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Um livro contra o esquecimento

"Palestina, até 1948 : exercício contra o esquecimento” é um livro que recolhe fotografias da vida quotidiana e mostra uma sociedade dinâmica e diversa, antes da expulsão dos seus habitantes com vista à criação do Estado de Israel. Por Olga Rodriguez.
Funcionários do departamento da alfândega em Haifa. Shafika Sa’ad, no centro, com blusa de bolinhas, e as duas mulheres à esq. na primeira fila são judias. 1940-1942.

Uma memória fotográfica da Palestina antes da Nakba, 1889-1948” (1) com imagens que desmentem a ideia de um “território vazio”.

O projeto, coordenado por Teresa Aranguren, Sandra Barrilaro, Johnny Mansour e Bichara Khader, com prefácio do arabista Pedro Matínez Montávez, mostra uma realidade negada com demasiada frequência: a existência da Palestina não como abstração, mas como uma sociedade, cultura e território que foi ocupado e usurpado por colonos.

Nas palavras da jornalista Teresa Aranguren, conhecedora da região, “negar a existência do povo da Palestina foi premissa fundamental do movimento sionista, que pretendeu não apenas ocultar sua existência, mas até mesmo a lembrança de que havia existido”. Porém o que existe deixa rasto, e este livro recompila parte dessa memória que constata a existência, antes da ocupação, de centenas de milhares de palestinianos que foram expulsos de suas terras em 1948.

As fotografias mostram o povo palestiniano, sua vida quotidiana, assim como aldeias que foram destruídas pelos ocupantes e cujos nomes já não figuram no mapa. “Este livro recolhe fotografias que são pegadas daquela existência que se quis apagar. Não é um exercício de nostalgia, mas de afirmação”, observa Aranguren.

As fotos incluem desde as greves palestinanas contra o mandato britânico e o sionismo até cenas familiares de costumes da época, passando pelas participantes no Primeiro Congresso das Mulheres Árabes da Palestina, que se mobilizaram contra a Declaração de Balfour (1917), a qual contemplava a criação de um Lar Nacional Judaico na Palestina.

O acesso a uma parte das fotos foi facilitado pelo professor e historiador palestino Johnny Mansour, procedente da cidade de Haifa, o qual explica no livro que os habitantes palestinianos de Haifa “foram obrigados a expatriar-se em 1948 sem contemplação e com procedimentos muito selvagens, de tal forma que dos seus 75 mil habitantes palestinianos não ficaram mais do que 3 mil”.

Outras imagens foram recompiladas por Teresa Aranguren e Sandra Barrilaro, que viajaram para os territórios palestinaianos ocupados e recolheram fotos de familiares dos seus amigos e conhecidos em diversas cidades e povoados. Outras ainda pertencem ao arquivo fotográfico do hotel American Colony de Jerusalém, conhecido como Coleção Matson, com mais de 22 mil negativos e placas de vidro.

As fotos incluem retratos de celebridades, acontecimentos sociais e políticos, festas populares, fábricas, profissões. O livro recolhe também trechos da carta enviada ao primeiro ministro britânico, Winston Churchill pela delegação árabe que viajou até Londres para se opor à declaração de Balfour em 1921 e que afirmava: “O grave e crescente mal-estar entre a população palestiniana provém da sua convicção absoluta de que a atual política do governo britânico propõe-se expulsá-la do seu país com o objetivo de o converter num Estado nacional para os imigrantes judeus… A Declaração Balfour foi feita sem nos consultar e não podemos aceitar que decida o nosso destino…”.

Grupo de patrulheiros, fotografía pertencente à família Saqqa, da cidade palestiniana de Belém.

A ocupação da Palestina e a expulsão da sua gente já era uma crónica anunciada nos anos vinte. Duas décadas depois, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto contribuíram para a tornar realidade. As suas consequências continuaram marcadas pelo sofrimento que se tem acentuado em pleno século XXI.

(1) Ediciones del Oriente y del Mediterráneo.

Artigo de Olga Rodriguez publicado no Outras Palavras em 11 de janeiro de 2016. Tradução de Inês Castilho.

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