A ex-secretária de Estado da Educação diz que o governo Sócrates representa uma "ruptura de política educativa" em relação ao governo Guterres, de que fez parte. Uma das diferenças é que "o Partido Socialista, actualmente no governo, é o maior defensor" da competição escolar, acusa Ana Benavente.
No artigo publicado na revista Ops , "A Escola e a Democracia, das palavras aos actos: paradoxos", Ana Benavente traça as diferenças entre o governo de que fez parte e o de hoje: "assistimos a uma ruptura de política educativa entre o governo liderado por Guterres e o governo de Sócrates; onde se construía a autonomia das escolas, assiste-se agora a uma burocratização excessiva e esmagadora", diz a ex-secretária de Estado.
"Onde se valorizava a carreira docente e o trabalho em equipa, temos hoje uma divisão dos professores que serão avaliados por colegas e para quem os resultados dos alunos integram tal avaliação; assim, os resultados positivos dos alunos serão verdadeiras imposturas". acusa Ana Benavente.
As mudanças na escola têm sido profundas nos últimos anos e Ana Benavente alerta para a competição em que os alunos são enquadrados. "Criou-se a ideia de que a sociedade desenvolvida é a da competição e que, na escola, se aprende a competir. O Partido Socialista, actualmente no governo, é o maior defensor desta perspectiva".
O exemplo disso são os prémios de excelência aos alunos, contestados por Ana Benavente: "E que dizer dos 500 euros dados pelo governo aos alunos com melhores notas no ensino secundário? Será que tiveram explicadores? Não sabemos. Será que têm meios familiares, na sua maioria, que os apoiam e ajudam? Não sabemos".
A ex-governante também não poupa críticas aos sindicatos pela estratégia seguida após a manifestação de 8 de Março, falando mesmo em traição. "Se é verdade que a manifestação dos 100.000 (em 2008) foi traída pelos Sindicatos, pois não se seguiu nenhuma negociação que levasse a uma inflexão da política educativa, nem por isso os professores se podem sentir vítimas e isolar-se na sua impotência", afirma Ana Benavente.