A reunião entre o governo e os sindicatos de professores foi antecipada para quinta-feira, mas a troca de palavras continua a subir de tom. Sócrates disse aos deputados do PS que à falta de acordo, quem manda é a maioria absoluta. Mário Nogueira diz que isso revela a arrogância de um governo que "não ouve ninguém". Também a Conferência Episcopal falou em "problemas de audição" e defende que a voz dos professores tem de ser ouvida.
A reunião do grupo parlamentar socialista com o primeiro-ministro realizou-se na terça-feira. O encontro tratou das divergências internas e dos avanços e recuos da posição do governo sobre o arrastar de um modelo de avaliação de professores que a própria ministra admitiu já não servir para o próximo ano.
Sócrates defendeu que "a política de educação tem de contar com os professores, mas a educação é uma matéria de todos os portugueses" e que está "disponível para discutir tudo mas não podemos estar sempre de acordo". "É a vida", terá dito o primeiro-ministro aos deputados que colocaram dúvidas sobre a insistência num modelo que já nem a ministra defende. José Sócrates chegou a dizer que a maioria absoluta legitima o PS para avançar com esta medida se não conseguir o apoio dos professores.
O líder da Plataforma Sindical, que amanhã reunirá no ministério da Educação, diz que "o primeiro-ministro ainda não compreendeu o que está em causa. O primeiro-ministro, como não ouve, como não aceita a opinião dos outros e acha que a maioria absoluta lhe dá o direito de arrogantemente continuar a dizer aquilo que acha sobre educação e até quais são as intenções dos outros nomeadamente dos sindicatos”, acusa Mário Nogueira.
O único ponto acordo entre Sócrates e Nogueira é que a educação diz respeito a todo o país. O sindicalista diz que o governo “começou a achar que a Educação era apenas um problema dele e passou a definir políticas e a tomar medidas que têm vindo a fazer com que a educação e o ensino tenham piorado". “O primeiro-ministro diz que está disponível para tudo, mas está sempre em desacordo. Concordo com ele em que a Educação não é um exclusivo do Governo e dos sindicatos, é de toda a comunidade educativa. É um problema de toda a sociedade e do país”, diz o líder da Fenprof.
Para a reunião de quinta-feira, os sindicatos levam dois pontos que consideram essenciais, nas palavras de Nogueira: “A solução para este ano da avaliação em regime transitório, tendo em conta que a aplicação do modelo não é possível, e a abertura de um calendário de negociações que vise rever o estatuto da carreira docente”.
Também o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Morujão, afirmou na terça-feira que existem "problemas de audição" na Educação, defendendo que a voz dos professores tem de ser ouvida.O secretário da CEP reconheceu que se sente um “mal-estar profundo” na Educação, que não se circunscreve ao modelo de avaliação dos professores ou à carreira docente, bastando para o reconhecer “abrir os olhos, os ouvidos e o coração”. Questionado sobre quem tem de “abrir os olhos, os ouvidos e o coração”, o pe. Manuel Morujão respondeu “todos”, incluindo a Plataforma Sindical dos Professores, mas “seguramente também muito o ministério”.