DÚVIDAS SOBRE ALEGADO ATENTADO NA GRÃ-BRETANHA
O Guardian de sexta-feira publica um artigo do ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão (2002-2004) Craig Murray que convida o público a encarar com muito cepticismo as notícias sobre o atentado terrorista que tentaria derrubar simultaneamente dez aviões com explosivos líquidos e que teria sido impedido no dia 10 pelas forças contra-terroristas britânicas. O escritor e activista político Tariq Ali já tinha expressado dúvidas semelhantes. Ambos chamam a atenção para o momento escolhido para divulgar o suposto atentado, politicamente favorável a um Blair cada vez mais criticado pela colagem à política americana no Iraque e no Líbano.
O artigo de Craig Murray chama-se justamente "O timing é político" e pode ser lido na íntegra (em inglês) aqui. Resumindo, Murray chama atenção para o facto de nove dias depois do atentado (e hoje já são dez) nenhum dos 23 detidos (foram 24 mas um já foi libertado) ter sido acusado. O ex-embaixador não tem críticas ao trabalho jornalístico feito até agora, mas lembra que as fontes ouvidas, normalmente dos serviços de segurança, são pouco confiáveis - vide, por exemplo, os que asseguravam que o brasileiro Jean-Charles Menezes, que foi assassinado pela polícia britânica, teria fugido dos agentes da polícia e saltado a barreira do Metro - o que se revelou completamente falso.
Quanto às prisões de dia 10, "nenhum dos alegados terroristas tinha feito uma bomba. Nenhum tinha comprado um bilhete de avião. Muitos não tinham passaportes. Pode ser muito difícil convencer um júri de que estes indivíduos estavam à beira de se tornar bombistas suicidas, fosse o que fosse que tivessem conseguido retirar da net."
"Mais: muitos dos presos tinham estado sob vigilância por mais de um ano - como milhares de muçulmanos britânicos... Nada desta vigilância indicava a necessidade das prisões."
A decisão de efectuar as prisões, lembra Murray, veio de um interrogatório feito no Paquistão. "Claro, os interrogadores da ditadura do Paquistão têm forma de fazer as pessoas cantar como canários."
Murray também estranha que Bush e Blair tenham discutido as prisões no fim-de-semana antes de elas serem efectuadas. "Porquê? Ambos com problemas domésticos, ansiavam por um oportunidade de mudar a história. As informações do Paquistão, apesar de duvidosas, deram-lhe essa oportunidade. Comparações com o 11 de Setembro em todas as primeiras páginas." O ministro John Reid também aproveitaria para fazer propaganda contra os que "não entendem" porque é necessário abandonar as tradicionais liberdades civis para combater o terrorismo.
Para Murray, se todos os suspeitos estavam a ser vigiados e faziam parte da lista de segurança dos aeroportos, o normal seria deixá-los prosseguir a alegada operação: "era isso que teríamos feito com o IRA." Por isso, o ex-embaixador diz-se convencido de que o momento escolhido é profundamente político: "Isto é mais propaganda que atentado. Mais de mil muçulmanos britânicos foram presos ao abrigo da legislação antiterrorista, mas apenas 12% foram acusados. Isto é assédio numa escala aterradora. Dos acusados, 80% foram absolvidos. A maioria das poucas condenações - apenas 2% dos presos - nada têm a ver com terrorismo, mas com crimes menores com que os polícias se depararam enquanto vasculhavam as vidas que já tinham destruído."
Murray reconhece, obviamente, que o terrorismo islâmico existe, mas afirma que o seu crescimento é encorajado pela adesão do Reino Unido à política externa neoconservadora e termina com um aviso contra os políticos que procuram beneficiar-se do terror.
Já Tariq Ali publicara no dia 14 uma nota na revista online Sin Permiso (pode ser lida aqui em espanhol). Nela, afirma que "Até que me mostrem provas, continuarei céptico. Os serviços de informações britânicos gritaram tantas vezes "O lobo!" desde que o Reino Unido decidiu unir-se à cruzada de Bush no Iraque, que é imperioso exigir-lhes que tornem públicas as provas da conspiração."