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Economia mundial: o pior está para vir

Crise financeiraA retoma não vai apagar a recessão. Será lenta e hesitante e terá provavelmente uma forma de W, com um arranque devido aos planos de relançamento, seguido de uma nova queda num crescimento débil. Para reduzir o défice, poderia pensar-se numa reforma fiscal que contribuísse para uma repartição mais justa dos rendimentos. Mas é evidentemente uma outra via que será a escolhida, a que passa por novos cortes nos orçamentos sociais.
Por Michel Husson, Politis

 

2009 vai ser um ano terrível, mas tudo vai relançar-se em 2010: esse é o consenso oficial. Sempre em busca do furo jornalístico, muitos jornalistas esforçam-se por embandeirar em arco ao menor sinal de evolução na economia: a produção industrial já quase não baixa no Reino Unido; os empregos destruídos nos EUA foram menos numerosos do que o que tinha sido previsto em Maio, etc. É verdade que acabará por chegar um momento em que a economia baterá no fundo e começará a relançar-se. Mas em que estado?

A retoma não vai apagar a recessão. Será lenta e hesitante e terá provavelmente uma forma de W, com um arranque devido aos planos de relançamento seguido de uma nova queda num crescimento débil. Este prognóstico baseia-se em algumas ideias simples. Para começar, o sistema financeiro não foi saneado. Segundo o BCE, "os riscos para a estabilidade financeira continuam elevados (...) houve uma alta significativa nas previsões de potenciais desvalorizações e de perdas que os bancos vão suportar". O FMI, ainda mais pessimista, avalia em 904 mil milhões de dólares a desvalorização dos activos dos bancos europeus até 2010, contra os "apenas" 649 mil milhões de dólares previstos pelo BCE. E exorta a Europa a "tomar novas medidas, em particular no sector financeiro". Na Europa, a quase falência dos países de Leste ameaça os compromissos bancários, etc. Pode portanto enunciar-se uma espécie de teorema: o tempo necessário para sanear a finança será inversamente proporcional ao grau de nacionalização da banca e das instituições financeiras envolvidas.

Para além da questão da finança, os motores da economia mundial também não podem arrancar no regime anterior (ou então não se compreendeu nada da crise): nos EUA, a economia doméstica não vai lançar-se novamente numa fuga para a frente de sobre-endividamento; o modelo chinês terá de reestruturar-se; e a Europa sairá da recessão ainda mais desarticulada e incapaz de prosseguir uma política coordenada.

De qualquer modo, não se sai indemne duma crise. A retoma não apaga instantaneamente os seus efeitos, que deixarão uma tripla herança: uma taxa de desemprego muito elevada, um endividamento público acrescido e uma taxa de lucro em baixa. Para que o capitalismo possa reencontrar um funcionamento "normal", será preciso que ele consiga restabelecer a rentabilidade e reabsorver o défice, diminuindo ao mesmo tempo o desemprego (um pouco, pelo menos).

Estes três objectivos são manifestamente incompatíveis. A produtividade do trabalho irá baixar, quase tanto como a actividade económica, e fará cair a rentabilidade das empresas. O seu restabelecimento equivale a um forte potencial de novas destruições de empregos que ocorrerão de forma escalonada: é o que Dominique Strauss-Kahn reconhece, quando aponta para um "pico do desemprego no início de 2011". No mínimo, a retoma não criará novos empregos e a taxa de desemprego permanecerá a um nível elevado: emprego e rentabilidade estarão, de forma duradoura, em oposição de fase.

Para reduzir o défice, poderia pensar-se numa reforma fiscal que contribuísse para uma repartição mais justa dos rendimentos. Mas é evidentemente uma outra via que será a escolhida, a que passa por novos cortes nos orçamentos sociais. Será portanto rigorosamente impossível, durante um longo período, melhorar a competitividade e a rentabilidade recomeçando ao mesmo tempo a criar empregos, ou relançar a procura ao mesmo tempo que se corta na despesa pública.

Uma missão do FMI acaba de apresentar o seu relatório sobre as políticas postas em prática na zona euro. Eis o que se escreve: "as medidas tomadas para apoiar a redução da jornada de trabalho e o aumento dos benefícios sociais - mesmo que importantes para aumentar os rendimentos e manter a mão de obra no mercado de trabalho - devem ser intrinsecamente reversíveis".

É preciso meditar nesta frase terrível para chegar a compreender que o longo período de "saída da crise" representará uma nova encruzilhada: à violência social acrescida e anunciada de um ultra-liberalismo autoritário, será necessário opor um verdadeiro projecto de transformação social.

Michel Husson, Politis, 1058, 25 de Junho de 2009

Tradução de José Pedro Fernandes para o Esquerda.net

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