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Crise: a ilusão do fim da recessão

Manifestação contra o desemprego em FrançaSupor que a recessão possa ser apagada por uma mini-retoma é não ver mais longe que a ponta do nariz, adverte o economista francês Michel Husson. Os próximos meses vão ver instalar-se um novo escudo recessivo, alimentado pela queda do consumo dos assalariados e das medidas destinadas a reabsorver os défices orçamentais. E há perigosos golpes em preparação contra a Segurança Social e as reformas.

Começa a crise

Por Michel Husson, Regards, Setembro de 2009

Era previsível: o menor estremecimento da conjuntura ia ser interpretado como o sinal do início do fim da crise. Um trimestre de crescimento não-negativo foi suficiente para que os corretores e os bónus recomeçassem, como nos anos 40. Cada um procura tranquilizar-se como pode. Assim, o instituto patronal Rexecode sublinha que "o ajustamento em baixa dos efectivos na fase recessiva actual foi mais fraco que aquele que foi observado nas precedentes fases recessivas".

Supor que a recessão possa ser apagada por uma mini-retoma é não ver mais longe que a ponta do nariz. É possível que o ajustamento sobre o emprego tenha sido (relativamente) moderado tendo em conta a amplitude do choque. Mas a contrapartida é um recuo brutal da produtividade que o Rexecode situa em 2,2%. Isto quer dizer que os resultados das empresas se degradam ao mesmo nível, assim como as finanças públicas, devido à parte do desemprego parcial [lay-off] que elas assumem os encargos. Quem pode acreditar que as empresas não vão procurar restabelecer os seus lucros, bloqueando os salários ou ajustando os seus efectivos? Todos os dispositivos, como o desemprego parcial [lay-off] que desempenha um papel considerável na Alemanha, têm uma duração de utilização limitada. E, logo que se esgotarem, será a vez dos despedimentos puros e duros. O governo sabe-o bem, e manteve um perfil baixo quanto ao "recuo" recente do desemprego conseguido à custa de artifícios, e que não vai impedir o seu aumento ulterior (excepto se lançar mão de novos "tratamentos estatísticos").

A hipótese de uma retomada significativa é pouco provável devido aos próprios ajustes face à crise. Nos Estados Unidos, a taxa de poupança das famílias aumentou sensivelmente, o que quer dizer que o sobreconsumo fundado no sobre-endividamento não vai reassumir o seu papel de motor do crescimento. A China rearranca, mas a procura interna desempenha um papel mais importante que as exportações, o que implica também em menores importações, e portanto saídas menos dinâmicas para os Estados Unidos e a Europa. O Japão está catatónico, o Reino Unido em quase falência, e a Alemanha só conta com as exportações, contribuindo assim para deprimir o crescimento em toda a Europa. Um sector que exerce o papel de motor, como o automobilístico, vai entrar em panne logo que os prémios ao abate sejam suprimidos. E as empresas não recebem qualquer incentivo para investir além da manutenção das capacidades de produção nalguns sectores. E nem falemos do imobiliário.

Assim, os próximos meses vão ver instalar-se um novo escudo recessivo alimentado por dois mecanismos que ainda não estão em acção. Em primeiro lugar, o consumo dos assalariados vai acabar por estagnar devido à queda do emprego e do bloqueamento dos salários. Depois, as medidas destinadas a reabsorver os défices orçamentais vão progressivamente eliminar o efeito de impulso das despesas públicas e sociais na actividade económica.

Por isso, faríamos mal de nos deixarmos impressionar pelo sentimento geral de alívio: "afinal, não era tão grave!" Pelo contrário, temos pela frente vários anos de crescimento deprimido e de medidas de austeridade destinadas a enxugar os planos de relançamento. Por trás dos discursos tranquilizantes, interpreta-se na verdade uma sinistra comédia: o que se passa hoje é a reconstituição discreta dos lucros e das rendas, das quais o escândalo dos mil milhões de bónus é apenas um pequeno símbolo. E há perigosos golpes em preparação contra a Segurança Social e as reformas.

No fim de contas, tudo isto é compreensível: os interesses sociais dominantes só têm um objectivo, o de restabelecer o funcionamento do capitalismo anterior à explosão da crise.

É lógico, mas ao mesmo tempo absurdo. Lógico, porque não não existe alternativa: o capitalismo pôde sair da última grande recessão (a de 1974-1975) ao preço da grande viragem neoliberal do início dos anos 80. Mas o capitalismo só tem, no fundo, duas formas de funcionar: "à Keynes", como durante os "Trinta Gloriosos", ou à "liberal". Como as pressões sociais são insuficientes para regressar à primeira fórmula, não sobra outra alternativa senão ir mais longe na via neoliberal. Mas é absurdo: esta via está duravelmente obstruída porque as suas condições de viabilidade foram destruídas pela crise financeira. Tal é a contradição principal do período que se abre.

Tradução de Luis Leiria

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