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Um passivo de trinta anos

A crise de hoje deve ser compreendida como a crise das soluções aplicadas à que a antecedeu. Para simplificar, elas assentavam em dois elementos: a compressão salarial e o financiamento.
A crise de hoje deve ser compreendida como a crise das soluções aplicadas à que a antecedeu.

Um economista mais inspirado escrevia em Agosto de 2008 que “a questão do subprime está agora bem estampada no retrovisor”1. Olhar para o retrovisor é uma boa ideia porque não se compreenderia nada do funcionamento da crise actual sem a colocar em perspectiva. O ponto de partida é uma outra crise – a de meados da década de 70 - que marca o fim dos “Trinta anos gloriosos”. Uma vez que as politicas habituais não conseguiam reactivar a máquina, deu-se a grande reviravolta liberal no início dos anos 80. Vivemos então há trinta anos (os “Trinta anos lastimosos”) num regime de capitalismo neoliberal.

A crise de hoje deve ser compreendida como a crise das soluções aplicadas à que a antecedeu. Para simplificar, elas assentavam em dois elementos: a compressão salarial e o financiamento. O crescimento - e especialmente os lucros - puderam reverter numa regressão social galopante. O motor do crescimento já não era o valor salarial mas o consumo dos ricos e o crédito. Este permitia aos pobres consumir para além das suas receitas, e aos países – em primeiro lugar os Estados Unidos - financiar o défice.

O crescimento, aliás menor que o do período anterior, era desigual, frágil, desequilibrado e, em parte, fictício. Mas tinha, aos olhos de quem dominava, a vantagem de lhes permitir captar uma boa parte das riquezas produzidas. Se não tivesse havido crescimento nos Estados Unidos, a situação de 90% da população ter-se-ia mantido inalterada. Tudo isto se construiu sobre uma montanha de dívidas que desabou e os sofisticados produtos financeiros permitiram que uma crise a priori limitada se estendesse ao conjunto do sistema bancário.

Salvaram-no. E vai de louvar a sabedoria dos governos que não reproduziram os mesmos erros de 1929, quando o seu ministro das Finanças, Andrew Mellon, recomendava ao presidente Hoover que “liquidasse o trabalho, liquidasse as acções, liquidasse os fazendeiros, liquidasse o imobiliário” a fim de eliminar “a podridão do sistema”. Foram injectadas avultadas somas para salvar os bancos. Mas, salvo raras excepções, sem exigir quaisquer condições. No entanto, era o momento ideal para o fazer a quente, e as posteriores lamentações sobre a necessidade de regulamentar a banca não são mais do que atirar areia para os olhos.

Ainda para simplificar, a “batata quente” que era este amontoado de créditos e de títulos de dívida igualmente podres passou dos bancos privados para as finanças públicas. Punha-se então o problema de escolher o timing certo para reduzir esta dívida. Havia um acordo relativo para dizer-se que era preciso esperar que a “retoma” estivesse suficientemente instalada para se passar ao rigor fiscal. Mas a pretensa sabedoria dos governos foi rapidamente esquecida e todos, pelo menos na Europa, fizeram uma brusca inversão de marcha em direcção a planos de austeridade absolutamente loucos, semelhantes aos de Brüning na Alemanha em 1931 ou de Laval em França em 1935.

Isso equivale a passar a batata quente para a maioria da população, que, obviamente, não é responsável pela crise, e nas costas da qual se vinha há trinta anos construindo a prosperidade dos ricos que se quer agora preservar. Que o socialista Zapatero seja capaz de suprimir o subsídio de desemprego aos desempregados não registados mostra até que ponto os governos, quer sejam de esquerda ou de direita, se submetem às exigências dos “mercados”. No entanto, “estes mercados que desestabilizam, a Irlanda, Portugal ou a Grécia, são, quase sempre, instituições financeiras instaladas em estados membros da união monetária”2. Há, então, uma grande aliança (eventualmente conflituosa) entre as finanças e o patronato que dita, aos governos que o consentem, estas políticas de violência social às quais estão sujeitos os povos europeus. Não é nem mais nem menos do que um ajuste de contas, abrangendo um passivo de 30 anos e que requer uma resposta social proporcionada.

Publicado em Regards, Janeiro de 2011

Tradução de Deolinda Peralta para esquerda.net


1 Patrick Artus, Challenges n°28, Agosto de 2008, http://tinyurl.com/artus8

2 Jean Quatremer, « Dettes : la zone euro rongée de l'intérieur », Libération, 27 novembre 2010, http://gesd.free.fr/4m2710.pdf

Sobre o/a autor(a)

Economista francês. Investigador no IRES (Instituto de Investigações Económicas e Sociais)
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