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Quando se fala de Rendimento Social de
Inserção (RSI) não se fala de gente que não quer trabalhar.
Fala-se de pessoas que não conseguem trabalhar. Fala-se de 385 mil
pessoas cujo rendimento mensal é inferior a 187,18€. Fala-se de
154 mil crianças e jovens menores de 18 anos. Fala-se de 38 mil
pessoas que trabalham mas recebem tão pouco que, mesmo assim,
precisam de apoio.
Qualquer pessoa que pretenda aceder ao
RSI terá que comprovar, junto da Segurança Social, que se encontra
em grave carência económica. Ora, considera-se que alguém se
encontra nesta situação quando aufere mensalmente um valor inferior
ao da pensão social, ou seja, 187,18€.
- A questão que nos deveria preocupar
é esta: é possível alguém viver com 187,18€ por mês?
Se esta pessoa tiver um filho a seu
cargo, poderá aceder a uma majoração de 50% na sua prestação. -
O que nos deveria preocupar é: é possível um adulto e uma criança
viverem com 280,77€ mensais?
Se o/a companheiro desta pessoa também
não tiver rendimentos, este agregado familiar, constituído por dois
adultos e uma criança, pode receber mensalmente 467,95€.
- O que nos deveria preocupar é: é
possível uma família de três pessoas viver com 467,95€ mensais?
Quando uma pessoa subscreve o RSI,
assina um acordo cujo conteúdo, regra geral, engloba as componentes
escolar, de saúde e de emprego. Ou seja, havendo crianças em idade
escolar, é obrigatório que estas frequentem a escola e tenham
acesso a cuidados de saúde. No que concerne aos/às adultos/as
beneficiários/as, há o compromisso de que procurarão emprego e que
tentarão qualificar-se.
No que diz respeito às crianças,
estas frequentam a escola mas, muitas vezes, com carências
alimentares. A tal família que recebe 467,95€ mensais tem de pagar
renda de casa, água e luz. Tem de pagar infantário e transportes. E
tem de comer. Como o dinheiro não dá para tudo, são muitas as
crianças que se alimentam convenientemente apenas na escola.
- A questão que nos deveria preocupar
a todos é: é aceitável que haja pessoas a passar fome?
No que concerne aos/às adultos, é
estipulado que devem qualificar-se. Há muitas e muitas pessoas,
jovens e menos jovens, que são analfabetas ou quase analfabetas,
para as quais as respostas são muito reduzidas, uma vez que existem
poucos cursos de alfabetização. Há muitas outras, jovens e menos
jovens, que têm escolaridade inferior ao nono ano de escolaridade e
que poderiam frequentar cursos de educação e formação de
adultos/as (EFA). No entanto, estes cursos têm a duração de cerca
de um ano e meio, funcionam diariamente, com sete horas de formação
diárias, o que implica ajustes familiares que nem sempre são
exequíveis. Por outro lado, o valor da bolsa de formação é de
209€, não acumulável com o RSI.
A outra parte do acordo remete para a
disponibilidade para o emprego. Que existe. Uma imensa maioria de
pessoas está disponível para trabalhar. O problema reside,
precisamente, na ausência de emprego! Esta situação agrava-se
ainda mais dada a crescente precarização do mercado de trabalho e a
necessidade de conciliar o trabalho com a vida familiar. Vejamos um
exemplo simples: uma mãe que tenha um filho a seu cargo e que seja
contratada para trabalhar num centro comercial, terá que trabalhar
por turnos, o que significa trabalhar à noite. Neste caso, o que faz
à criança? Paga o infantário para o dia e uma ama para cuidar dos
filhos à noite? Como pode arcar com estas despesas?
O universo do RSI é um universo de
pobreza. De ciclos de pobreza que se repetem de pai/mãe para
filho/a. De baixas habilitações escolares. De desemprego. Estas 385
mil pessoas precisam de apoio. De muito mais apoio do que aquele que
recebem. Não precisam de ser mais estigmatizadas do que já são.
Precisam de políticas reais e eficazes de apoio às famílias, ao
ensino, à qualificação e ao emprego.
Os/As beneficiários/as do RSI não são
a origem dos males financeiros do país. São, isso sim, o espelho da
miserável realidade do país com a maior desigualdade entre ricos e
pobres na Europa.
São o espelho de políticas sucessivas
que protegem a usura e os off-shores da alta finança.
São o espelho dos Governos que têm
esvaziado os serviços públicos em geral e as áreas de apoio social
em especial.
São o espelho da falta de habitação
camarária condigna.
São o espelho de um Portugal que
existe e que muitos/as desconhecem: são jovens de 19 anos
analfabetos ou mães de dois filhos com 20 anos e o 4º ano de
escolaridade.
Estas pessoas não precisam de mais
fiscalização, porque esta já existe e é tenaz e implacável.
Estas pessoas precisam de ser tratadas
como tal: como pessoas.
Precisam de ter condições para viver
e não para sobreviver.
Precisam de ser acompanhadas e não
perseguidas.
Todo e qualquer discurso reaccionário
contra o RSI enferma de uma grande problema: desconhecimento do real.
É senso-comum sobre uma realidade que desconhece e para a qual não
tem soluções a apresentar até porque, esta desigualdade social,
esta pobreza, esta exclusão encontram a sua génese nas práticas
neoliberais que esses mesmos discursos professam.
Cristina Andrade
» 6 Comentários
6"rsi" em 09 de November de 2009 13:08
Caro Atom77: Se as creches fossem gratuitas, os bancos não ganhassem milhões com os spreads, com a nacionalização da GALP e EDP, e a respectiva baixa de preço dos combustíveis, e o aumento do salário, não precisavas de vender tudo...... e mais.... Com o fim da privatização da agua parando assim o aumento exorbitante do preço, melhores transportes públicos entre outros ideais bloquistas não precisavas de vender tudo...... e esta hein?
5"Tenho direito a RSI ?" em 27 de October de 2009 17:48
Eu e minha esposa e dois filhos menores auferimos 1500 euros por mês. Como tivemos de COMPRAR uma casa tenho de pagar 600€ p/ mês sobram 900, pago cresce do filho 200 sobram 700 trabalhamos p turnos temos 2 carros, gasto media por mes 350 euros sobram 350 p/ todo o mês seguindo o seu raciocínio tenho muito menos que um RSI para viver. Estou a ponderar com minha esposa deixar de trab. vender tudo o que tenho e ir viver para uma casa alugada (15€ mês) que será pago com um RSI e viverei melhor
4"RSI" em 22 de October de 2009 09:38
A forma como tem sido distribuido o rsi só tem criado desigualdades sociais quantas e quantos trabalhadores que descontaram uma vida inteira tem reformas muito abaixo daqueles que nunca descontaram nada que se passeiam em carros de luxo e frequentam as melhores marisqueiras é a isto que chamam R.S todos nós para termos direitos tambem temos que ter deveres ,só assim é possivel termos uma sociedade mais justa. mais humana mais digna .
3Comentários em 18 de October de 2009 18:22
A exigência de coerência na relação social deve ser igual para todos. Aos empresários, porque tudo o que constroem é sempre apoiado na colaboração dos seus trabalhadores. Ao comum cidadão que deve procurar trabalhar e valorizar-se profissionalmente. Para isto é necessário a criação de leis mais simples e pragmáticas. Os sinais exteriores de riqueza deviam ser investigados, quer ao empresário como também ao indivíduo que recebe um rendimento e possui artigos de luxo.
2Comentários em 18 de October de 2009 09:53
Nada mais do que a verdade e só não vê quem não quer.
1Comentários em 14 de October de 2009 23:00
Parabéns pela clareza do texto.
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