A Dama de Ferro é o típico filme de forma sem fundo. Para representar Margaret Thatcher, personalidade facilmente reconhecível mas de quem se conhece pouco, a diretora deste drama teve que nivelar por baixo: falar da personalidade política sem falar de política, ou seja, destacar as intenções sem julgar as ações.
1) “O bom político é aquele que se impõe contra todos”
O filme poderia ser divido em duas metades: a história da protagonista até à sua ascensão ao poder, e a descrição do seu governo. A primeira parte apresenta de maneira romanceada a trajetória da jovem Margaret, loira tímida numa cidade em que todas as moças são morenas e maliciosas; mulher num território de homens; filha de comerciantes num território de aristocratas. Todos os fatores estão contra a protagonista, e por isso a sua ascensão parece ainda mais espetacular.
Phyllida Lloyd, diretora do nada subtil Mamma Mia!, mostra novamente o seu olhar preto e branco para os contrastes sociais, raciais e políticos. A sua Margaret Thatcher é menos uma mulher política do que um símbolo: as pérolas, o chapéu, os sapatos, duas ou três frases de efeito. Na primeira metade do seu filme, as imagens mostram os sapatos de salto de Thatcher cercados por sapatos sociais pretos, as suas unhas pintadas sobre a mesa, ao lado de mãos cobertas de pelos. Ou seja, o primeiro item aqui é simples: ela é mulher, de origem humilde. Ela é uma minoria, e a sua vitória social (mais do que política) apresenta-se como um fator louvável e democrático em si.
O problema é que Margaret Thatcher não entrou na História por ser uma rara mulher num território tradicionalmente masculino, e sim pelo conservadorismo e pela sua visão social particularmente repressora. Thatcher sem as suas ideias é uma mulher a mais, uma pessoa humilde a mais, e a sua conquista do poder não seria diferente daquela de outras minorais, como Lula, “filho do Brasil” ou Barack Obama.
Pior do que isso, louvá-la apenas pela sua grande persistência e força de vontade faria de Thatcher alguém não muito diferente de, digamos, Hitler, Mussolini, Gandhi, Lenine, Madre Teresa ou Osama Bin Laden, que todas foram pessoas inegavelmente perseverantes, com muita força de vontade e crença cega nas suas ideias. Uma biografia da Dama de Ferro que não a responsabiliza pela sua ideologia nem pelas suas ações ignora o fator principal pelo qual esta mulher é importante historicamente, e a razão pela qual cogitou-se, para começo de conversa, que ela poderia servir de material a um filme.
2) “O bom político é aquele que faz alguma coisa”
A maioria das pessoas que diz que tal personalidade política “nunca fez nada” durante o seu mandato é justamente porque não conhece nada do que foi feito. A lógica vem de uma indução simples: “Se eu não conheço nada bom que X tenha feito, é porque X nada fez de bom”. Frequentemente, estamos perante de pessoas que não se interessam muito pela política, que não procuram informações a respeito. Políticos fazem sempre muitas coisas, boas ou más, que vão de grandes reformas tributárias a mudanças de nomes de ruas. O facto de simplesmente contentar-se por ver um político “fazer alguma coisa” relata o esvaziamento do ato político em si – e todos os adoradores de Paulo Maluf, aquele que “rouba mas faz”, são exemplos perfeitos desta ideia.
Pois a segunda metade de A Dama de Ferro explicita a impressão do início: este é um filme sobre Margaret Thatcher para quem não gosta de política, para quem não conhece os fatos políticos nem tem interesse em conhecê-los. Este é um filme para este espectador médio, conformista, que acha que a política é “algo sujo, cheio de corruptos” – justamente este indivíduo que deseja que os políticos “façam alguma coisa”.
A retórica mais comum durante a narrativa é portanto a da ação abstrata: Thatcher diz que “quer fazer algo”, que “precisa mudar as coisas”, que “sempre sonhou em transformar a situação”. Mudar o quê, como? Para pôr o quê no lugar? Estas perguntas essenciais são esquecidas. Embora várias decisões importantes do governo da Primeira-ministra britânica sejam mencionados, elas não são julgados pelo filme. Não que o roteiro seja obrigado a tomar partido, longe disso, mas ele também não explora as contradições e a complexidade de suas decisões.
Assim, num jogo de “ação sem consequência”, Thatcher aparece como uma figura ultra poderosa, porque sem real obstáculo ao seu poder. Muitos personagens reclamam da sua política, mas ela fecha os olhos, respira e – corte para o próximo plano – a sua vontade está a ser executada. A omnipotência desta personagem também é construída pelo próprio roteiro, que recusa observar a História por um outro ângulo que não seja o da própria biografada. Ela faz sempre como quer, e a tensão crescente que leva ao fim do seu poder aparece como um lapso inexplicável do roteiro. Prefere-se mostrar a sua saída do governo como um ato de bravura, de bom senso, uma escolha única e pessoal – como se as manifestações populares sangrentas nada tivessem a ver com isso.
Por fim, A Dama de Ferro é um curioso filme que retira da política o seu laço social, o seu impacto económico, e a reduz à força de vontade individual de Margaret Thatcher. Como um “American Dream” britânico, parece que qualquer um se pode tornar Primeiro-ministro, “basta querer e persistir, e querer mudar as coisas”. Este filme é uma mostra do que ocorre quando se tenta tornar a política agradável, digerível aos olhos de um público que considera o ato de governar como algo sujo e deplorável.