No comício de encerramento do primeiro dia da Marcha contra a Precariedade no norte do país, Francisco Louçã disse que o voto contra de Manuel Alegre e de outros deputados do PS às alterações ao Código do Trabalho "fez cair outro tabu na esquerda portuguesa e mostrou que ainda há quem respeite o seu mandato naquela bancada". Durante a tarde, a Marcha passou por alguns dos maiores call-centers da cidade do Porto e juntou centenas de pessoas num comício na baixa.
O dia do arranque da Marcha contra a Precariedade ficou marcado pela votação no parlamento das alterações ao Código do Trabalho. O apelo à "mobilização geral" contra o projecto do PS que agora passa à discussão na especialidade foi feito várias vezes durante o dia e também no comício da noite.
Francisco Louçã destacou o voto contrário de Manuel Alegre e outras três deputadas socialistas à proposta do governo e da sua própria bancada para dizer que "este será um dos combates mais difíceis, mas é um combate que tem de vencer". "Contra a maoria absoluta do PS e a direita, estes deputados não esperaram por mais discussões para dizer que este Código contraria a Constituição social que saiu do 25 de Abril."
A crise internacional também foi tema do comício, com Louçã a criticar um Banco Central Europeu "que persegue os pobres, aumentando as taxas de juro e com isso o desemprego, mas que se apressa a dar quantos milhares de milhões forem precisos para salvar os especuladores", e um poder que "não hesitou em fazer a maior nacionalização de sempre" com esse objectivo.
Louçã aproveitou para lembrar as declarações de um dos dirigentes mais próximos de Manuela Ferreira Leite, António Borges, que disse defender hoje a privatização da segurança social quando a crise está a ameaçar as reformas aplicadas em muitos fundos de pensões. E deu exemplos de outros "roubos organizados", como o dos 890 milhões de euros no BCP e 150 milhões do cartel das empresas de catering que falseavam concursos públicos.
No comício participou ainda Cristina Andrade, do movimento Fartos d'Estes Recibos Verdes que descreveu a actividade deste colectivo que juntou milhares de assinaturas numa petição contra os falsos recibos verdes e alerta a sociedade para a precarização duma geração inteira, a coberto dum discurso de modernidade, "em que o que é bom é mudar de emprego e que ser jovem é ser precário". "O problema é que quando chegar aos 50 anos, esta geração continuará a ser precária se não encontrar formas de lutar por direitos que sempre teve por adquiridos".
O dirigente bloquista José Soeiro resumiu o modelo Sócrates de emprego como uma "precariolãndia que tem nos call-centers o seu símbolo" e elencou algumas semelhanças com o modelo chinês: "nenhuma liberdade de reivindicação ou organização sindical, trabalho sem direitos e bico calado!" É um modelo que tem as ETT's como as "suas meninas dos olhos, que faz o seu lucro com o roubo de parte do salário do trabalhador". E este código do trabalho "vem legalizar a precariedade dos recibos verdes com uma multinha aos patrões", defendeu Soeiro, que ocupou o lugar de deputado do Bloco na última sessão legislativa. O comício contou ainda com várias projecções video e performances teatrais com Catarina Martins e Valdemar Santos, do Visões Úteis.
O primeiro dia da Marcha no norte arrancou da Avenida da Boavista com uma ronda por alguns dos maiores call-centers da cidade. João Teixeira Lopes e José Soeiro descerraram simbolicamente algumas lápides a assinalar as zonas onde a precariedade extrema se desenvolve nos dias de hoje. Junto à sede da PT, Ricardo Salabert contou a sua experiência enquanto trabalhador ao serviço daquela empresa, através dum contrato temporário.
Na rua de Santa Catarina, a Marcha juntou-se a centenas de pessoas num comício antecedido de performance teatral que mostrava as várias "ofertas" que as ETT's fazem às empresas à custa de trabalhadores descartáveis, submissos e sempre disponíveis. Alda Macedo e Francisco Louçã apelaram à luta para derrotar a prepotência do governo sobre os mais pobres.