"O sistema está podre e é preciso mudá-lo", diz Soares

23 de setembro 2008 - 13:12
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Mário Soares diz que a promiscuidade entre política e negócios conduziu à crise actual. Foto LusaO ex-presidente da República aponta "a promiscuidade entre a política e os negócios" como a causa do descrédito da política e da actual crise. Numa reflexão acerca do "desnorte" da "esquerda reformista" nos últimos anos, propõe o regresso aos valores éticos republicanos e a mobilização cidadã para "lutar contra a precariedade do trabalho, contra as desigualdades e a injusta distribuição do rendimento".

 

Um dia depois de ter acusado a maioria dos líderes políticos europeus de continuar "num estado de apatia e subserviência em relação à administração Bush", e de ter considerado a NATO "um braço armado dos americanos", Mário Soares publica esta terça-feira no Diário de Notícias um artigo que parte da análise da crise financeira para reflectir sobre a crise da social-democracia, que se deixou "colonizar" pelo neoliberalismo de Blair e Schroeder.



Soares defende que "é preciso repensar a esquerda reformista" através do regresso aos "valores éticos" para combater "as sociedades de mercado e os negócios pouco transparentes". E não poupa o comportamento da direita neo-liberal, lembrando que "perante a catástrofe iminente, aqueles mesmos que reclamavam, há poucos meses, menos Estado, mais privatizações, recorrem agora ao Estado, com total desfaçatez, isto é: ao dinheiro dos contribuintes. Privatizam-se os lucros e socializam-se os prejuízos - essa parece ser agora a regra", diz Soares, para quem "como de costume, são os inocentes que mais sofrem" com a crise, "porque os administradores e os gestores dos bancos e demais empresas - os responsáveis - saem a sorrir, com grandes indemnizações e chorudas reformas, com total impunidade."…



"É preciso repensar as políticas de Esquerda, apelando sobretudo à participação dos cidadãos. E velar para que as mulheres e os homens de Esquerda, que cheguem ao poder nos Estados e nos partidos, sejam pessoas impolutas, que saibam distinguir os negócios privados do serviço público", avisa o fundador so PS, enaltecendo o "legado de moralidade" da I República "que resistiu, como um exemplo a seguir, a quase meio século de ditadura".



"Foram os lobbies dos interesses, a imoralidade dos dirigentes dos bancos e das empresas, as grandes negociatas, envolvendo políticos, e o tráfico de influências, numa palavra, a promiscuidade entre a política e os negócios, que desacreditou a política e nos conduziu à crise em que nos encontramos. Não nos deixemos iludir: o sistema está podre e é preciso mudá-lo", alerta Mário Soares, antes de defender que essa "grande tarefa da Esquerda europeia" deve ter "autonomia ideológica em relação à América".