio" sobe as suas competências que obtém um bom resultado e o aluno com dificuldades que consegue o mesmo tipo de resultado.

Mas avaliar assim tanto já era ser picuinhas e nem os defensores destes rankings nunca chegam tão longe. Porque pela sua própria razão de ser, este tipo de avaliações seria descabida: os rankings são números prontos a consumir, imediatos e fáceis. Prontos a transmitir uma realidade que não tem causas nem casualidades. Uma realidade que não tem condicionalismos sociais nem pessoas dentro. Os rankings fazem parte da voragem pseudo-avaliadora que perpassa muitas estruturas sociais. Como é óbvio, é uma voragem feita de falsas aparências, de números superficiais que deveriam traduzir a realidade última das coisas.

São números e pronto. Constituir-se-iam assim como indiscutíveis e objectivos. Mas são números fabricados e que não são neutros ideologicamente: para além do mais, servem para alimentar a ideia das boas escolas privadas, que têm mais condições para seleccionar alunos, por meios financeiros ou outros, e das más escolas públicas do facilitismo em que é tudo ao molho. Mas se atentarmos nesses números, veremos que mesmo nas escolas públicas não é tudo ao molho, que há uma triste realidade de selecção feita nas escolas públicas: há as turmas dos "bons alunos" que ficam para os "bons professores" e as turmas dos "maus alunos" que ficam para os outros, há as "escolas boas" que têm os melhores e não têm espaço para outros e as que aceitam qualquer um. E se uma escola aceita qualquer um não poderá nunca ser boa porque a sua média está ameaçada. Por isso, para bem do lugar obtido no ranking há que excluir e excluir outra vez. Numa concorrência que se compreende que interesse a alguns dos privados, afinal são escolas baseadas no princípio do lucro e o seu lugar no ranking é um motivo de marketing, mas que só interessa a algumas escolas públicas na medida em que queiram permanecer realidades fechadas.

Carlos Carujo

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